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Ambiente

Agora que sei que o Planeta está condenado, será que devia abraçar o mundo da publicidade?

Já marchei contra as alterações climáticas. Já li Naomi Klein. O que mais posso fazer?

Por Jordan Foisy; Traduzido por Madalena Maltez
02 Abril 2019, 2:09pm

Este gajo compreende-me. Foto via Pexels.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Recentemente, li um artigo que dizia que um aumento de entre três a cinco graus na temperatura do Ártico é inevitável. Há tanto calor aprisionado no oceano e tanto metano a derreter rapidamente o permafrost que já não importa se o Mundo inteiro começar de repente a conduzir carros abastecidos a lentilhas, ou a libertar todas as vacas e deixá-las começar uma sociedade bovina que, graças à sua forte empatia, sem dúvida será muito mais igualitária que a nossa. É inevitável_ o grande Ártico vai derreter na mesma.

Tudo o que podemos fazer agora é tentar limitar os danos e a devastação. Estamos no fase “beber seis copos de água em vão antes de dormir” das alterações climáticas. Essa ressaca vai bater, só nos resta esperar que não dure o dia inteiro. “Quanto tempo é que tudo isto vai durar?”. Penso nisto enquanto vejo as pessoas seguirem as suas vidas como se não estivéssemos todos condenados. Recomendamos podcasts, fazemos maratonas de séries e perseguimos os nossos sonhos, como se o Mundo não estivesse a um campo de permafrost derretido da destruição.

Fazemos piadas.


Vê: "Cientistas estão a criar um super coral que pode sobreviver às alterações climáticas"


Nos últimos dias estive com uns amigos e com o seu bebé recém-nascido e brincámos sobre como vamos ter que o treinar para ser escuteiro depois do apocalipse. Somos demasiado jovens para imaginar as nossas vidas a acabarem como as dos nossos pais, mas também demasiado velhos para contornar as armadilhas do conforto consumista, por isso praticamos essa ironia mórbida como uma rebeldia contra a aceitação do nosso desespero diante do que está por vir.

Encontrar o amor verdadeiro, tirar selfies. Para quê? Não há nada para aprender ou ganhar. Nenhum significado. Quando acontecer o que seja que vai acontecer, nem vai ser tipo uma retribuição kármica da natureza a desprezar as nossas muitas transgressões. Esse é só um mito que inventámos para nos sentirmos especiais. Não. Quando acontecer, vai ser apenas o resultado dos vícios clássicos da humanidade de ganância, burrice e húbris. Erros idiotas multiplicados por milhares de anos.

Portanto, enquanto os modelos climáticos vão piorando, enquanto a insignificância e a futilidade de todas as coisas que gosto se tornam claras, só resta uma questão por responder: será que devia entrar no mundo da publicidade? Porque não? Já fiz tudo o que podia. Partilhei os links, protestei nas ruas. Deus sabe como protestei, até me doem os pés só de pensar. Já li Naomi Klein. Já me sentei no relvado do Parlamento de Ontário sem sequer ter uma mantinha por debaixo, a relva directamente no rabo das minhas calças! Já enchi a cabeça à minha namorada a conversar uma e outra vez sobre textos do caraças do Guardian e deprimi amigos por tanto lhes falar sobre como estamos todos fodidos – se isso não é activismo, o que mais pode ser?

Vejo a miudagem a marchar na rua e quero gritar da janela: “O que é que vocês querem que eu faça? Não viver neste Mundo?”. No primeiro dia do calor insuportável, devo enrolar-me em arame farpado e ir até uma churrascaria a gritar “O fim está cada vez mais próximo” e usar o meu último suspiro para deitar abaixo um balde de Coronas?

Não. Não vou ouvir as crianças, deixem-me ser um publicitário em paz. É o que eu posso fazer. Adoraria fazer mais e ir a reuniões, mas fico deprimido perto de mesas desmontáveis. Para além disso, talvez possa ajudar mais quando estiver dentro da máquina. Nada nunca foi feito e conquistado fora da máquina. É melhor ir-me já enterrando; arranjar uma alcunha engraçadinha e usá-la para me aproximar do poder. Afinal de contas, “alterações climáticas” é um mau rebranding. Esse é o problema. Chamar o que está a acontecer de “alterações climáticas” é tipo entupir a retrete da casa da tua namorada com um cocó gigante e chamar-lhe “problema de canos”. Se eu vier a ser publicitário, posso trabalhar para mudar o termo de “alterações climáticas” para “O Grande Fiasco do Carbono”.

O que é a arte num momento como este? Uma cuspidela inútil dos condenados! Mais nada. Indulgência infantil, reflexões narcisistas, posso muito bem ficar aos saltos a dizer “Olhem para mim! Olhem para mim!”. Arte, agora, é egoísmo. Publicidade é um acto verdadeiro de generosidade. Porquê esfregar a minha tristeza na cara das pessoas, quando posso atraí-las para o que as vai deixar felizes nestes últimos dias? A alegria simples de comer uma travessa de camarões com os amigos; como conduzir um jipe novinho em folha com a janela aberta vai fazer com que a tua companheira te ache novamente atraente; a liberdade que sentes ao dançar com umas calças de ganga novas; actos lúdicos, como montar um escorrega aquático numa rua movimentada, algo que só uma marca de refrigerantes pode inspirar.

Vejo os meus amigos publicitários e, sim, eles sabem disso. Andam como deuses na terra. Corte de cabelo da moda, barba aparada, carteira cheia. Têm uma vitalidade a correr neles que só a relevância pode fornecer. Estão conectados com a verdade e a certeza e – graças ao dinheiro – sem dúvida vão saber PARA ONDE IR QUANDO DER MERDA. Sempre achei que quando tudo começar a desmoronar, o centro comercial vai estar coberto por uma grande redoma, onde os escolhidos abençoados vão poder desfrutar de happy hours com open bar de mimosas e noites ao som de Ariana Grande e eu preciso de estar debaixo dessa redoma, OK?

Eles são fortes porque sabem a verdade: a única coisa que pode me salvar neste momento é servir algo maior que eu. E o que pode ser maior do que marcas? Então, ofereço-me a esses monopólios cintilantes. Marcas, imploro-vos, salvem-me deste horror e da minha minúscula insignificância. Vocês são gigantes e poderosos e, quando tudo se transformar em pó, sei que vocês vão continuar de pé.


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