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A surreal maturidade de Fábio de Carvalho

Lançando o novo EP, “Sonho de Cachorro”, e se desgarrando de gêneros e classificações, o jovem e virtuoso músico indie mineiro inaugura um momento repentino de segurança, auto-afirmação e (mais) criatividade.

Numa noite chuvosa, sob o recuo da calçada do terminal rodoviário, um cão de rua vela o sono de seu dono, que dorme sobre pedaços de papelão estendidos. Na periferia, outro vira-lata repousa em frente ao portão da rua, guardando a casa de seus cuidadores. Em um ponto mais abastado da cidade, um canino descansa de patas esticadas e barriga cheia, depois de um longo dia de mimos e brincadeiras. É como dizem: todos os cães merecem o céu, mas quando dormem, o que estariam sonhando? Esta pergunta é a premissa básica do novo EP do Fábio de Carvalho, Sonho de Cachorro, lançado exclusivamente no Noisey nesta terça (18).

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O lançamento de seu último single, "Deusa do Mar", foi apenas uma prévia de o que pode ser considerado um dos discos mais inventivos deste ano. E, se o primeiro single trouxe a participação de outros artistas mineiros contemporâneos, como Sara Não Tem Nome e Fernando Bones, o EP ainda traz mais uma outra colaboração bem especial de BH: em "Ver e Ser Visto", Sentidor encorpa a música com ambiência, samples e cordas. "Acho o João Carvalho um dos músicos mais importantes de Belo Horizonte atualmente e que o trabalho dele precisar ser discutido. Chamei ele porque confio na sensibilidade dele e na relevância que a sonoridade ia trazer pra música", explica Fábio.

Como se não bastassem seus amigos talentosos da novíssima geração belorizontina, Fabinho ainda conta com a participação de Sérgio Giffoni (do grupo de hip-hop O Julgamento), tocando derbake, um instrumento de percussão árabe, e ainda do seu pai, o trompetista Ricardo Reis Penido, para duas das cinco faixas do álbum. "Eu sempre quis colaborar mais com meu pai. Mais do que aquele breve trecho em 'Meu filho, isso acabou de começar'. E a gente construiu as coisas juntos, as melodias de trompete. Então, foi muito legal. A expressividade do trompete dele também foi muito importante. O disco vai ser dedicado a ele."

Sonho de Cachorro é um EP surpreendentemente maduro, no qual Fábio disserta sobre cotidiano, memórias e anseios através de novas linguagens, transmitindo sentimentos que oscilam entre medo e bravura, amargor e doçura, inocência e heroísmo, realidade e fantasia, como um cão nobre uivando enquanto dorme. Depois de ouvir três vezes seguidas e ainda maravilhado com sua riqueza de criatividade, troquei uma ideia de duas horas com o jovem músico pelo WhatsApp, a fim de entender seu processo criativo, seus novos pensamentos e sua perspectiva para o futuro. Acompanhe:

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Noisey: Você parece estar envolvido em novos experimentos musicais, certo? Quais novas influências você levou em consideração pra esse EP?
Fábio de Carvalho: Cara, foi sim uma busca por outras articulações. Eu pensei muito em Destroyer. Acho que foi minha principal influência. O jeito que ele constrói arranjos grandiosos é incrível. Pois é, os arranjos desse disco transcendem bastante os gêneros e classificações musicais. Era essa a intenção?
Sim! A parada era fazer uns arranjos mais densos, com mais instrumentação, e atingir um som mais limpo. Isso só se deu pelo trabalho fenomenal do Fernando Bones, que conseguiu resolver a sonoridade das músicas de uma forma fantástica. Explorar diferentes gêneros e misturar todos eles é uma das coisas que mais me interessa e eu sinto que consegui fazer isso muito bem.

De fato,você é um músico jovem e bastante virtuoso. Cê já tem um caminho ou planos que pretende seguir pra continuar se superando musicalmente?
Que loucura ouvir isso. "Virtuoso". Não me considero nem minimamente perto dessa descrição, mas agradeço muito. Agora, tenho planos sim. Não quero entrar em detalhes, porque eu gostaria de surpreender as pessoas, pra manter as coisas mais interessantes. Mas eu tenho sim um interesse em expandir mesmo essas ideias de como arranjar uma música, e fazer coisas grandiosas no futuro. Ao mesmo tempo, no entanto, eu poderia fazer um disco só com voz e violão. Gosto de me desafiar e buscar novas intenções, então é imprevisível pra onde eu vou depois daqui.

Em suas letras, você segue falando sobre cotidiano, porém com muito mais metáforas e figuras de linguagem. Algumas passagens parecem até bastante literárias. Mudar seu jeito de escrever foi intencional?
Esse disco é com certeza uma coisa mais focada pra uma narrativa que extrapola minhas experiências pessoais. Por exemplo, "Ver e ser visto" é uma experiência de história feita de retalhos em momentos bem diferentes. Em algumas músicas, como nessa, não está muito claro pra mim até hoje o que eu quero dizer. Não consigo conceber uma unidade de significado pra todos os trechos de cada música. Acho que cada ouvinte vai chegar em uma coisa diferente. Isso é legal, porque nessas músicas eu jogo com uma forma diferente de as pessoas se associarem com as músicas. No primeiro disco, era sobre elas se verem de uma forma muito direta nas situações que eu descrevia. Já nesse segundo, essa associação vai rolar a partir de um construção imagética mais obtusa. Eu jogo com essas formas diferentes, pois aceitei os jogos de linguagem, vamos dizer assim. Não me interessa tentar ser verdadeiro. Quero que as pessoas suspeitam de mim. Não importa se eu passei pelo que eu estou escrevendo. O que importa é a experiência, a poética.

Ao mesmo tempo em que você escreve "Ver e ser visto" com bastante fantasia, você escreve "Ana", que é puro relato. Como você dissocia um estilo do outro?
Acho que é tudo a mesma coisa. Eu tô "irrealizando" as coisas, percebe? Ficção é isso, transformar e jogar com o real. Em "Ana", as pessoas de quem eu falo não estão ali. Elas são personagens. Não é real, mas sim um jogo com o real. Então, tá tudo na mesma esfera. São formas de se jogar com as ideias. Isso, eu pego muito do cinema. No cinema, as pessoas pensam muito assim. Porque, se não for assim, acho que isso adquire um peso muito grande. Tipo, eu tô colocando as pessoas ali na minha música e elas tão de alguma forma presas naquilo? Como se eu fosse um grande narrador da experiência verdadeira. Não quero narrar verdades sobre esses personagens. Isso é pesado demais. Eu tô só jogando, fantasiando, espetacularizando. Fundamentalmente, o que eu faço é entretenimento. As pessoas não podem buscar verdades nas minhas músicas, sabe?

Claro! Mas vem cá, você acha que se entendeu melhor com seus pensamentos nesse disco?
Acho que sim (risos). Coincidiu com uma época de bastante clareza na minha vida, sobre muitas coisas. Não é como se eu não tivesse um monte de problemas não resolvidos na minha cabeça, mas percebi que o espaço que eu dava pras minhas inseguranças estava grande demais. E eu tenho cuidado mais do meu bem-estar, o que faz uma diferença monumental no meu cotidiano. A frase "não vou deixar o pássaro fazer ninho na minha cabeça", de "Deusa do Mar", veio numa época que eu estava lutando demais pro pássaro não fazer ninho, mas todo dia ele basicamente cagava em mim (risos). Mas é basicamente sobre não deixar seus pensamentos tomarem você de refém. Eu tento me cuidar pra não cair em pensamento obsessivo, que é algo que eu tenho muita tendência a fazer. Tipo, esgotar sua cabeça de tanto pensar em alguma coisa. Isso é característica de gente ansiosa e, como todo mundo hoje em dia, eu sou também. Então, tenho que me cuidar.