Cultura

A nostalgia é a melhor aliada do capitalismo

Num sistema socioeconómico que não oferece nenhuma alternativa de futuro possível, a nostalgia serve para nos afastar também do presente.
06 September 2019, 12:57pm
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Imágenes vía Disney y usuario de Flickr Jeremy Schultz. Montaje por VICE

Este artigo foi publicado originalmente na VICE ES.

No século XXI, já se sabe, tudo volta: das calças à boca de sino ao fascismo. Na música, o avanço das novas tecnologias serviu mais para recuperar sons do passado - o crepitar de um vinil, samples daqui e dali ... - do para que produzir novos; no audiovisual, é incrível o quão revolucionário e inovador ainda nos parecem os vídeos gravados com um telemóvel e como uma nova temporada de Gilmore Girls é o evento do ano. Sem falar dos revivals, em que os elementos de outras épocas (Stranger Things, Chromatics, Mindhunter ...) são mais parecidos com a ideia que temos dessa época do que com o que ela realmente era.

Numa das últimas peças de teatro escritas por Samuel Beckett, Ohio Impromptu, dois idosos de aparência quase idêntica estão sentados à mesa. Um escuta, o outro lê: "little is left to tell", resta pouco por dizer. Ocasionalmente, o ouvinte interrompe a leitura com uma pancada na mesa. O leitor, então, repete a frase que acabava de ler e continua a contar “a triste história pela última vez contada” de dois idosos quase idênticos sentados à mesa, um a ler e o outro a ouvir. E assim, ao ritmo das pancadas na mesa, uma história é lida e relida, avança e retrocede, avança e retrocede, até à frase final: "nothing is left to tell".



Quando li a notícia de que Lizzie McGuire ia ter um reboot da Disney, a primeira coisa que pensei foi no Ohio Impromptu. Não me interpretem mal: não se trata de um "vocês são tão Lizzie e eu tão Samuel", muito menos de uma questão de cultura "alta" contra "baixa" (o que é que isso significa em 2019, sequer). Quando eu era pequena, gostava tanto da Lizzie McGuire que, numa tentativa de a imitar, até tentei manter um diário que tinha uma versão minha em miniatura desenhada na lombada.

Por causa da Lizzie McGuire fantasiei com os telefonemas a três e obriguei os meus pais a comprarem-me um telefone das Bratz, apesar de nem haver tomada de linha telefónica no meu quarto. Descobri grandes músicas, tocadas mais tarde por Hillary Duff - como "Wake up", que ainda tenho na cabeça - graças a Lizzie McGuire.

Mas, como os dois idosos que lêem e ouvem sempre a mesma história até que não haja mais história para contar, a produção cultural do nosso século também parece estar presa numa espécie de inércia temporária, salpicada de anacronismos contínuos. Porque é que precisamos que Lizzie retorne sem ser para a Disney ter um sucesso garantido com mínima promoção, enquanto nós mergulhamos a plenos pulmões em nostalgia?

"o futuro não desapareceu da noite para o dia. Pelo contrário, o mundo parece estar preso por um fio há décadas. Sempre prestes a terminar, sempre prestes a esgotar-se. Esperamos pelo Apocalipse (climático, económico, social, seja qual for) como quem vê uma bofetada a vir em câmara lenta, cada vez mais perto, cada vez mais lenta."

Sobre esta condenação à repetição e ao pastiche que pesa sobre o nosso século, autores como Fredric Jameson, Mark Fisher ou Simon Reynolds já falaram bem e com razão. Além disso, não acho que seja à Disney a quem se deva pedir contas sobre inovação e experimentação cultural. A longa lista de reboots e remakes planeada pela enorme produtora - desde a live-action de A Dama e o Vagabundo ao remake de Sozinho em Casa - é apenas o enésimo sintoma daquilo a que Franco Berardi chamou de "o lento cancelamento do futuro": a fragmentação da ideia de progresso, cuja consequência mais directa a nível cultural é essa constante regressão ao passado.

No entanto, o futuro não desapareceu da noite para o dia. Pelo contrário, o mundo parece estar preso por um fio há décadas. Sempre prestes a terminar, sempre prestes a esgotar-se. Esperamos pelo Apocalipse (climático, económico, social, seja qual for) como quem vê uma bofetada a vir em câmara lenta, cada vez mais perto, cada vez mais lenta. Como com o monstro de It Follows, podemos correr, mas não podemos escapar. Mas foi o tempo que parou, não a vida. Como Mark Fisher escreveu em Os Fantasmas da Minha Vida: “Não é como se não tivesse acontecido nada no período em que o lento cancelamento do futuro começou. Pelo contrário, esses trinta anos foram um tempo de mudanças massivas e dramáticas. ”

Vimos como todas as nossas expectativas, herdadas da geração anterior, foram destruídas. Assistimos à desintegração das fronteiras entre lazer e trabalho e, com a Internet, ao nascimento de um mundo totalmente novo no âmbito das comunicações. Vimos como as fontes tradicionais de autoridade e conhecimento - meios de comunicação a uso, mas também as universidades - foram cada vez mais renegadas a segundo plano e como até as relações interpessoais foram sendo moldadas e precarizadas à mercê do sistema neoliberal.

Aconteceram coisas, e que coisas! Mas, de certa forma, parece que perdemos a capacidade de apreender uma certa ideia do presente, por isso é impossível imaginarmos um futuro (ainda assim digo "parece" porque, embora isso dê para outro artigo inteiro, acho que dispomos de uma maneira de produção cultural extremamente viva e específica do nosso tempo, só que a nostalgia por aquelas grandes obras que nunca voltarão impede-nos de as reconhecer como tal: memes).

"De certa forma, parece que perdemos a capacidade de apreender uma certa ideia do presente, por isso é impossível imaginarmos um futuro"

Voltando a Lizzie McGuire, imagino as reuniões entre o elenco original e dá-me um misto de compaixão e ternura. Devem parecer-se um pouco às dos antigos alunos, com as suas perguntas absurdas e conversas baseadas em histórias das quais toda a gente se ri apenas porque a perspectiva de um silêncio esmagador é ainda pior: "E tu, o que tens feito?" "Uau, que bem que te fica o cabelo castanho!", "O título do meu último filme? És capaz de não ter ouvido falar. Foi uma produção muito independente" (um fracasso).

Imagino aquele que fazia de Gordon depois de assinar a sua participação no reboot. Apanha um táxi para casa, hoje foi um bom dia, ele merece. "The winner takes it all" dos ABBA começa a tocar na rádio; Gordon, a chorar. Sem nenhuma esperança no futuro, aquele que fazia de Gordon não tem mais nada a não ser voltar ao passado, no qual está tão enclausurado que ninguém se lembra dele pelo seu nome verdadeiro, apenas pela sua imagem já fantasmagórica.

Por razões semelhantes, nos últimos meses acordei mais de uma vez a desejar estar na escola, quando a vida era mais fácil. Não tenho um ordenado estável, não sei quanto tempo me durará o contrato, sinto que o meu contrato de aluguer pode ser revogado a qualquer momento, que vai acontecer alguma desgraça - o meu computador vai deixar de funcionar, vão assaltar-me a casa ou vou deixar o gás ligado e a casa vai voar pelos ares - com a qual não poderei lidar economicamente. A minha única certeza para o futuro é que, aconteça o que acontecer, terei que enfrentá-lo sozinha.

Nesse sentido, Contra o Império da Nostalgia, de Jose Sanz Gallego, contém uma grande intuição. O conto passa-se num futuro possível onde, através de uma Lei da Nostalgia Histórica, o Estado obtém o controlo das memórias da população. Com o povo a viver completamente imerso num tempo anterior, o Estado é capaz de antecipar as suas acções, exercendo um totalitarismo mais do que preparado para reprimir qualquer indício de rebelião. A única esperança de resistência são os grupos terroristas compostos por idosos que sofrem de Alzheimer.

O problema é que, precisamente por causa da sua condição, esquecem-se de levar o seu plano a cabo. Sanz Gallego escreve: “Ao contrário do que se poderia pensar, o reino da nostalgia lidava apenas com a memória relativa às emoções. Nenhum sujeito chegou a valorizar o [...] remanescente vívido de um presente agora passado, no qual ainda havia uma clara distinção entre o que era horário de trabalho e horário de lazer. Ninguém sente saudades das melhores condições de trabalho de antigamente, ninguém se lembra delas, ninguém as reivindica ao Estado."

Mas o maior erro da esquerda foi precisamente o contrário: continuar a olhar nostalgicamente para um passado em que os preceitos e slogans contra o capitalismo eram ainda capazes de agir. Enclausurados nessa nostalgia de uma época em que ainda havia possíveis, fracassámos miseravelmente na busca de estratégias políticas para o momento actual. Precisamos de reabitar o presente, porque só assim é que podemos recuperar o futuro.


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