Saúde

Quando ser mulher dói. Insuportavelmente

A endometriose afecta 10 por cento da população feminina em idade reprodutiva e entre 25 a 45 por cento das mulheres inférteis.
29.1.19

Ser mulher é complexo. É ser mãe e boa filha, é ter cuidado com os palavrões, é viver dentro dos conformes que a sociedade nos desenhou. Ser mulher é ter de guardar na cabeça metade dos pensamentos, é saber o que se pode ou não dizer, o que é apropriado e “digno de uma senhora”. Ser mulher é ter uma imensidão de ideias contrárias, porque muitas vezes queremos mas não podemos. É ter menos orgasmos e mais responsabilidades. É ser chamada de púdica e de puta tudo no mesmo dia e ter cuidado com a roupa, porque “estamos a pedi-las”. É ser forte, muito forte. Forte para a aguentar as dores menstruais, os calores da menopausa, as gravidezes e os partos. Forte para ir trabalhar e deixar o nosso bebé em casa e forte para levar com insinuações sexuais e apalpões, mas ter que aguentar o paradoxo de que, quando somos nós a querer falar do assunto, não fica bem a uma senhora falar de sexo.

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Ser mulher é ser mais mal paga, é ser mais vítima de discriminação e, em muitos países, é ser morta ou escravizada. Ou vendida, ou casada com um qualquer. Ser mulher é ser a herdeira e carregar nos ombros o peso de todos os anos passados em que tínhamos que ficar em casa, em que adultério só o era se fossemos nós a cometê-lo, mas não quando a nós nos eram infiéis. Quando o divórcio nos era proibido, quando às putas se lhes atiravam pedras, quando o sexo era abrir as pernas e fazê-lo vir – e nunca ao contrário - para ser depois a nós que nos pinga nas cuecas e a quem nos cresce a barriga.


Vê o primeiro episódio de "Woman", com Gloria Steinem


Ser mulher é ouvir o presidente dos Estados Unidos a dizer que a pílula não tem porque ser comparticipada e que o aborto devia ser ilegal até em casos de violação. Ser mulher é ter homens a decidir sobre nós, por nós, sem saberem do que falam.

E, às vezes, muitas mais do que as que se pensam, ser mulher é ter doenças e problemas no sistema reprodutivo. O que, no nosso caso, por em estado normal já ser suficientemente complicado ser do sexo feminino, leva a uma ainda maior incompreensão por parte dos homens. Esta curta-metragem, Endosphère, que podes ver acima, realizada pelas francesas Annabelle Mai e a sua amiga Carolina, que sofre de endometriose, vem alertar-nos para esta doença e as suas consequências, tanto físicas, como sociais. Vem contar como, para as mulheres que sofrem de endometriose, é difícil encontrar parceiros, como foram despedidas dos trabalhos, para além de toda a dor física que sofrem cada dia.

Nesta doença, que afecta 10 por cento da população feminina em idade reprodutiva e entre 25 e 45 por cento das mulheres com infertilidade, as células que constituem o endométrio encontram-se fora da sua localização normal, por exemplo no peritoneu pélvico, nos ovários, na bexiga, no apêndice, intestinos ou, até, no diafragma. Pode também afectar órgãos mais distantes, como o pulmão, o nariz ou a pele.

Ser mulher é fodido, mas não o trocaria por nada. Porque somos fortes e capazes e havemos de chegar a um mundo em que nos valorizam e nos tentam compreender. Em que, em vez de sermos alvos de chacota e crítica, ou marginalizadas pelas nossas doenças e corpos incompreensíveis, sejamos líderes e exemplos. Para lá chegar, é preciso que nos conheçam, que nos respeitem e percebam. É necessária mais educação e maior compreensão.


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