Identidade

Os homens estão preocupados com a possibilidade de não conseguirem estabilidade para terem filhos

Entre o facto de vivermos numa situação financeira pior que a da geração dos nossos pais e a crise climática, há muito a ter em conta.

Por Ryan Bassil; ilustração por Esme Blegvad; Traduzido por Madalena Maltez
27 Junho 2019, 3:08pm

Ilustração por Esme Blegvad.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Andrew tinha vinte e poucos anos quando percebeu que talvez nunca viesse a ter filhos. Agora, com 30 e a trabalhar na área da hotelaria no norte de Inglaterra, ele tem quase a certeza absoluta disso. "Trabalho muitas vezes até à uma da manhã e, com a maior parte do meu salário a ir para a renda, sobra muito pouco", realça. E acrescenta: "Costumavam perguntar-me quando é que ia assentar e começar a minha própria família. Demorou um pouco para que percebessem que é algo que não quero".

E ele não é o único. Por todo o Planeta, o número de pessoas a ter filhos está a descer. Em 2018, o Center for Disease Control and Prevention reportou que a taxa de natalidade nos EUA tinha chegado ao seu ponto mais baixo de sempre. O mesmo na Coreia do Sul. Em Inglaterra, o número de recém-nascidos é o mais baixo dos últimos 14 anos [Nota do editor: em Portugal, 2019 parece estar a ser um ano de subida na natalidade, com o primeiro trimestre a registar o valor mais alto dos últimos sete anos. Mais dados sobre natalidade no país, aqui].


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Tem sido feita muita investigação sobre o porquê desta situação. Um grande estudo, publicado no The Lancet no final de 2018, encontrou uma queda nas taxas de fertilidade no total (quantas crianças é que as mulheres estão a ter ao longo da sua vida, em vez da taxa de natalidade num país por cada mil pessoas) entre 1950 e 2017. O New York Times publicou um relatório em que identificava como causas o carreirismo e a insegurança financeira. O The Guardian analisou os casais que estão a desistir de ter crianças para salvar o Planeta.

A tecnologia também desempenha um papel importante - contraceptivos melhores e mais acessíveis e taxas mais baixas de mortalidade infantil significam que os casais de hoje não tendem a ter tantos filhos (se souberes que todas as crianças sobreviverão, é menos provável que tenhas várias, visto que também tens acesso a contracepção segura). Todos os sinais apontam para a tendência sinalizada no relatório publicado pelo Lancet: é provável que tenhamos menos filhos do que a geração dos nossos pais.

Com razão, o debate centrou-se principalmente nas mulheres. Conceber mais tarde na vida cria obstáculos nos percursos de vida das mulheres, desde potenciais complicações de saúde à expectativa de que elas têm que escolher entre a carreira e a maternidade, numa altura em que há uma possibilidade de a fertilidade estar a diminuir - algo que, incorrectamente, muitas vezes se assume que só afecta as mulheres. Algumas mulheres (muitas vezes famosas) dizem que, simplesmente, não têm tempo e optam por barrigas de aluguer [Nota do editor: opção também assumida por homens, como é o caso de Cristiano Ronaldo]. Outros dão como motivo a falta de dinheiro. Além de tudo isto, os bebés são caros. A organização Child Poverty Action Group estima que, no Reino Unido, custa cerca de 75 mil libras (cerca de 83.700 euros] ter um bebé em casal, ou 103 mil (aproximadamente 115 mil euros) como mãe solteira (e isto sem sequer contar com a creche).

Por isso é que oiço frequentemente ex-namoradas e amigas a questionarem se querem ter filhos. A minha colega de casa, Tamara, de 27 anos, diz que só quer ter filhos se puder "rodeá-los com mais bem do que mal", algo com que se preocupa quando pensa em "criá-los num sítio onde o futuro se prevê aterrorizador". És capaz de ter ouvido um sentimento parecido a ecoar nos últimos anos.

Pessoalmente, sempre quis ter filhos. Mas, vivo num apartamento partilhado e arrendado, do qual não me vejo a sair tão cedo - além disso, a crise climática dá-me um toquezinho no ombro de vez em quando para sussurrar que o Mundo está a morrer lentamente. As mulheres são constantemente representadas nos media como as que pensam mais em ter filhos, mas tenho a certeza de que os homens também estão a avaliar o que realmente significaria ter filhos no futuro.

Isso é certamente verdade para David, um homem de 34 anos que trabalhou como oficial do exército, em patologia e em medicina forense. Ele explica-me que “não gostaria de trazer uma criança para um Mundo tão horrível". E acrescenta: "Além disso, nunca vou ganhar o dinheiro que permitisse termos um estilo de vida sem preocupações”.


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Por outro lado, alguns gajos simplesmente não se importam, pelo menos não por razões que vão mais além do que a sua realização pessoal. Daniel*, que trabalha em comunicação e está nos seus 30 e poucos anos, diz-me: “Não estou muito preocupado com a questão de ter filhos, mas sinto que, se não o fizer, talvez nunca tenha realmente crescido. Há um pouco de separação entre os meus amigos - aqueles que tiveram filhos por volta dos 30 anos e viviam principalmente fora das cidades. E os outros que estão em modo Peter Pan e dizem: 'Não nos próximos anos'".

No entanto, esses homens estão agora nos seus trintas. No geral, a geração mais jovem está um pouco mais ligada ao aspecto ambiental. A ciência tem consistentemente enfiado nas nossas cabeças que ter um filho é prejudicial para o Planeta (uma média de 58,6 toneladas de emissões equivalentes de CO2 por ano, para ser factual). Jamie, de 27 anos, tem certamente isso em conta na base da sua decisão de não ter filhos. "Estou preocupado com o efeito prejudicial que teria no meio ambiente e no Planeta como um todo", realça. Da mesma forma, menciona a adopção como uma melhor opção, considerando quantos órfãos ainda crescem fora de famílias estáveis. E justifica: "Se queres filhos, então há milhões por aí à procura de serem amados e insistir em ter um filho para promover a tua própria linhagem é uma coisa muito arcaica e egoísta de se fazer".

Alex, um licenciado de 22 anos, também segue esse mesmo raciocínio. Como ele diz: “Realmente não me sinto confortável em trazer alguém para este Mundo, tendo em conta a velocidade das alterações climáticas e a falta de acção para lidar com isso. Acho que terei sorte se morrer antes de vermos sérios impactos na nossa vida quotidiana e não consigo imaginar deliberadamente trazer mais alguém para contribuir para esta desgraça”.

Ainda assim, de todas as respostas que recebi, os homens pareciam relativamente mais relutantes em inclinarem-se para o lado emocional de ter filhos. Até que falei com James*, um escritor de 37 anos de Londres. "Estou no que os especialistas idiotas chamam de 'elite liberal metropolitana, mas constantemente falida", sublinha. E acrescenta: “Portanto, o problema é financeiro. Há aspectos da paternidade que eu anseio profundamente: dar amor incondicional a outra alma, transmitir a sabedoria que adquiri, observar essa nova mente a desenvolver-se". O que é querido.

Resumindo, os homens no geral também querem ter filhos, mas as suas preocupações são também mais profundas. Como me disse James: "Há algo de errado na forma como a sociedade está estruturada. Isso é inegável. E o facto de não poder ter filhos é como eu sinto que esse erro de estruturação me afecta, da maneira mais profunda e pessoal".

*Alguns nomes foram alterados


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