Fotografia

Crianças fotografam as suas vidas nos bairros mais pobres de Madrid

Sítios que não aparecem nas páginas dos guias turísticos, nem nas séries de televisão, nem em campanhas publicitárias.

Por Ana Iris Simón; Traduzido por Madalena Maltez
11 Junho 2019, 3:39pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Em Fevereiro de 2018, 21 câmaras descartáveis foram entregues a 30 crianças dos bairros de Orcasur, em Usera e Las Torres, em Villaverde, Madrid, Espanha. Todas têm entre 9 e 12 anos e todas participaram no Projeto Barrios, uma iniciativa artística colaborativa levada a cabo pelas associações Bombo e Caja, Coletivo Masquepalabras, Ciudad Distrito e Intermediae de Matadero de Madrid, que visa levar a cultura urbana em todas as suas formas a crianças de diferentes bairros da periferia.

Com as máquinas, fotografaram as suas escolas, as suas casas, os parques em que brincam, o quotidiano de dois bairros que "não aparecem em guias turísticos, nem em séries de televisão, nem em campanhas publicitárias, nem em inquéritos de rua de revistas, nem nos telejornais... e quando aparecem nos telejornais, geralmente é porque não são boas notícias", como escreve Sergio C. Fanjul no epílogo do livro que, depois de reveladas as imagens, acabam de publicar em colaboração com o La Troupe.

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"Este é um bairro construído do zero, feito de suor, com carinho e com trabalho. Batemos no fundo para aprender a voar e seguimos em frente para podermos ajudar-nos", diz um dos textos manuscritos com letra infantil que acompanham as fotografias do livro. É um fragmento de uma das músicas que, no quadro do projecto, as crianças escreveram. Com elas, gravaram videoclips e deram concertos.

"Orcasur é um bairro criado após a redistribuição de habitação social nos anos 80 em Usera e Las Torres, em Villaverde, é o resultado do realojamento das pessoas que viviam em bairros erguidos em descampados naquela zona", explica Javier Benedicto, coordenador do livro de fotografias. E acrescenta: "O projecto Barrios tem três vertentes: social, cultural e artística, tudo dentro da estrutura da cultura hip hop. Tradicionalmente, a cultura urbana tem mostrado que oferece resultados e que é uma ferramenta muito útil para trabalhar com a população desfavorecida. Na década de 1980, quando nasceu em Nova Iorque, foi em bairros periféricos com uma população jovem sem presente e sem futuro, longe do centro, em ambientes tradicionalmente negligenciados pelas instituições. Depois trasladou-se pelo globo nesse sentido, com um peso educacional e de intervenção, bem como artístico".

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Mas, antes de distribuir as câmaras entre as crianças houve muito trabalho prévio: duas bloc parties nas quais participaram Denom, Dano e Nathy Peluso, cursos de redacção criativa que estruturaram o projecto durante um ano e que tinham como objectivo que as próprias crianças liderassem o processo criativo que consistia em escrever, fazer músicas, concertos e videoclips, workshops de graffiti e aulas de produção ou interpretação para os telediscos. O photobook é o culminar do trabalho, que serve para tornar visível como é a vida nos bairros onde eles já cantaram, onde filmaram os seus vídeos e deram os seus concertos.

"No curso de fotografia, explicámos o que é a foto analógica e demos-lhes as câmaras. A ideia era que pudessem retratar o ambiente à sua volta e representar a forma como eles se movem nele. São crianças que estão habituadas à fotografia, porque têm telemóveis à mão E em muitas das fotos podes ver selfies e jogos curiosos que estão mais associados ao digital", explica Javier.

E acrescenta: "No entanto, eles respeitaram muito bem os tempos e entenderam que não se tratava de desperdiçar o rolo inteiro num dia, embora continuassem a perguntar quando tiravam uma fotografia 'Onde é que eu a vejo agora?'. Do processo saíram 500 fotografias das quais, em conjunto com o La Tropue, colectivo artístico especializado em livros fotográficos, montámos o livro em colaboração, também, com as miúdas e os miúdos".

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No dia 5 de Junho último, as crianças foram ao Matadero de Madrid para apresentarem o seu projecto e darem uma conferência de imprensa. "A diferença em relação às câmaras era que não podíamos ver [as fotos] e foi difícil tirar fotografias, porque não sabias onde focar, onde a pessoa estava ou o que querias fotografar, porque não havia ecrã", salienta Paula quando questionada sobre a diferença de fotografar em analógico e digital.

"Sinceramente", acrescenta Javi, uma criança muito pequena, com olhos muito grandes e um dom da palavra que faz a sala toda sorrir, "eu gosto de tirar fotos com máquinas analógicas mais do que com um telemóvel. É um sentimento diferente, tem aquele mistério de não saberes como é que as fotos saíram e se fizeste algo errado e não tens outra suplente, tens que enfrentar isso”.

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"Os bairros também são um mito, um imaginário, uma grande extensão de casas indiferentes e desocupadas, autocarros que iluminam a noite carregados de trabalhadores, bibliotecas públicas e escadas rolantes que levam a não sei onde. O som do bombo e da caixa, o rap no parque, o hard rock da periferia. Andas e andas e os bairros não acabam, a cidade nunca acaba e continuam a aparecer edifícios, blocos e mais blocos de vidas e mais vidas que são o mais importante para si mesmas ", escreve Fanjul nas últimas páginas de Barrios.

Um livro que, desde o metro e quarenta e o metro e cinquenta de altura que medem a maioria dos fotógrafos que nele participaram, retrata o dia-a-dia de todos aqueles autocarros que iluminam as noites, cheios de trabalhadores árduos com o olhar já cansado. O quotidiano desses blocos e mais blocos de apartamentos cheios de vidas e mais vidas que nunca acabam e que não aparecem, ou não costumam aparecer, na televisão. E se aparecem, não é por nada que seja bom.

Vê abaixo mais fotos de "Barrios".

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