Teria o fracasso na música motivado os assassinatos de Charles Manson?
Noisey

Teria o fracasso na música motivado os assassinatos de Charles Manson?

Um novo livro analisa a relação entre Beach Boys e Charles Manson.
1.8.17

Entrevista originalmente publicada no Noisey US.

Em 1960, os Beach Boys lançaram "Surfin' USA", uma canção que capturava a alegre exuberância de garotas, carros, surfe e tudo mais que o sul da Califórnia tinha a oferecer. Los Angeles, naquela época, era uma meca do surf rock, com um lado belo e despretensioso que se refletia em sua música. Mas a promessa dos anos 60 virou tragédia ao final da década: um elenco diverso de personagens — incluindo Charles Manson, Jan and Dean, Joni Mitchell, Sam Cooke, Frank Sinatra Jr., The Mamas and The Papas, Elvis Presley, Ike e Tina Turner — surgiu, ao passo em que os irmãos Wilson se viram arrastados para dentro de uma existência de puro terror que deixou para trás as orgias de amor livre e surf music rumo a sequestros e resgates. Frank Sinatra Jr. foi raptado. O cantor texano Bobby Fuller apareceu morto envolto em circunstâncias suspeitas e o caso foi dado como um suicídio. E mais notavelmente, Dennis Wilson se envolveu com Manson no final dos anos 60, enquanto este tentava o sucesso na indústria musical. Tudo culminou nos infames assassinatos da Família Manson, em que ele e seus seguidores mataram nove pessoas com requintes de brutalidade.

Em Everybody Had an Ocean: Music and Mayhem in 1960s Los Angeles, lançado em abril deste ano pela Chicago Review Press, o escritor especializado em rock e professor da Universidade de Boston Willian McKeen, cujo diagnóstico de câncer o forçou a escrever o livro o qual já enrolava há tempos, explora a obscura história desta era. Como molecotes bronzeados conhecidos por seus hinos despreocupados acabaram próximos a um rockstar falido que findou por ser um dos mais brutais criminosos do século? Como a música estava atrelada aos raptos e assassinatos da época? Conversei com McKeen para descobrir.

Noisey: Que circunstâncias se combinaram para dar início à era de ouro do rock na Los Angeles dos anos 60?
William McKeen: O mundo da música de Los Angeles vinha se construindo desde os anos 40, quando a Capital Records foi fundada, e ao longo dos anos 50, quando uma série de gravadoras independentes importantes surgiram, como a Specialty e a Alladin. As grandes gravadoras, caso da Columbia e RCA Victor, estavam no leste, então havia uma certa tradição independente em Los Angeles. O rock foi levado adiante pelos pioneiros independentes: Sam Philips da Sun em Memphis, Leonard Chess da Chess em Chicago e Art Rupe da Specialty em Los Angeles. Era esse o clima do começo dos anos 60: independência.

Então veio o gênio da música Brian Wilson, que corria por fora das tradições estabelecidas da música popular. Ele se distanciou dos estúdios, produzia suas trilhas e escanteava produtores. Ele era o Sr. Faz Tudo — compositor, produtor, arranjador músico. Chuck Berry, e até certo ponto artistas como Little Richard, Eddie Cochran e Fats Domino já haviam estabelecido a convenção do cantor-compositor que viria a mudar a música pop.

Brian Wilson foi além: ele tomou controle do pacote completo. Não havia Svengali em seu grupo, seu Svengali era de dentro do grupo. Brian Wilson recebe os créditos — merecidos — por várias coisas, mas muitas vezes não recebe o reconhecimento devido por liberar os artistas das garras da indústria. Ele criou um ambiente de independência para músicos, e tudo isso aos 19 anos de idade.

Você poderia nos explicar a importância dos Beach Boys nos anos 60? Eram quase como os Beatles, certo?
O rock havia morrido nos EUA no começo dos anos 60. Chuck Berry estava preso, Little Richard estava na igreja, Buddy Holly e Eddie Cochran haviam morrido, e depois do exército, Elvis teve seu cérebro roubado por alienígenas. Ele ainda estava ali, fisicamente, mas o Rei já não existia.
A única música americana boa vinha da Califórnia — as óperas adolescentes de três minutos produzidas por Phil Spector e os discos dos Beach Boys. Eles eram os caras naquela época. Enquanto isso, as bandas britânicas redescobriam o rock americano, logo os Beatles e os Rolling Stones apresentavam novamente o rock americano ao seu público adolescente.

Ironicamente, os Beach Boys podem ter sido mais populares na Grã-Bretanha. Em meados dos anos 60, enquanto os Beatles produziam obras primas, eles normalmente ficavam atrás dos Beach Boys em popularidade. Pet Sounds, o disco de 1966 hoje considerado o maior da banda — e o maior disco de rock de todos os tempos de acordo com alguns críticos — foi um sucesso na Inglaterra, apesar de ter meio que fracassado nos EUA. Ao final da década de 60, a popularidade dos Beach Boys caiu em sua terra natal, ainda que continuassem famosíssimos na Europa. Observando agora, ninguém teria como se comparar aos Beatles, mas os Beach Boys chegaram perto.

" Quando os Beach Boys cantavam sobre surfar e carros, o que faziam mesmo era falar de independência."

Como a dinâmica da relação dos irmãos Wilson afetava a sonoridade dos Beach Boys?
Era uma família esquisita, em partes por conta do ciclo de abuso que vinha desde o avô de Brian, Dennis e Carl. Seu pai, Murry, era um monstro. No começo, os irmãos logo aprenderam que cantar era boa tática para impedir seu pai de surrá-los. Ele se derretia com música. Daí descobriram que ele adorava harmonias vocais, então desenvolveram isso e juntaram ao rock de sua geração — Chuck Berry em particular. Do inferno que era a casa dos Wilson vieram as harmonias típicas de coro e o rock.

Como paz, amor livre, drogas e fama instantânea em LA levaram a este lado obscuro do pop boa-praça de bandas de surfistas como Beach Boys?
Foi uma progressão natural. Quando os Beach Boys cantavam sobre surfar e carros, o que faziam mesmo era falar de independência. O adolescente foi criado na última metade do Séc. XX. Até os EUA pós-guerra, crianças e jovens eram commodities e muitas vezes ajudavam no sustento da família. Não havia tempo para lazer e nem filhos mimados, com certeza.

Após essa geração sobreviver à Grande Depressão e à Segunda Guerra Mundial, ela começou a criar seus filhos, os Baby Boomers. E em compensação, esta nova geração teve uma infância e ganhou o título de "adolescente", palavra inventada no Séc. XX. Os adolescentes tinham liberdade, carros e dinheiro pra gastar. Brian Wilson e os Beach Boys faziam a trilha e assim que este novo estilo de vida começou a surgir, não havia como voltar atrás.

A liberdade cresceu exponencialmente, e apesar das benesses recebidas pelos jovens da geração passada, uma coisa que parecia unir os jovens era o desejo de não ser como seus pais. Então eles escolheram adotar uma abertura que não viam nos mais velhos e passaram a se interessar por coisas que desviavam da norma. Esta abertura virou ingenuidade. Os jovens abraçavam o novo e diferente, o que os fez presas fáceis para golpistas como Charles Manson.

Quão próximos você acha que Dennis Wilson e Charles Manson eram naquela época? E como uma cena que criou e pegou pra si os Beach Boys se apresentava nos mesmos círculos que Manson?
As pessoas falavam de Manson quase como se fosse a sombra de Dennis Wilson. Eles eram colegas de quarto, claro, mas passavam quase o tempo todo juntos. Dennis era o mecenas de Manson, tentando lhe conseguir um contrato, apresentando ele para todos. Manson era o facilitador de Dennis — para mulheres e drogas — então ele tentava recompensá-lo de alguma forma. Dennis era um homem extremamente generoso que compartilhava dinheiro e coisas porque não gostava de ver ninguém infeliz.

Já os outros Beach Boys não eram tão simpáticos assim. Brian e Carl queriam apoiar seu irmão, cujas composições estavam se tornando uma das características mais empolgantes do grupo no final dos anos 60. Mas Mike Love, Bruce Johnston e Alan Jardine desconfiavam de Manson desde o início, com Brian e Carl logo fazendo o mesmo. Dennis, porém, gostava da ideia de flertar com o perigo.

Como uma estrela da surf music subsidiou o rapto de Frank Sinatra Jr.?
Dean Torrance da dupla Jan and Dean era fiel aos seus amigos. Quando um de seus colegas dos tempos de escola apareceu pedindo por grana para raptar uma celebridade, Dean pensou "Por que não, né?". Ele pensou que seu amigo precisava de grana e agora que ele era um rockstar, poderia lhe emprestar. Ele não achava que isso de rapto rolaria mesmo — até ouvir a notícia no rádio.

"Manson anunciou a morte do hippie. Creio que Charles Manson via os hippies como um monte de pessoas ingênuas, fáceis de serem manipuladas."

Quem matou o cantor texano Bobby Fuller e por que suspeitavam da máfia?
O assassinato de Bobby Fuller nunca foi solucionado. O relatório do legista — alterado após a ocorrência — indicava suicídio, mas como um homem já morto iria de carro até a casa de um amigo e morreria lá? Havia ligações da máfia com gravadoras e uma das teorias afirma que Bobby Fuller estava ligado a essas pessoas.

Manson não deu certo na música e decidiu matar pessoas. Por quê?
Manson se relacionava com artistas como Dennis Wilson e Neil Young, o que o fazia achar que merecia aquele estilo de vida. Dennis não conseguiu arrumar um contrato para ele. Neil Young o recomendou a Mo Ostin, chefão da Warner-Reprise Records, que não demonstrou interesse. O amigo de Dennis, Terry Melcher — produtor do Byrds e Paul Revere and the Raiders, filho de Doris Day — gravou Manson em algumas ocasiões, mas também largou de mão.

Furioso, Manson quis mandar uma mensagem aos mandachuvas da música de LA. Ele enviou seus assassinos à casa em que Terry Melcher morava com sua namorada, a atriz Candace Bergen. Manson tinha ido lá várias vezes, inclusive após Melcher ter se mudado. Ele escolheu aquele lugar para assustar aqueles que haviam o rejeitado. Todos seus sonhos se resumiam a ser uma estrela do rock, e quando não conseguiu, surtou.

Como Manson mudou a visão dos EUA da geração hippie e que impacto o caso teve nos Beach Boys e outras estrelas da surf music dos anos 60?
Hippies eram retratados como alívio cômico na cultura popular até Manson aparecer. De repente, aquela galera cabeluda gente boa passou a ser encarada com medo. Manson anunciou a morte do hippie. Creio que Charles Manson via os hippies como um monte de pessoas ingênuas, fáceis de serem manipuladas. Ele saiu da cadeia, viu como era o mundo em Haight-Ashbury e decidiu tirar vantagem da ingenuidade presente no DNA daquela galera paz e amor. Ele parecia um hippie qualquer, mas não era um deles. Não creio que Manson tenha afetado os Beach Boys em termos de relações públicas. Eles estavam em baixa. Acho que hoje mesmo muita gente nem sabe da ligação de Manson com artistas como Beach Boys, Neil Young, the Mamas and the Papas, dentre outros.

Foto: detalhe da capa de Everybody Had an Ocean , cedida pela Chicago Review Press.

Seth Ferranti é um escritor de St. Louis e está no Twitter .