Tecnologia

Visitámos o maior depósito de lixo electrónico do Mundo

Todos os anos, o Gana recebe 215 mil toneladas de equipamentos electrónicos usados, ​procedentes de países europeus e dos EUA.

Por Mari Shibata
19 Junho 2015, 7:31am

Todas as fotografias por Mari Shibata.

Este artigo foi originalmente publicado originalmente na nossa plataforma Motherboard.

Apesar de ser um dia quente de Verão, ver a luz do sol torna-se muito complicado por culpa da densa nuvem de fumo e poluição que paira sobre o maior aterro digital do Mundo. Este antigo pântano, nos arredores de Accra, Gana, é, aparentemente, o epicentro de uma rede ilegal de exportação onde vão parar os dispositivos electrónicos estragados e dispensáveis dos países ocidentais.

"Agbogbloshie não é um sítio agradável", explicou o taxista antes de levar-me até lá. "Chamamos-lhe Sodoma e Gomorra, as duas cidades condenadas da Bíblia. É um enorme aterro, onde as pessoas são forçadas a trabalhar enquanto respiram fumo e cheiro a lixo".

Mesmo tendo em conta o estipulado pela Convenção de Basileia, o tratado internacional que entrou em vigor em 1989 e que proíbe os países desenvolvidos de realizarem descargas de lixo electrónico não autorizado em países menos desenvolvidos, existe em Agbogbloshie muita procura de ouro e cobre, precisamente materiais existentes nos dispositivos antigos. O porto de Tema, a 32 quilómetros de distância, continua a receber anualmente 215 mil toneladas de equipamentos electrónicos usados procedentes de países europeus e dos EUA. Todo esse lixo acaba em aterros como o de Agbogbloshie e gera 129 mil toneladas de resíduos por ano.

Em Janeiro de 2013, as autoridades ganesas implementaram uma proibição sobre a importação de frigoríficos em segunda mão, por causa do perigo dos clorofluorcarbonos que contêm. Esta medida resultou na apreensão e desmantelamento de importações britânicas. No entanto, Agbogbloshie continua activo e alberga 40.000 trabalhadores, que ganham entre 1 e 2,50 dólares para realizar este duro trabalho.

Isto foi o que vimos.

Estes trabalhadores retiram as placas de circuitos de um monte de fotocopiadoras para recuperar os chips informáticos.

Os trabalhadores do maior depósito de lixo electrónico do Gana fazem uma pausa e, por um momento, deixam de extrair o cobre e os outros metais necessários dos aparelhos electrónicos. Famintos, depois de incinerarem uma montanha de computadores, fotocopiadoras, telefones e televisões abandonadas, comem bananas que foram enviadas pelas suas mulheres.

A maior parte dos trabalhadores de Agbogbloshie são homens do Norte do Gana que trabalham nesta lixeira entre três a cinco meses, depois voltam para casa durante um mês para depositarem as suas poupanças. Vivem muito perto do aterro e começam o dia às 5 da manhã, a hora da primeira oração, já que são muçulmanos.

Em vários pontos desta área existem espaços para rezar. Os tapetes de oração estão afastados do chão sujo e das poças de água misturada com chumbo, mercúrio, tálio, cianeto de hidrogénio, dioxinas e materiais ignífugos, gerados pela combustão dos desperdícios.

Não é raro encontrar crianças em idade escolar a trabalhar no aterro em vez de estarem a estudar.

Alguns trabalhadores, por vezes, levam as famílias, como estas duas meninas que passam o tempo à espera que o pai termine de trabalhar.

Agbogbloshie é, também, uma espécie de íman para os imigrantes da África Ocidental. As expectativas de que os fabricantes chineses e os da área comprem materiais, faz com que eles trabalhem recolhendo sucata para ganhar dinheiro.

Os imigrantes constroem barracões no próprio aterro com o que vão encontrando. Depois, seleccionam e ficam com os melhores materiais antes de que estes acabem nas mãos dos compradores.

Até as roupas que vestem vêm do aterro. Como não têm nenhum lugar onde as possam lavar, usam as mesmas roupas todos os dias.

Estes homens do Níger, do Burkina Faso, da Costa do Marfim e do Mali dominam um pouco de francês e falam hausa entre eles. O sentimento é generalizado: viver e trabalhar neste lugar, "não é justo" e todos acreditam que a "Europa seria um lugar melhor" para eles.

Apesar de sofrerem discriminação por parte dos ganeses da área, os imigrantes orgulham-se da sua força. Eles afirmam ser tão duros e fortes como as condições em que trabalham e vivem.

Muitos trabalhadores consomem marijuana para aliviar as dores de cabeça e as dores no peito provocadas pela exposição a substâncias químicas tóxicas. Outros sofrem de insónias.

Alguns preferem procurar latas e garrafas de plástico como alternativa à incineração de dispositivos electrónicos, para evitarem a inalação do fumo. Denominam-se de "limpadores" e usam longas garras de metal para facilitar a "caça ao tesouro".

Algumas crianças pesam os objectos recolhidos antes de os entregarem aos compradores (esquerda).

As mulheres raramente são envolvidas no trabalho de recolha e incineração e dedicam-se a dar de comer aos homens. Aquelas que participam lavam os bocados de plástico com água suja que vão buscar a um dos poucos poços da área.

Depois, os bocadinhos de plástico são secados e vendidos a compradores que os vão transformar em sacos.

Outra das actividades do aterro é a demolição de veículos. São usados maçaricos para fazer pequenos furos e extrair metais e outras peças pequenas que podem vir a ser vendidas.

O Rio Odaw forma fronteira entre o aterro e o bairro de Faduma, onde vivem 79.000 pessoas, constantemente expostas aos gases. Além disso, correm o risco de contrair malária por culpa dos mosquitos e de outros insectos que existem nesta área.

A ONU estima que se produzam cerca de 50 milhões de toneladas de lixo electrónico por ano em todo o Mundo. Independentemente da origem dos resíduos ou de como chegaram ao país, são muitas as pessoas cujos meios de subsistência dependem desta actividade.

As peças que não podem ser vendidas ficam no aterro, lado a lado com as montanhas de sucata que se vão acumulando neste lugar.