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Food by VICE

A nova série de Gordon Ramsay é uma fraca tentativa de seguir as pisadas de Anthony Bourdain

"Uncharted" sofre para encontrar o seu lugar entre a autenticidade de "Parts Unknown" e o drama de "Kitchen Nightmares".

Por Bettina Makalintal; Traduzido por Sérgio Felizardo
25 Julho 2019, 10:08am

Foto por Ernesto Benavides, cortesia National Geographic.

Este artigo foi originalmente publicado no Munchies - Food by VICE.

Quando no ano passado saiu a notícia da série de Gordon Ramsay para a National Geographic, Uncharted, os críticos - com razão - apelidaram a ideia de “a última coisa de que o mundo da culinária precisa agora” e uma “trapalhada colonialista” e descreveram Ramsay como não sendo “nenhum Anthony Bourdain”. Bourdain tinha morrido apenas um mês antes. O impetuoso chef britânico respondeu exactamente como seria de esperar. “Julguem [Uncharted] quando tiverem visto”, disse ao Entertainment Weekly, “mal posso esperar para fazer esses camionistas amargos que não têm mais o que fazer da vida engolirem as suas palavras”.

Uncharted estreou no domingo, 21 de Julho, nos EUA [a estreia em Portugal está marcada para 7 de Agosto, às 22h10, no canal National Geographic] com um episódio-piloto passado no Vale Sagrado dos Incas no Peru, onde Ramsay escala uma montanha com o aclamado chef Virgilio Martínez Véliz, aprende a preparar pratos locais, como porquinho-da-índia assado e depois apresenta a idosos locais pratos inspirados no que aprendeu. A série de seis episódios passa pela Nova Zelândia, Marrocos, Hawaii, Laos e os pântanos do Alasca. Uncharted tem algumas partes engraçadas: Ramsay faz piadas consigo próprio (“Sou Gordon James, não James Bond”, diz quando vê o penhasco que vai ter que escalar); anda de moto e cozinha a céu aberto em grande altitude. Ainda assim, depois de ver três episódios, acho que é justo dizer: Uncharted parece-se menos com engolir aquelas críticas e mais com mastigar cartilagem – chato e sem graça.


Vê: "Anthony Bourdain mostra como se come e bebe à noite em Nova Iorque"


Como aconteceu muita coisa durante um ano inteiro, revisitemos a polémica. Como descrito no press release, o então em pré-produção Uncharted teria três partes: “Mostrar os segredos da culinária de uma cultura” através de exploração, “investigar tradições de alto calibre, passatempos e costumes específicos de uma região, na esperança de descobrir o não-descoberto” e “testar Ramsay contra os locais, colocando as suas próprias interpretações de pratos regionais contra clássicos testados e aprovados”.

Essa inclinação para “antropologia através da culinária” assenta nos elementos fundamentais do colonialismo, escreveu Alicia Kennedy no Washington Post. O que já não era uma boa ideia para a plataforma que acabava de reconhecer publicamente a sua história racista e os seus efeitos nas pessoas que fizeram parte das suas reportagens. Havia essa ideia de que culturas estrangeiras não são válidas ou reais até que sejam experimentadas por ocidentais – “Este é definitivamente território não-mapeado”, diz Ramsay no final da apresentação da série, apesar de ter sido levado para as comunidades por guias locais – e também a ideia de que o conhecimento ocidental é necessário para as melhorar.

“O ridículo da premissa de Ramsay baseia-se na crença errada de que as técnicas culinárias do Velho Mundo são o padrão pelo qual todos os pratos devem ser medidos. O que não é em absoluto verdade”, diz a agora crítica de restaurantes do San Francisco Chronicle Soleil Ho no artigo de Kennedy. As notícias de Fevereiro último sobre a abertura do restaurante Lucky Cat de Ramsay em Londres – descrito como “o destino definitivo para cozinha asiática autêntica e refinada – geraram sentimentos parecidos.

Para outros, a ideia de que um homem conhecido principalmente por insultos enraivecidos podia abordar viagens com o mesmo nível de cuidado e respeito que Bourdain, também parecia improvável. “O som que se ouve é Bourdain, que morreu em Junho”, escreveu Tim Carman, também no Washington Post, “a tentar convencer São Pedro a deixá-lo descer à Terra por um dia para enfiar alguma noção em Ramsay à chapada, já que este, aparentemente, não leu o memorando Colombo sobre homens brancos 'a descobrirem o não-descoberto'”.


Vê o primeiro episódio de "F*ck, That's Delicious"


Bourdain ganhou o respeito das pessoas das culturas que documentou, porque se sentava com elas, partilhava o pão e ouvia. “Pessoas negras adoravam aquele tipo, porque ele não se apropriava, quando se tratava de nós, tudo o que ele fazia era celebrar. Ele disse ao Mundo que nós éramos o centro da culinária do sul dos EUA e do Brasil e deixou-nos falar por nós próprios”, escreveu no Twitter o historiador de culinária Michael Twitty, que acrescentou que Bourdain “nos desafiou a ver não o bom ou o mau, mas o humano”.

As críticas têm ser discutidas porque, ao ver Uncharted, parece vagamente que o canal teve algumas delas em consideração. O aspecto controverso da competição, por exemplo, não é tanto um desafio de cozinha ao estilo Master Chef, mas Ramsay a sentar-se casualmente com um grupo de idosos peruanos, servindo-lhes a o que aprendeu sobre a sua cozinha e a ser obrigado a ouvir que a sua carne mal passada não era uma escolha popular. “Quero cozinhar o que entendi”, diz Ramsay, antes do desafio de culinária. E em vez de gritar com as pessoas, as obscenidades de Ramsay são reservadas para situações específicas: pendurado na beira de uma montanha, ou a ser surpreendido por um porquinho-da-índia, por exemplo.

Mesmo sendo impossível saber que decisões foram tomadas nos bastidores, a série ainda parece um recuo. Tenta beliscar bocados de outras séries – a autenticidade de Parts Unknown, os "ramsaynismos" de Kitchen Nightmares, o factor de choque de Man vs. Wild – sem nunca realmente se comprometer com nenhum deles. O resultado é uma série que não é de todo má, mas que é meio aborrecida. Para alguns, imagino, isto é um alívio quando o que se esperava era algo completamente ofensivo. Mas, se uma série de viagens parece perdida à partida, qual é o motivo para a concretizar?

Do ponto de vista do espectador, um programa de viagens de sucesso vem com um apresentador que consegue transmitir experiências que podemos não ter a possibilidade de experimentar. No Reservations e Parts Unknown funcionavam, por exemplo, porque Bourdain parecia controlar a narrativa; ele estava lá para fazer as perguntas, não para as responder. Em Uncharted, Ramsay não parece seguro de qual é a narrativa, nem do seu papel nela – ele deve ser o Ramsay Fixe, ou o Ramsay que toda a gente aprendeu a amar (e odiar)?

Ramsay, na versão mais vendida, o chef machão branco autoritário e enraivecido, não é o amigo de bar compreensível de Bourdain. Se Bourdain nos ajudou a ver “não o bom ou o mau, mas o humano”, como escreveu Twitty, Ramsay, através de Kitchen Nightmares, opera no binário de bom e mau, com pouca consideração pelo colateral humano no meio disso. Para Ramsay funcionar no contexto de Uncharted – dependente do conhecimento e experiência local de outros, em lugares mais desafiadores que a cozinha – a série precisava de ainda outro Ramsay.

Esta mudança é, claro, boa. Mas, parece que para Uncharted, há nisso um problema: Ramsay fica preso entre dois mundos. Há um desejo claro da parte dele de aprender e crescer com outras culturas, mas ainda há a capa da personalidade de longa data de Ramsay, construída sobre a fundação de ser entendido como a única pessoa na sala que vale alguma coisa. No contexto de como conhecemos Ramsay, a consideração da série parece forçada e ténue. Como resultado, a série não se consegue decidir também, o que a torna numa experiência não muito atraente.

As partes cheias de adrenalina e a disposição de Ramsay de seguir a deixa de qualquer coisa que os seus co-apresentadores lhe atirem, empurram a série mas, ao fim e ao cabo, não há muito impulso por detrás da história. Qual é o ponto de Ramsay ouvir que a sua comida é boa ou má, além de sentir uma certa satisfação pelo seu comportamento idiota noutros programas? E, claro, Ramsay presta atenção aos locais que lhe ensinam os seus costumes e tradições, mas é fácil pensarmos se isso não foi tão aborrecido para ele como é vera série.

Talvez Uncharted estivesse condenado desde a concepção, talvez os críticos tenham colocado muita pressão na criação, talvez Ramsay não tenha apanhado o feeling da coisa. De qualquer forma, oa série não honra o legado nem de Parts Unknown nem de Kitchen Nightmares. Essas duas séries, pelo menos, tinham um pouco mais de coração.


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