LGBTQ

Como é ser criado com género neutro

Falámos com pais sobre os desafios de uma educação fora dos estereótipos de género.

Por Bo Hanna; Traduzido por Marina Schnoor
21 Fevereiro 2019, 4:13pm

Foto: Amelia.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Em Abril de 2016, entrevistei duas mães que estavam a criar os filhos como género neutro. Pode ser libertador, disseram, não ter expectativas sociais sobre as crianças com base no sexo. No entanto, muitas pessoas consideram essa decisão como uma forma de doutrinação não-natural – argumentando que, simplesmente, há uma diferença biológica entre homens e mulheres; que as crianças não devem ser enganadas para pensarem que podem escolher uma coisa ou outra. Sem surpresa, o meu artigo recebeu comentários como: “Isso é abuso infantil moderno” e “Outra mãe egoísta a projectar os seus problemas de identidade numa criança”.

Mas, nos últimos três anos, muita coisa mudou: a sociedade está mais consciente de como o reforço de estereótipos de género pode afectar negativamente os seus filhos. Pronomes e casas-de-banho de género neutro estão em ascensão, duas escolas de género neutro existem na Suécia e um número cada vez maior de escolas no Reino Unido estão a adoptar uniformes de género neutro. Um estudo de 2017 encontrou ligações entre estereótipos de género reforçados rigidamente e riscos maiores para a saúde física e mental.


Vê: "Criados sem género"


Tendo isto em conta, quis perceber o que se está a passar com Dani, uma das mães apresentadas nesse artigo, para descobrir se, desde a última vez que falámos, as pessoas estão a aceitar mais facilmente o seu estilo de educação. “As pessoas ainda acham que estamos a negligenciar ou a abusar da nossa criança”, diz-me. E acrescenta: “Mas, literalmente, estamos apenas a permitir que a nossa filha de oito anos, Mathilda, experimente e descubra as coisas de que gosta – seja dança, futebol, Meu Pequeno Pónei ou Batman. Só não dizemos: 'Isto é de menino, não podes ter'. Isso não exige nenhum conhecimento ou nenhum tipo de pensamento abstracto estranho e acredito que todos os pais o deveriam fazer”. Dani explica que Mathilda não fica confusa com a própria identidade de género. “Ela é uma menina e vai dizer-te exactamente isso, mas ela também adora coisas que, segundo a nossa sociedade, 'são de menino' – só isso”.

Este é um ponto importante. Mathilda – com quem os críticos do género neutro dizem estar preocupados – não está confusa. Na maioria das vezes, a discussão gira em torno dos pais e das suas decisões, em vez de ouvirmos directamente as próprias crianças. Para fazer isso, abordei Amelia, 24 anos, e a sua mãe Evelijn, 52 anos, além de Cearrah, 28 – uma mãe que encontrei num grupo do Facebook para “pais a criarem os seus filhos num ambiente de género neutro”. Finalmente, falei também com Ben Kenward, professor sénior de psicologia da Universidade Oxford Brookes, em Inglaterra, que já esteve envolvido em estudos comparativos de crianças em estabelecimentos pré-escolares de género neutro, com crianças em pré-escolas convencionais na Suécia.

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Evelijn com a família. Foto: Evelijn

Cearrah e a sua criança de oito anos vivem numa cidade pequena no oeste do estado de Nova Iorque. “Não é fácil criar uma criança desta forma onde moro”, explica-me por e-mail. E justifica: “No ano passado, quando o meu filho trocou de escola, foi a primeira vez que os professores não me tentaram convencer de que os meninos não podem usar vestido. Ele já teve professores que tentaram fazer com que trocasse as roupas 'de menina' ao chegar às aulas e um conselheiro de escola disse-me uma vez para ignorar o bullying, porque isso ia torná-lo 'mais homem'”.

Alguns dizem que pais como Cearrah estão a obrigar os seus filhos a adoptar uma certa identidade, mas ela argumenta que está a fazer o oposto. “A maioria não entende que não sou uma radical a empurrar as minhas crenças para o meu filho. Só quero que ele seja feliz e se sinta confortável na sua própria pele”.

Tal como com Mathilda, Cearrah diz-me que o seu filho nunca ficou confuso com a própria identidade. “O meu filho ainda se identifica como homem e prefere o pronome ele”, escreve. E acrescenta: “Mas, não se ofende quando estranhos dizem ela. Às vezes nem corrige, outras vezes sim. Já tivemos muitas conversas sobre o tema e ele sabe que pode escolher. Durante um tempo considerou pronomes de género neutro, mas disse-me: 'não parece eu'”.

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O filho de Cearrah. Foto: Cearrah

Evelijn é uma terapeuta dramática holandesa especialista em questões LGBTQ+ e mãe de um filho que se identifica como não-binário e dois filhos que se identificam como homens, além de uma filha, Amelia. Conheci Evelijn e Amelia através do Radiant Love, um clube nocturno de Berlim e colectivo que defende “inclusão na música electrónica, arte e performance”. Evelijn trabalha na porta a receber a taxa de entrada nos eventos. “Sempre estive cercada de pessoas queer”, realça. E acrescenta: “Cresci numa família progressista; a minha avó era feminista. Por isso sempre me senti livre com a minha sexualidade e expressão de género. Nunca acreditei na construção social e cultural de género e deixei os meus filhos sentirem-se livres para serem quem realmente são”.

Ao contrário de Evelijn, Cearrah explica que, inicialmente, reforçou estereótipos de género masculino para o filho, mas que percebeu que essa forma de ser criado não era o que ele precisava. “Fiquei com as roupas e brinquedos de menino até ele ter uns 18 meses e começar a mostrar uma preferência por vestidos e glitter”, recorda. “No começo, não sabia nada sobre crianças que não se conformam com género e achei que havia algo errado com o meu filho – obriguei-o a seguir o que a sociedade me dizia que eram as roupas e brinquedos apropriados para meninos. Não sei se já viste uma criança pequena deprimida, mas é de cortar o coração. Comecei a ler um blog chamado Raising My Rainbow, que me ajudou a entender o meu filho e a parar de o prejudicar. Daquele dia em diante, o meu filho assumiu o controlo e agora é uma das crianças mais felizes que conheço”.

Evelijn não acha que as pessoas entendam o que significa uma criação de género neutro. “Não uso pronomes de género neutro, nem nego o género dado aos meus filhos”, sublinha. E adianta: “A forma simples como luto contra o patriarcado é nunca dizer à minha filha para ser uma boa menina e nunca dizer aos meus filhos para serem homens. Permiti que os meus filhos expressassem toda uma gama de emoções e que brincassem com seja lá o que quisessem. Azul e rosa eram apenas cores para nós, não algo específico de género. Quando falava sobre o futuro com os meus filhos, usava a palavra 'pessoa' para deixar claro que não tinha expectativas sobre com qual sexo eles deveriam ficar”.

Quando perguntei a Dani como estava Mathilda ultimamente, ela disse-me que a filha estava a tornar-se mais influenciada pelo que via na TV e o que notava noutras pessoas. “Já disseram à minha filha que ela tinha que continuar no 'caminho rosa'”, afirma. E salienta: “Ela só tem oito anos e, mesmo tendo consciência de estereótipos de género, às vezes cai nesse pensamento limitado. Quando isso acontece conversamos sobre o que se passa”.

Enquanto o filho crescia, Cearrah descobriu que ele ia ficando cada vez mais capaz de colocar os seus sentimentos em palavras: “Foi melhorando na questão de discutir as suas diferenças com colegas e corrigir outros ao seu redor com factos, sem supor que alguém o está a questionar por maldade”.

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Foto: Amelia

Amelia é uma artista performática que vive em Berlim. Perguntei-lhe como foi ser criada com género neutro. “Diariamente, as crianças na minha escola diziam coisas como 'não podes fazer isso porque és menina', mas isso só me fazia sentir rebelde e a minha resposta era definitivamente fazer aquilo”. Quando lhe perguntei se ficou confusa ou se sentiu afectada pelas mensagens conflituosas que recebia em casa e na escola, ela explicou que sentia um choque entre a sua criação e o que a sociedade esperava dela.

“Brincava com meninos e meninas, mas lembro-me de um grupo de rapazes me dizerem que não podia brincar com eles e que tinha de sair dali porque eles queriam privacidade – o que não fazia sentido para mim”, recorda. E acrescenta: “Também não entendia porque é que o meu professor dividia as equipas por sexo durante as aulas de educação física”. Segundo Amelia, mesmo os adultos a atacaram. “Outros pais foram à minha mãe dizer que eu era promíscua, porque queria brincar com os filhos deles”, refere. E sublinha: “Uma vez, outra mãe e o meu professor de educação física disseram-me que a minha mãe tinha de me comprar um sutiã, porque parecia inapropriado que não usasse um nas aulas mistas. Sempre senti que os adultos criam uma certa segregação entre meninos e meninas, o que, para algumas crianças, resulta em medo de interagir com o sexo oposto”.

Mathilda é super consciente da forma como meninos e meninos são divididos. “Quando ela repara num corredor de uma loja de roupa muito voltado para um género, diz aos colegas de escola que todas as cores são para toda a gente e que os rapazes também deveriam poder usar rosa”, explica Dani. E afirma: “Fica danada se os miúdos não a deixam jogar futebol com eles – diz a essas crianças que só porque ela é menina não significa que não pode fazer o que está a fazer”.

Enquanto isso, mesmo que o filho de Cearrah se esteja a tornar mais consciente das suas escolhas relacionadas com género, a sua mãe sabe que ele é muito influenciado pelos amigos. “Ele normalmente vai para as bonecas quando brinca – mas, se há um amigo em casa, ele pára e vai para os brinquedos 'de menino'”, diz Cearrah. E acrescenta: “No entanto, com a família, não pensa duas vezes antes de olhar para vestidos, por exemplo. Reparei que quando está com colegas ou com mais membros da nossa família, pensa muito nas coisas e preocupa-se em não fazer a escolha errada aos olhos dos outros”.

O filho mais velho de Evelijn sofreu muito bullying quando tinha seis anos – algo que não o afectava apenas a ele, mas também aos seus irmãos. “Ele só tinha amigas e era percebido como 'metro', como era chamado na época. Isso fez com que os irmãos não se comportassem como ele, porque tinham medo das consequências”. Mesmo que Amelia também tenha sofrido bullying, ela diz que gostou da sua infância. “Se eu tivesse que escolher entre a realidade [normas de género da sociedade] ou a minha própria criação, gostei mais da última”, garante. E justifica: “Sinto-me muito privilegiada por ter nascido nesta casa, porque sinto-me muito livre agora e género não é uma coisa importante para mim”.

A experiência de Amelia é apoiada por várias investigações. Segundo um estudo de 2017, crianças matriculadas em jardins de infância de género neutro na Suécia marcavam mais baixo em medidas de estereótipo de género e estavam mais dispostas a brincar com crianças estranhas de um género diferente.

Ben Kenward foi um dos investigadores do estudo. O psicólogo britânico diz que não ficou surpreendido com os resultados. “A influência da sociedade é grande, mas crescer num ambiente de género neutro tem, definitivamente, benefícios”, assegura. Quando lhe pergunto se não era confuso crescer entre realidades diferentes, ele explica que há estudos que mostram que crianças criadas num ambiente de género neutro fiquem mais confusas sobre a sua identidade, que crianças em escolas mainstream. “Eles não têm menos possibilidade de notar o género de outra pessoa, apenas têm notas menores em medidas de estereótipos de género”, realça.

Claramente, uma criação de género neutro pode ter consequências – mas, segundo Dani, o seu estilo de educação não faz com que a filha fique a perder em nada. Na verdade, é o contrário. “Ela junta-se a meninas para subir a árvores ou andar de bicicleta e junta-se a meninos para correr por aí e jogar futebol”, conta Dani. E conclui: “A minha filha importa-se mais com a brincadeira do que com quem ela está a brincar”.


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