A Polêmica do Beijo Grego no TomorrowWorld Diz Muito Sobre a Dance Music dos EUA

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A Polêmica do Beijo Grego no TomorrowWorld Diz Muito Sobre a Dance Music dos EUA

Liberdade, sexual ou não, é sempre um ato político.

Antes do TomorrowWorld ter sido encerrado com uma enchente de proporções bíblicas na noite do último sábado (26), e tendo lavado os pecados de toda uma geração, o festival de EDM nos arredores de Atlanta foi o assunto mais comentado na internet por uma razão muito mais picante como você pode ver na foto NSFW abaixo, que foi postada no Facebook e imediatamente viralizou.

Se você não teve essa aula de educação sexual, o que está acontecendo acima é comumente referido como um "beijo grego", cientificamente chamado de "analigus". A já referida prática sexual está acontecendo, supostamente, em meio ao público do TomorrowWorld, e a imagem começou a bombar nas mídias socias no fim da noite de sábado. As reações à foto foram do nojo a exaltação, sem excluir a sempre saudável discussão se o ato seria, ou não, apropriado para um festival.

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Como acertadamente colocado por Seth Troxler no artigo Raves São os Melhores e Piores Lugares do Mundo, nesses rolês costumamos andar no fio da navalha entre a liberdade e a idiotice. De acordo com Seth, a característica distintiva não é conteúdo (beijo grego em público), mas sim contexto. Troxler descreve uma cena na Berghain em Berlim onde, "tinha esse cara urso grandão com suspensórios e uma calça de couro sem a bunda. Estava tocando 'Yellow' e quando ele se debruçou, esse outro cara começou a lamber seu cu. Todo mundo em volta estava dançando sem se preocupar. Eu fiquei tipo '…isso é interessante.' É uma revolta contra o mundo. Essa é a liberdade da balada. Cair na lama e ter bolo arremessado em você? Isso não é liberdade."

Então onde um beijo grego consensual na lama em um festival estaria na escala idiotice-liberdade de Troxler? Por que um beijo grego proferido por um urso europeu pode parecer mais "apropriado" do que os jovens do momento no início deste texto? A ousadia da revolta do ato contra o mundo é contrabalançada por sua beleza? Eu acho que não.

Talvez o público frequentador da Berghain seja mais aberto em sua experiência de balada e portanto mais preparado para testemunhar esse tipo de cena. O fato de que a foto supracitada caiu no Facebook enquanto o beijo provavelmente ainda estava rolando, deve dizer que o público geral do festival não estava pronto para esse nível de liberdade sexual. Mas como ficará essa jovem audiência sem os bravos pioneiros como esses dois loucos abrindo o caminho?

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Liberdade, sexual ou não, é considerada um ato político nos meandros escuros da Berghain, lugar onde a cultura queer liderou o caminho em meio ao agressivamente crescente conservadorismo atrás das bemguardadas portas da balada. No meio da barulhenta turba da cultura americana de festival, no entanto, sexo público é apenas um espetáculo para ser visto, mastigado e cuspido como uma chupeta velha na boca de um jovem fã de Steve Aoki. Não tem sentido algum, não é político. Mas talvez devesse ser um ato heróico.

Nunca me lamberam enquanto eu estava drogada no meio de um festival, mas aposto que estou perdendo. E digo mais: estaria disposta a apostar que a maioria das pessoas lendo esse artigo ficariam empolgadas de estar do lado passivo dessa cena gloriosa se elas pudessem esquecer seus bloqueios comuns de decência e higiene básica. Se um jovem Foxy Troxy estivesse na cena agora, praticando o EDM norte-americano pela primeira vez no lamaçal com um monte de moleques universitários, aposto que ele estaria de joelhos no palco principal dando seu melhor beijo grego. Mesmo que mais ninguém nas estimadas 190 mil pessoas presentes no TomorrowWorld estivesse pronto para isso, esses dois da foto lá do topo claramente estavam — e eu digo que eles são os verdadeiros heróis por destemidamente estabelecerem um novo padrão para comportamento extremo de rave.

Conclusão: dar um beijo grego em um festival é ok pra mim. Houve muita discussão sobre o paladar americano ir além do "EDM", indo para climas mais profundos e cabeçudos. Esse tipo de coisa não acontece da noite pro dia em uma virada monolítica em direção à luz (ou à escuridão). É uma série de batalhas contra convenções sociais (sejam elas musicais ou sexuais), e esse sujeito com sua língua dentro da bunda da garota é o equivalente EDM da batalha de Antietam. Tem bem pouco neon nessa foto. Isso não é coincidência. O buraco daquela garota é a mina de carvão, a língua do sujeito é o canario, e a mensagem é clara: "EDM acabou, você deveria ouvir techno."

Além do mais, se a rave começar a virar uma orgia, pense apenas nos upgrades VIP que os promoters vão poder vender. Passe de acesso completo ao domo de orgia Toyota Prius: U$ 499 pelo fim de semana, vendedores de brinquedos eróticos no local vendendo vibradores de LED com margem de lucro de 40%, oportunidades imensas de propaganda de camisinhas e lubrificantes. Selvageria é o novo paz e amor — e espero que você esteja levando lenços umedecidos pro rolê.

Esse é o primeiro artigo de Molly Hankins para o THUMP.

Tradução: Pedro Moreira.