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Meu Primeiro Clube: DJ Marky

O mago brasileiro do drum and bass relembra da época em que ia a matinês só pra ver o DJ tocar.
Foto divulgação/Facebook

Tenho várias histórias [de clubes], mas a mais legal foi por volta de 1986, 1987 quando meus amigos na rua onde eu morava — no Cangaiba, bairro na Zona Leste de São Paulo —, falavam : "Meu, você toca muito, mas tem um cara que toca lá na Contra Mão que destrói".

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Eu devia ter uns 13, 14 anos, já sabia tocar (mas ainda não na noite), quando fui na Contra Mão no bairro do Tatuapé — e eu lembro como se fosse hoje que a minha rua inteira ia na Contra Mão. Eu era o meio nerd, meio estranho [da galera] e tinha que dar o sinal pro ônibus parar enquanto todos ficavam escondidos, isso porque íamos em 30, 40 pessoas, íam todos meus amigos do bairro. Eu dava o sinal e quando o ônibus parava vinha aquela banca (risos)

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Quando eu entrei na matinê da Contra Mão e vi o Ricardo Guedes tocar acho que foi um dos momentos mais marcantes que tive, porque na primeira mixagem que ele fez fiquei completamente alucinado, aí falei: "Quem é esse cara?", eu não conseguia nem dançar na festa. Eu ficava olhando o cara e lembro que ele usava um Rebook de cano alto que estava na capa do disco do Mantronix, que eu curto pra caramba — e naquela época era difícil arrumar o tênis e tal.

Eu fiquei louco com o Ricardo Guedes tocando e todas às vezes que ia [ao Contra Mão], ficava em cima da passarela porque dava pra ver a cabine do DJ e quais os discos ele levantava. Assim eu ficava vendo quais os discos ele ia tocar e foi quando eu percebi: "Eu quero tocar igual a esse cara… Não, não. Eu tenho que tocar igual ou melhor que esse cara".

Eu cito essa história porque meu carinho e minha dedicação nos toca-discos vem graças ao Ricardo Guedes. Eu ia todo domingo na Contra Mão, mas depois comecei a ir sexta, sábado e domingo só pra ver ele tocar, isso porque era algo muito valioso. O DJ era ídolo nessa época.

Lembro que tinha seleção de lenta [no clube], foi quando ele tocou "Lullaby" do The Cure no meio do baile. Essa música não é lenta, mas ao mesmo tempo é bem slow — eu acho o som mais puxado até pro hip-hop… Ele tocava muita coisa diferente. O Ricardo Guedes foi o primeiro a tocar Public Enemy na Zona Leste, por exemplo. O baile black não tocava, e ele já tocava. O mais legal, ele tocava várias músicas que eram um prótotico do que ia virar drum and bass e o estilo de música foi desenvolvendo. Tem uma música do Rebel MC, "Wikidest Sound", que ele foi o primeiro cara a tocar [em São Paulo]. Essa música é como se fosse um protótico da bass music, do jungle e do drum and bass. Isso foi marcante pra mim e toda vez que eu vou fazer um set de old school sempre toco essa música.

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Tanto que quando eu faço a [festa] Influences no Bar Secreto, meus amigos vão e eu toco músicas que os DJs não tocam mais — acho que esses DJs tocam múiscas mais fáceis. A música que eles tocam é carta marcada, que tem reação imediata, eu não gosto disso. Gosto de tocar uma música que já foi carta marcada e não é mais, e está no seu subconsciente. Esse é o grande barato de ser DJ e isso está se perdendo. Nessa minha noite [a Influences], quando eu toco algo mais eletrônico mais voltado pro hip-hop, house, acid house, do fim dos anos 1980, toco 90% do que o Ricardo Guedes tocava na Contra Mão. São as minhas referências.

* Relato dado a Carla Castellotti

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