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Saúde

O que fazem realmente os suplementos de óleo de peixe

Será o óleo de peixe, basicamente, banha da cobra?

Por Mark Hay; Traduzido por Marina Schnoor
28 Maio 2019, 9:36am

Shana Novak / Getty

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Há séculos que os humanos usam óleos de peixe, oral e topicamente, para tratar uma variedade de males, dores e raquitismo. A popularidade deste tipo de suplemento foi mudando com os anos, bem como os seus principais usos, mas, nas últimas décadas, o hype do óleo de peixe atingiu o maior pico de todos os tempos. Segundo estatísticas do National Institutes of Health, em 2012, pelo menos 18,8 milhões de norte-americanos gastaram cerca de 1,3 mil milhões de dólares em óleo de peixe, fazendo deste o terceiro suplemento alimentar mais usado nos EUA (as vendas supostamente estagnaram nesse valor por volta de 2013).

Hoje em dia, há muita gente que usa óleo de peixe, porque acredita que ajuda na saúde cardíaca, mas outros acham que o produto pode ajudar na saúde renal, ossos, problemas nas articulações, funções cognitivas e bem-estar mental, entre várias outras condições. Mas, será o óleo de peixe tão bom como milhões de pessoas acreditam qu é? Quem deveria tomar estes suplementos e quando? Mergulhámos em estudos e consultámos especialistas para tentar descobrir.


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O que é, exactamente, o óleo de peixe?

Óleo de peixe é um derivado de peixes processados, especialmente espécies como arenque, cavala, salmão, anchova e sardinha. Esses óleos são ricos em ácidos gordos Ómega 3, especialmente ácido eicosapentaenoico (EPA) e ácido docosaexaenoico (DHA). Os nossos corpos conseguem transformar ácido alfalinolénico – outro tipo de ácido gordo Ómega 3 encontrado em coisas como óleo de canola, semente de abóbora e nozes – em EPA e DHA, mas o óleo de peixe é uma fonte mais eficiente de Ómega 3 para nós.

Ácidos gordos Ómega 3 “fazem muitas coisas ao nosso corpo”, explica Stephen Kepecky, cardiologista da Mayo Clinic. É difícil resumir exatamente o quê, mas é seguro dizer que manter um nível suficiente desses ácidos é vital para o nosso funcionamento geral.

Óleo de peixe é bom para o coração?

As crenças modernas sobre os benefícios dos óleos de peixe para a saúde cardíaca vêm de estudos observacionais dos esquimós da Gronelândia nos anos 1970, que descobriram que a sua dieta incluía um consumo extremamente alto de peixes oleosos e que tinham uma taxa muito baixa de doenças cardíacas. Desde então, a Associação Americana do Coração recomenda consumir peixe pelo menos duas vezes por semana para, entre outras coisas, diminuir a taxa de crescimento de placas nas artérias, baixar um pouco a tensão e manter um coração sadio no geral. A Administração Federal de Drogas (FDA) também aprovou alguns medicamentos com base de óleo de peixe para uso no controlo de triglicérides alto (um tipo de gordura que se pode controlar) em pacientes.

Óleo de peixe, diz Kopecky, “é o nosso tratamento padrão para a maioria das pessoas com nível de triglicérides alto”, além de aumentar a actividade física e diminuir o consumo de carboidratos. Vários estudos também sugerem que doses confiáveis de óleo de peixe de qualidade podem diminuir o risco de se vir a necessitar de colocar pacemaker, de dores no coração, ataques cardíacos, derrames e paragens cardíacas repentinas em pessoas que já têm problemas cardíacos. Por outro lado, o consumo excessivo de óleo de peixe – mais de 47,3 ml por dia – foi correlacionado a um maior risco de derrames em pelo menos um estudo.

Enquanto alguns estudos sugerem que suplementos de óleo de peixe podem ajudar pessoas saudáveis a proteger um bocadinho os seus tecidos cardíacos, as provas disso parecem relativamente fracas e inconsistentes, por isso a maioria dos médicos não recomenda o produto como uma ferramenta preventiva.

Óleo de peixe é bom para a saúde mental e neural?

Crenças sobre os benefícios mentais e neurológicos do óleo de peixe vêm, provavelmente, do facto de que “cerca de 40% da gordura poliinsaturada do nosso cérebro”, ou de cinco a 10 por cento da massa total do nosso cérebro, é “Ómega 3 DHA”, segundo R. Preston Mason, professor do departamento de medicina, divisão de cardiologia, de Harvard. Esse composto parece estar envolvido no envio de sinais entre as células cerebrais. E as directrizes nutricionais do governo norte-americano dizem que consumir frutos do mar é importante para o crescimento e desenvolvimento cerebral. Mas, não sabemos realmente o que é que tomar suplementos de óleo de peixe faz, se é que faz alguma coisa, a crianças ou adultos, para melhorar a saúde neurológica e mental.

Algumas pesquisas sugeriram que óleo de peixe podia ajudar a melhorar a atenção das crianças com défice de atenção e hiperactividade (DDA), ou na função mental e comportamento de crianças no geral. Uma outra pequena investigação também sugeria que óleo de peixe poderia ajudar a reduzir o risco, ou controlar, certos problemas mentais em crianças e jovens adultos que apresentavam sintomas leves. Pelo menos um estudo colocou a ideia de que óleo de peixe pode ajudar a reduzir convulsões em pacientes com epilepsia resistente a drogas. Todavia, estas descobertas são bastante fracas e provisórias.

Óleo de peixe é bom para a visão?

Apesar de alguns estudos terem sugerido que comer peixe regularmente pode resultar em menos perda de visão relacionada com a idade e que o consumo regular de óleo de peixe reduz o risco de cataratas, estas investigações não foram conclusivas e têm sido debatidas. Óleo de peixe era receitado para tratar a condição conhecida como olho seco com base em alguns estudos, diz Kopecky, “há três ou cinco anos, até que a metanálise mostrou que não tinha assim tanto benefício. Os oftalmologistas já não recomendam óleo de peixe”.

Óleo de peixe é bom para a pele?

Kopecky hesita em apoiar qualquer estudo dermatológico que sugira que óleo de peixe pode ajudar a combater ou prevenir rugas. Outros estudos também sugerem que pode ajudar o acne, eczemas e psoríase, mas são relativamente limitados e dificilmente conclusivos. Mas, vale a pena salientar que estas descobertas são menos contestadas que as de outros benefícios do óleo de peixe.

Óleo de peixe ajuda a prevenir cancro?

Enquanto alguns investigadores já sugeriram que óleo de peixe podia ajudar a diminuir o risco de desenvolver todos os tipos de cancro – como cancro de mama, colo-rectal, esofágico, oral, de ovários, faringe e próstata – estudos que examinam essas afirmações são limitados e os seus resultados variam muito. Pelo menos um estudo sugeriu que uso de óleo de peixe pode aumentar o risco de cancro da próstata, quando consumido por certos subgrupos e em certas quantidades, durante um determinado período de tempo.

Óleo de peixe ajuda a perder peso?

Revistas de lifestyle espalharam recentemente um estudo japonês que argumentava que o óleo de peixe estimulava o trato digestivo em experiências com ratos para reduzir ganho de peso e ajudava a emagrecer. Outro estudo sugeriu que humanos com sobrepeso e pressão alta podiam tirar benefícios de perda de peso com o óleo de peixe. No entanto, essas descobertas são excepcionalmente limitadas e não há provas substanciais de que o produto possa ajudar humanos a cuidar do seu peso.

Se há tantas incertezas quanto aos benefícios do óleo de peixe, porque é que ainda há tanta gente a tomá-lo?

A maioria dos estudos sobre os supostos benefícios do óleo de peixe – incluindo alguns bastante específicos (por exemplo: para gengivite, pneumonia e alergias alimentares variadas) – mostraram-se inconclusivos. Isto, provavelmente, acontece em parte porque os estudos sobre os efeitos de suplementos são, muitas vezes, mal estruturados, sem controlo de placebo ou tentativas de levar em conta factores adicionais, como dieta e estilo de vida, o que também pode influenciar os resultados. Muitos estudos também são pontuais, sem um acompanhamento substancial para detalhar ou refutar afirmações, deixando os consumidores de óleo de peixe com um monte de informações fracas.


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Algumas das inconsistências também se devem ao facto de que nem todas as centenas de produtos de óleo de peixe disponíveis no mercado são feitos da mesma maneira. Estudos com suplementos de óleo de peixe vendidos em farmácias sem receita, descobriram que muitos deles não apresentam correctamente a quantidade de EPA e DHA que contêm, especialmente em relação um ao outro, ou omitem detalhes sobre ingredientes adicionais utilizados (a indústria de suplementos dos EUA é notoriamente sub-regulada).

Na maioria dos suplementos “só um terço do produto são ácidos gordos Ómega 3”, diz Mason, baseado na sua própria pesquisa e investigações de outros observadores da indústria. E acrescenta: “Por isso é que são tão baratos”. A investigação de Mason também mostrou que a produção, transporte e armazenagem desleixados muitas vezes fazem com que os ácidos gordos Ómega 3 nos suplementos se tornem rançosos, o que acaba com qualquer benefício que pudessem ter. Um cheiro a peixe azedo no frasco pode indicar que as cápsulas estão estragadas.

Se eu quiser experimentar, de quanto Ómega 3 preciso?

Sabemos que ácidos gordos Ómega 3 têm um papel vital no desenvolvimento humano, especialmente no desenvolvimento neurológico. Também sabemos que o nosso corpo não consegue produzi-los sozinho. Mas, ninguém ainda definiu quanto exactamente, ou sequer se realmente precisamos dele enquanto adultos para nos mantermos saudáveis, segundo Kopecky. Muito disso depende, provavelmente, do corpo de cada pessoa, acrescenta Mason, apesar de apontar que o corpo humano é bastante eficiente, no geral, em absorvê-los, mas “não é como se precisássemos disso todos os dias para mantermos as nossas estruturas físicas".

E mesmo que a maioria das pessoas consuma menos peixe do que as duas vezes por semana recomendadas, elas ainda conseguem ácidos gordos Ómega 3 na dieta quotidiana, talvez através de alimentos como óleo de canola ou nozes, para evitar deficiência de Ómega 3.

E os médicos não sabem muito sobre o que acontece quando alguém tem deficiência de Ómega 3, explica Kopecky, porque é difícil que isso realmente se torne uma deficiência. Estudos de casos sugerem que pode levar a riscos de doença cardíaca, transtornos de humor, inflamação ou até cancro, mas é difícil listar os seus efeitos. Uma pessoa precisaria de ter uma dieta incrivelmente má e não-variada para chegar a ter essa deficiência, diz Mason.

Há riscos em tomar suplementos de óleo de peixe?

Enquanto Mason aponta que podem existir riscos associados ao consumo de alguns adulterantes que os fabricantes de suplementos acrescentam ao óleo de peixe, o nosso corpo parece tolerar bem uma grande variedade de doses de Ómega 3. Mas, consumir mais que três gramas por dia pode levar a complicações na coagulação do sangue ou reduzir funções do sistema imunológico – especialmente para quem já usa anti-coagulantes. Algumas pessoas também podem experimentar náuseas, azia, diarreia ou erupções cutâneas. E quem é alérgico a qualquer tipo de fruto do mar precisa de consultar um médico antes de tomar esses suplementos, mesmo que estes possam não causar qualquer tipo de reacção.

Além dos riscos de saúde, a demanda por óleo de peixe alimenta a pesca excessiva que está a devastar cardumes de anchovas, krill, sardinhas e outras espécies marinhas ambientalmente importantes. A pesca para a produção de óleo - em vez da carne de peixe para consumo humano - também tende a pagar salários mais baixos aos trabalhadores.

OK, preciso de tomar suplementos de óleo de peixe?

A menos que tenhas um problema cardíaco e o teu médico te receite um produto aprovado, realça Mason, provavelmente não. Se a dieta de uma pessoa é, por alguma razão, completamente desprovida de ácidos gordos Ómega 3 e ela não tem como solucionar essa situação, Kopecky acredita que procurar bons produtos de óleo de peixe pode ser útil. Mas, nesse caso, deves ter cuidado para garantir que estás realmente a tomar apenas óleo de peixe – e que o produto não está estragado e cheio de contaminantes ambientais, como Mason e outros investigadores mostraram que é bastante comum na actual paisagem de suplementos dos EUA.

Sabemos que dietas ricas em peixe são, no geral, boas. Ainda assim, ao fim e ao cabo, a maioria beneficiaria mais tendo uma dieta equilibrada, contendo peixe e outros produtos com ácidos gordos Ómega 3 que o nosso corpo pode converter em EPA e DHA.


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