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Porque é que gostei de tudo, mesmo não gostando de tudo no NOS Primavera Sound

"Se estamos a ficar mais velhos, é mais uma razão para procurarmos descobrir ainda mais. Mesmo que seja só para perceber que não é a nossa cena".

Por Pedro Paulos, e Lara Luís; ilustração por Lara Luís
13 Junho 2019, 3:33pm

Todas as ilustrações por Lara Luís.

O envelhecimento é um dos grandes problemas por resolver dos nossos tempos. Acreditem. Está na primeira fila, logo depois da fome, da guerra e da nova temporada do Black Mirror. Até porque é inevitável. Por mais que compremos um descapotável, ou que continuemos a recusar-nos a usar fato, todos estamos - com sorte - a caminhar para velhos. Mais rezingões, com menos paciência, cheios de manias, de bagagem cheia, mas também com um olho mais treinado.

Depois dos 30, quebra-se a paciência para as "tendenciazinhas" do momento. Para as euforias passageiras. Porque sabemos que muitas delas fazem parte de um ritual de passagem, que se vai desvanecer mais rapidamente do que muitos pensam. Percebemos que, na verdade, ninguém quer saber, e começamos a ser um pouco mais livres.

Vem esta dissertação - imensamente profunda e original - a propósito da minha incursão pelo NOS Primavera Sound 2019, que se realizou entre 6 e 8 de Junho, no Parque da Cidade do Porto, e cujas incidências detalho abaixo, cronologicamente e com ilustrações da Lara Luís, que também andou por lá a viver a vida dela.

DIA 1 - CHUVA, CHUVA, CHUVINHA!

Ilustração por Lara Luís.

Quando cheguei ao Porto, de manhã. Ia para aproveitar a cidade, depois de lançar isco ao petisco no Bufete Fase, um cliché que desce tão bem como uma cerveja. A moral era grande para os três dias que se seguiam, recheados de artistas do meu tempo, de antes do meu tempo e, provavelmente, de depois do meu tempo. Mas, assim de surpresa, chegou uma convidada inesperada: a puta da chuva.

Sim, eu até sabia que era artista repetida do ano anterior, mas sofro de positivismo. Estava ciente de que era uma hipótese e até fui preparado para isso. Ainda assim, há uma enorme diferença entre a ideia romântica de ter de ver concertos à chuva e a realidade: chuva é desconfortável, porra! Se deres às pessoas a escolher entre frio e calor, as opiniões dividem-se. Com frio podes-te agasalhar, com calor podes ir à praia. Só um burro é que escolheria chuva! Água gelada a pingar do céu e a transformar-te num saco de chá frio que anda. Que sonho!

Tudo isto para dizer que, no primeiro dia do NOS Primavera Sound só cheguei às nove da noite, porque já não tenho idade para passar um dia de roupa molhada, sobretudo quando há aplicações que nos dizem a que horas é que podemos evitar que isso aconteça. Ainda por cima quando essa hora é a hora de Jarvis Cocker. É um dos meus letristas preferidos mas, foda-se, está a ficar velho. E continua a usar as mesmas roupas. Há mesmo uma idade em que as pessoas param de mudar de estilo? Lá rebolou, encantou e conversou com o público. Depois de tanta emoção e música ainda faz um truque de magia e tira uns chocolates do bolso. Deviam estar para lá de moídos. Ah, e quem é que oferece chocolates? Os avós. Coincidência? Deixa lá, Jarvis. Mais tarde ou mais cedo, o grisalho é a cor da moda, até para os putos das ganzinhas.


Vê: "Devoção, entusiasmo e loucura. Um documentário sobre o que é ser fã de música"


Por falar neles, seguiu-se Allen Halloween. Não, esperem, seguiu-se correr na chuva. Toda a gente a abrigar-se nas barracas das bebidas na esperança de ficar seco, enquanto um tipo ao meu lado me pedia licença para passar. Esse não, esse só queria beber qualquer coisa. Lá abrandou a pinga a tempo do Allen Halloween, que acelerou a moca da plateia com “Drunfos”. Choveram, mas foram rimas.... Não, deixem lá, também choveu que se fartou.

A idade sentiu-se também nos Stereolab. Não na música, calma. Estes gajos não ficam pior com o tempo. Estão só… mais velhos. Parece que há artistas que têm o direito de ficar velhos e outros não e não devia ser assim. Espero que daqui a 20 anos alguém olhe para o meu trabalho e continue a querer lê-lo, vê-lo ou ouvi-lo mas cá estou eu a escrever este texto da piça. Algumas coisas vão ficar connosco para sempre, como o Jarvis Cocker com o seu estilo. E ainda bem que os Stereolab não têm medo da sua idade, precisamos que as coisas boas continuem.

Terminei o dia depois de dança qb, no concerto da Solange. Dei-lhe uma hipótese. Dei duas. O espetáculo estava fantástico. Um cenário branco gigante, com umas escadas a lembrar aquele programa da SIC, o Vale Tudo. Fui para casa a tempo de evitar uma molha tremenda, fiquei orgulhoso. Por vezes a diferença entre um bom concerto e um concerto menos bom é nossa, mas ninguém me tira o triunfo de ter escapado ileso a tamanha chuvada torrencial.

DIA 2 - REVOLTADOS DO MUNDO, UNI-VOS!

Ilustração por Lara Luís

Almoço regado e sesta. Prolongada demais. Sente-se o peso na cabeça. Lá vai o tempo em que a ressaca poupava esforços por estes lados! E cheguei outra vez atrasado. “Como se perde Nilüfer Yanya”, o trailer.

Chegado ao recinto, deslizo para Courtney Barnett. Pensaria que os revoltados com o facto de J Balvin estar no cartaz iriam mostrar mais entusiasmo, nem que fosse para mostrar que a “malta do rock” também sabe festejar à grande, mas não. Foi por essas e por outras que fui ver Sons of Kemet XL. Adoro que as pessoas “do rock” se revoltem por um artista de reggaeton estar no cartaz, mas se for jazz é na boa. O critério deve ser: ter baterista. Estes tinham quatro, ganharam! Foi electrizante, emocionante e com uma mensagem política inspiradora. “Queremos levar este país para a frente”, diziam eles. Há quem diga que João Miguel Tavares estava na assistência e que foi este concerto que o inspirou a escrever o tal discurso do 10 de Junho.

Pausa para refeição e ouço uma criança a dizer: “Oh, a maioria da gente está cá para J Balvin”. Rio-me da sua ingenuidade, mas cedo chego à conclusão que ela só pode estar certa. J Balvin prometia atrair um público diferente do habitual do NOS Primavera Sound e isso parecia assustar muita gente. Mas, prometi a mim mesmo que não ia ser um daqueles idiotas que, ao ficar velho e não perceber um fenómeno, lhe retirava o mérito. Fui ver. Não percebo. Mas, aceito. Não tem de ser tudo para mim. Não percebo os dançarinos vestidos de nuvem. Não percebo, mas é divertido. Ainda mais divertido quando colocado antes de um James Blake ou um JPEGMAFIA. Lembram-se dos anos 90 quando havia uma mão cheia de estilos musicais e nada se misturava? Ainda bem que agora estamos mais perto de podermos gostar livremente de tudo, no mesmo sítio. Podemos estar a ficar velhos mas as coisas não estão a ficar piores; estão só diferentes.

DIA 3 - NUNCA SE TORNEM ADULTOS (E CHATOS)

Ilustração por Lara Luís

Sabem a velha promessa de que nunca vão crescer, que nunca vão deixar de sair à noite? Vamos ser honestos: isso vai acontecer. Nunca vamos ser tão fixes como o Jarvis Cocker a oferecer chocolates ao público, os DJs são só gajos que metem músicas dos outros a tocar e um dia vamos deixar de levar tudo tão a peito. E não precisamos de estar super atentos em todos os concertos. É assim que resumo o concerto de Big Thief, não prestei atenção. Também é para isto que as pessoas vão a festivais, não é só para ficarem na fila para receberem brindes.

E, minutos depois, catrapumbas aos saltos com o Jorge Ben Jor. “Minha Menina”, “Mas que Nada” e uma lista comprida de êxitos deliciosos que encheram o coração da malta toda. Não importa a idade da música, dançamos na mesma. Dançamos Rosalía, dançamos Modeselektor, dançamos Erykah….

Ei, calma, ela não chega. Meia hora e nada. Diz alguém ao meu lado que um amigo trabalha num hotel que recebe os artistas do Festival e que ela ainda lá está, toda virada. Repetiu e foi-se embora, aos gritos “Não vai haver concerto”. Parados, a olhar para um palco. A aguardar a reação da organização, à espera do que vai acontecer. Tão tarde e ainda aqui. Saudades, caminha. Até que… aconteceu um dos melhores concertos da vida de muita gente. E um concerto indiferente para muita gente, mas é sempre assim. Há muitas rotas, muitos caminhos a visitar. Repito: foi do caraças.

O NOS Primavera Sound 2019, para mim foi como o mar: custa-me sempre o primeiro mergulho. Mas, continua a ser um dos festivais mais interessantes e variados do nosso País. Especialmente quando não chove. Se estamos a ficar mais velhos, é mais uma razão para procurarmos descobrir ainda mais. Mesmo que seja para só para saber que não é a nossa cena.


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