A "Get Lucky" não é assim tão boa e vocês são todos uns idiotas

Dez malhas, novas e antigas, que são melhores do que a nova dos Daft Punk.

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29 Abril 2013, 10:30am


Nas últimas semanas a nova canção dos Daft Punk tem merecido loas de toda a parte, de Los Angeles a Tóquio, de Svalbard a Joanesburgo, do Facebook ao Twitter, da Pitchfork à imprensa escrita, passando pelos putos de onze anos que costumam ir para a praça jogar à bola. É o groove, dizem. É a voz sexy do Pharrell Williams. É o ritmo disco que os franceses ressuscitaram por via da colaboração com o Nile Rodgers.

É tanta coisa, meu-deus-esta-canção-faz-me-pingar-a-cuequinha. O regresso dos Daft Punk quebrou o recorde de audições no Spotify, deixou críticos e DJs à toa e vai fazer com que Random Access Memories, o quarto disco do duo robótico mais divertido do planeta, venda mais do que aquilo que um disco é capaz de vender em pleno 2013, quando se podem fazer tantas e tão boas playlists no Youtube. Mas tudo isto é ridículo: a canção não é grande coisa.

Claro que, numa noite em que se esteja numa discoteca irremediavelmente bêbado e rodeado de miúdas de saltos altos, é capaz de pôr um gajo a abanar a anca. Mas se merece toda esta avalanche de tesão que a tem rodeado desde que se ouviram os primeiros quinze segundos no Saturday Night Live? Nem pensar. É fresca, dizem. É uma fuga à rotina em que a EDM parece ter caído nos últimos anos por culpa de tipos como o Deadmau5. É a melhor coisa em que os Daft Punk, o Pharrell e o Nile Rodgers estiveram envolvidos em muito tempo. Não merece. E não merece porque não só é um rehash de algo que era fixe no passado (o que, convenhamos, é algo que parece estar muito em voga hoje em dia, e isso explica muita coisa) como pelo facto de que estamos a falar dos Daft Punk — deles já se ouviram coisas tão melhores e tão mais transcendentais (sim, vou utilizar este adjectivo).

É deles aquele que é possivelmente o melhor disco pop da década passada (Discovery) e, sabendo isto e conhecendo o seu trabalho individual enquanto produtores house, não resta senão dizer que este pastiche de 1978 é apenas uma coceguinha no mundo genial e futurista do Thomas e do Guy-Manuel. Como sou averso a todo e qualquer hype, especialmente para aquele que não é de todo merecido, segue uma lista de dez malhas, novas e antigas — principalmente antigas, já que gostam de velhadas — que têm tanto de semelhante como de superior a esta “Get Lucky”. Rematando: vocês acham que esta merda é alguma novidade. A sério? Alguma vez dançaram na puta da vossa vida?



Já que parecem adorar o Nile Rodgers (aposto o colhão direito em como 83 por cento dos tipos que veneram a “Get Lucky” nem sabiam quem ele era antes de a ouvir), eis um clássico dos primórdios do milénio, quando de França saíam pérolas house como esta. Chamaram-lhe french touch. Não há ninguém da minha geração que não se recorde de ter onze, doze, treze anos e ouvir isto na MTV ou na rádio. “Lady” pega num sample da “Soup For One”, dos Chic, e transforma-o numa malha estupidamente orelhuda que fez sucesso Europa fora há pouco mais de dez anos. E, lo and beyond, não difere em quase nada, em termos de construção, da “Get Lucky” — até tem um pouco mais de pujança por via do beat. Deus abençoe o 4/4.



A versão longa, só por causa das merdas. Alguém dizia há pouco tempo no meu mural: “Descobri há cinco minutos que os Stardust eram o Thomas e mais uns manos.” Pois, é esse basicamente o vosso problema: não conhecem puto e papam tudo o que vos dizem que é bom e vos garante dúzias atrás de dúzias de likes e retweets. É isto de que falava: dos dedos do Thomas (e do Alan Braxe) saiu um dos melhores temas house de sempre (The House Song of the Millenium, chamaram-lhe uns exagerados que são bem capazes de ter razão), o que só me leva a elevar a fasquia no que as novas cenas dele diz respeito. Se o deificarmos demasiado torna-se indolente e preguiçoso, que é aquilo a que basicamente a “Get Lucky” soa. Ouçam e manquem-se.



Esta também é nova, também é francesa, também tem ligações aos Daft Punk (estudem) e também ginga mais forte mesmo não sendo propriamente feita para dançar — mas de certeza que não tardam as remisturas. O fascínio desta canção deve vir daqueles teclados maravilhosos e dos balõezinhos às cores flutuando sobre campos de algodão-doce que consigo imaginar só de a ouvir. E, ao contrário dos Daft Punk, os Phoenix irão passar por cá em Julho para vos mostrar que eu tenho razão.



Algo um pouco diferente, mas não menos difícil de ouvir e de pôr os braços no ar sem que o mundo nos preocupe. Os Cassius tiveram o seu momento de glória junto da canalha hipster quando a “I Love You So” foi aproveitada pelo Kanye e pelo Jay-Z no disco conjunto enquanto The Throne, mas muito antes disso já faziam coisas apontadas às pistas e aos ouvidos. Podia ter escolhido várias músicas, mas opto por esta pela simples razão de que foi a primeira que alguma vez ouvi com o nome deles à frente, nos idos anos de 2005 ou 2006 quando comecei a largar o metal devido à vontade que tinha de comer gajas. I regret nothing!



Ah, Jamiroquai. Tal como as ondas que vinham de França, reabilitaram (sim, minhas bestas, são uma banda, não o nome do tipo que canta) o disco para o século XXI, injectaram-lhe uns pozinhos mágicos e deixaram toda a gente a curtir o A Funk Odyssey no ido ano de 2001. A minha melhor memória deles será sempre as aulas de Educação Física no nono ano, quando as minhas colegas de turma dançavam ao som da “Love Foolosophy” com calções mais curtos que a carreira do Del Neri no Porto. Era essa e era a “Thong Song” de Sisqo. Que puta de saudade bateu agora.



O vídeo faz-me rir. A canção também é boa, mas passou ao lado de muita gente. Aliás, nem sei se os tipos fizeram mais alguma coisa a seguir a isto (adenda: o Discogs diz-me que sim), e por conseguinte não sei se lhes hei-de chamar one-hit wonder ou alguém que não teve a máquina de propaganda que os Daft Punk têm. Seja como for, é triste.



Ver texto da canção anterior. Bónus extra: o vídeo também tem um robô. Além disso, D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-D-DON'T STOP THE BEAT!



Talvez aquela que menos se conjuga com a minha premissa inicial (malhas semelhantes à “Get Lucky”), mas não menos superior (oh, se é). A Dawn Richard, ao que parece, também tem obtido um certo culto, mais por parte dos críticos do que do público em geral, é verdade — mas o público em geral é composto por imbecis —, mas a ela perdoa-se porque “Gleaux”, editada este ano, é daquelas coisas estranhamente sexy que surgem quando menos esperamos. Apesar de Goldenheart me ter deixado um pouco de pé atrás (outros quinhentos) a seguir a isto o r&b nunca mais será o mesmo.



Olha, outra canção que tem a) os Daft Punk e b) o Pharrell Williams. E SOA BEM! Ainda hoje não percebo porque é que o Nothing foi tão espancado — espera, claro que percebo: foi o disco menos conseguido de um grupo que até então não havia sido menos do que óptimo. E agora percebem, como se eu não o tivesse explicado já, o meu ódio pela “Get Lucky”. Bem, não lhe chamaria ódio. Apenas indiferença total. Parece que fui o único que não foi hipnotizado pelo hype. (perceberam?).



Tenho a perfeita noção de que vou ser desancado por me atrever a pôr aqui uma canção dos Maroon 5 (sim, são merda), mas até esta malha é maior que a “Get Lucky”. Guitarra disco? Sim. 4/4? Sim. Gajo a cantar de forma efeminada? Sim. E faz mexer muito mais que o ennui do Pharrell no refrão — we're up aaalll niiight to get luuucky dito com a porra da voz mais desinteressada de sempre, como se o gajo não estivesse realmente pronto para sair e pitar numas damas e tudo isto fosse um enorme aborrecimento, quase tão grande como a música. Deixo-a na lista também para provar que até uma banda de merda é capaz de coisas interessantes, o que devia ser um aviso a todas as bandas consideradas “fixes” por quase toda a gente, por mais lixo que editem.

E é isto. Ainda podia ter posto mais umas quantas (a “My Feeling” de Junior Jack, a “How Deep Is Your Love” dos Rapture, até a porra da “Call Me Maybe”), mas optei por estas dez. Resumindo e concluindo, o modo como se tem elogiado a “Get Lucky” é imbecil. Não só não é nada que não se tenha ouvido já antes como soa desgraçadamente a jogada amorfa de marketing para que as pessoas salivem — algo que até em pleno 2013 o Timberlake e os Boards of Canada fizeram melhor.

A questão não é tanto vocês deixarem de ouvir a canção, é mais deixarem de entupir os ouvidos com todo e qualquer hype porque a avalanche atinge sempre pessoal inocente que gostaria de estar sossegado no seu canto sem ter que se sentir ofendido pela quantidade de parvoíces que se vão escrevendo. Mas sempre é uma desculpa para vos chamar de idiotas.

Que são.