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Para as minas que esperavam há décadas, 'Mulher-Maravilha' finalmente salva o mundo

Amei ver a Mulher-Maravilha no cinema, mas eu precisava mesmo era ter visto esse filme na minha infância.
6.6.17
Todas as imagens: Warner Bros./Reprodução

Esta matéria foi originalmente publicada no Waypoint .

Fui assistir a Mulher-Maravilha nesse último fim de semana e, como já imaginava, eu curti muito. Provavelmente vou assistir mais uma vez nessa semana, com a minha namorada, pronta para absorver todos os pequenos detalhes que perdi da última vez.

O filme é mais uma típica história de origem de uma super-heroína, mas ao contrário dos outros filmes engessados do tipo (com exceção do primeiro filme do Thor, que eu acho hilário), esse conseguiu me prender de verdade, por conta – claro – do retrato convincente dessa super-heroína, uma mina que talvez ainda seja um pouco inexperiente, mas é poderosa, ultra-competente e, acima de tudo, prestativa. Tudo que ela fala, tudo que ela sacrifica, ela faz porque acredita em um futuro bom pra humanidade. É um filme sobre uma mulher sendo incrível, com grandes habilidades e um enorme desejo de desafiar um mundo frio de homens e papéis de gênero. Ela chuta as bundas da hipocrisia com humor, sensibilidade e cenas de ação impressionantes.

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Então, sim, era óbvio que eu fosse gostar desse filme.

Gal Gadot é um fenômeno do começo ao fim, mas fiquei surpresa como o Chris Pine saiu bem no papel que normalmente é relegado ao companheiro ou à namorada de um super-herói. Ele sabe que não é o protagonista daquela história, e cumpre graciosamente a sua função de coadjuvante da mina, tanto na história em si, quanto em análises mais meta-linguísticas do filme. Existem vários pequenos toques – escolhas de direção de ator, de enquadramento, timing do diálogo – que comunicam essa interação entre os personagens. Reforçando essa ideia ainda mais, tem muita coisa nesse filme que deixa claro que ele não foi dirigido por um homem hétero (a direção ficou nas mãos da Patty Jenkins, que está recebendo os elogios que merece).

As amazonas – e especialmente a Diana – são lindas, mas nunca são usadas como colírio-pros-olhos, que é uma função típica dessas personagens femininas nesse gênero de filme. Já o Chris Pine definitivamente cumpre esse papel, em específico em uma cena (hilária), mas nunca de um jeito nojento ou desrespeitoso. E o filme, apesar do cenário opressivo da Primeira Guerra Mundial, mostra que é possível existir igualdade de gênero naquela época. Não fazem piada do fato de uma mulher ser a pessoa mais forte de um time (mesmo se o time for de anti-heróis, como em Esquadrão Suicida), ou a mais heróica de todos.

Na internet, eu vejo muita gente tuitando ou comentando sobre como o filme é uma experiência positiva pra família – particularmente àquelas com filhas pequenas. Quando fui assistir, sentei do lado de uma mãe e seu filho pequeno, que estava empolgadão em ver a Mulher-Maravilha quebrando o pau. Além disso, tinha muitas meninas na minha sessão e todas elas saíram do cinema com uma energia incrível.

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Diana é uma heroína digna: sim, ela chuta bundas, mas ela também é uma pessoa ética, bondosa e tem compaixão. Ela arrisca a sua vida constantemente para ajudar os outros, e mesmo tendo uma lição terrível sobre a natureza humana ao longo do filme – é bom lembrar que esse ainda é um filme de origem de super-heroína –, ela sempre acredita em fazer o melhor.

Apesar de ficar inspirada com o filme (e empolgada com a ideia de que várias minas – e pessoas de todos os gêneros – estão curtindo o filme), confesso que sinto uma ponta de inveja.

Eu queria muito que esse filme tivesse saindo em, sei lá, 1991, quando eu era uma garotinha que queria chutar bundas, mas também salvar as pessoas. Ou, talvez, eu gostaria de ter sete anos de idade agora, e vivesse em um mundo que, de alguma forma – mesmo com toda a merda política pela qual o mundo inteiro está passando, mesmo com todo o ódio, o racismo e a misoginia que permeia a nossa cultura – ainda consegue produzir um filme sobre uma mina super-poderosa decente e bondosa que consegue ser maior que todos esses problemas.

Digo isso porque, se fosse criança agora, seria impossível eu não me vestir como a Diana, correndo por por aí fazendo golpes loucos das amazonas, e até pediria pros meus pais para trocar o meu nome ("São só algumas letras diferentes do meu!"). Mas esse filme também seria importante para mim de outras formas: eu veria uma mulher forte, corajosa e musculosa que não precisa de homens a sua volta (mas não se importa em dar rolê com eles, de vez em quando). Seria muito bom para uma moleca que nem eu ver uma figura feminina no cinema que realmente me fizesse querer ser que nem ela, apoiada por todo o calibre moral da personagem.

Na real, talvez eu nem precise ter sete anos para me inspirar nela. Apesar de ser cafona, eu sinto isso de verdade, e talvez essa seja a melhor parte de uma história de super-herói, quando é bem feita. E Mulher-Maravilha conta essa história tão bem quanto qualquer outro filme clássico de super-herói, dessa ou de qualquer outra era.

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