
Veja o que vc pode fazer com isso…Era assim mesmo. Começava com letra minúscula e terminava em reticências que sugeriam problemas. Em agosto de 2009 recebi o e-mail acima do colega Robson – policial militar de Goiás – encaminhando uma outra mensagem que ele havia recebido através de nosso site, o Blogopol, comunidade de blogs mantidos por vários policiais do Brasil.A tal mensagem era um gigantesco texto sem parágrafos e com pontuação precária, quase aleatória, como alguém que dispara a falar sem interrupções (pensei ser um daqueles e-mails do tipo enlarge your penis, uma oração de mãe ou outro tipo de spam. Mas, poxa, tinha sido encaminhado pelo Robson, homem probo, de boa família, maçom, diretor do Lions Club e querido no Rotary, um cristão respeitado e que jamais se daria ao trabalho de repassar besteiras da internet. O texto merecia atenção). Quando bati os olhos, vi que uma grande merda estava prestes a transbordar na Secretaria de Segurança Pública paulista, fruto de uma puta cagada cometida por delegados da corregedoria.
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E o resto vocês conhecem. A despeito do escândalo, a escrivã foi demitida, o governo do Estado demonstrou o protocolar desconforto com a atuação de seus homens (e tudo seria investigado em um rigoroso inquérito blá blá blázzzZZZzzzz…). A mídia deu seus gritos histéricos, portais aumentaram o pagerank com a notícia, muitos internautas consideraram legítimo o crime cometido pelo delegado para desvendar o crime cometido pela escrivã.
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Vanessa Lopes: Meu concurso foi de 2001, eu estava com 19 anos.Muito nova.
Sim, muito nova.Qual foi a primeira delegacia onde você trabalhou?
Eu fui para o 77 DP, Santa Cecília, depois para o 4ºDP, próximo da rua Augusta.Como você foi parar no 25?
Tive algumas divergências com minha chefe no 4ºDP, e aí ela escolheu o distrito mais distante…Foi um bonde!
Foi um bonde. Eu tomei um bonde para o 25, quer dizer, do 77 para o 4º DP não chegou a ser um bonde.Ficou magoada com essa transferência compulsória?
Muito magoada. Mas na primeira semana trabalhando lá eu já me apaixonei. Ali, na periferia, é um lugar maravilhoso para qualquer pessoa trabalhar. Não tenho do que reclamar de Parelheiros.
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Sempre. Eu nunca quis ir para departamento. Minha paixão é plantão.Ave Maria.
Sério! Eu amava plantão. Daqueles bem zicados, com três, quatro flagrantes numa noite…Estranho, porque os plantões de distritos são considerados pelos policiais como a vala comum da instituição, um castigo, o lugar de quem não tem padrinhos para levá-los a um departamento.
É, mas nos plantões é onde se consegue fazer polícia de verdade.O que é ser polícia de verdade?
Atender a população… Ter mais contato com as pessoas.Essa relação da polícia com o público às vezes não estressava você?
Não. O que me estressava mais era o contato com os colegas.Você é a primeira pessoa que conheço que diz gostar de puxar plantão.
Adoro. Tanto que eu também puxava plantão para alguns colegas. Eles me pagavam para isso. Eu fazia o trabalho do cartório, também. Quando tinha correição na investigação, quem preparava tudo para os tiras era eu, e também ganhava por isso. Era meu bico.Já trabalhou na chefia?
Fiz plantão por metade da minha carreira. A outra metade eu fui da chefia.Como estava aquela manhã em que você foi revistada?
Um dia normal. Eu estava trabalhando normalmente, a corregedoria chegou logo após o almoço. Cheguei a ver no corredor aproximadamente oito pessoas, já correndo, com as armas apontadas para mim, gritando que eu estava presa.E os outros policiais do distrito, quando viram a correria, fizeram alguma coisa?
Ficaram tão assustados quanto eu. Ninguém sabia o que estava acontecendo.
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Eu soube posteriormente que eles já haviam ido lá outras duas vezes para tentar fazer um flagrante em mim.Que horas você foi para a cadeia?
No dia seguinte, de manhã, um pouquinho antes do almoço.Para o PPC [o presídio da polícia civil]?
Não. Na época o setor feminino ficava no 33 DP. Vila Mangalô.Você ficou em uma cela com mais quantas pessoas?
Mais uma menina. Uma carcereira.Ela disse por que estava presa?
Acho que era roubo. Contei minha história para todas as meninas e elas se comoveram bastante, mas até então não tinha sido veiculado pela mídia, ninguém sabia a gravidade do caso, porque só falando minha história parecia surreal.Quanto tempo você ficou presa?
Um mês. Nos primeiros dias eu já tentei me matar. Todas as internas tomavam remédios para dormir, aí arrecadei muitos deles, de vários tipos, e tomei uma dose bastante excessiva. Fui socorrida no Hospital de Perus. E depois, quando voltei, já estava um pouco mais conformada com a situação.Como esses remédios entravam na cadeia?
Com um médico. Nós vamos consultar com um médico no PPC e ele dá as receitas. Não dá para aguentar a cadeia sem remédio.O vídeo não foi anexado aos autos do seu processo administrativo, não é?
A história desse vídeo é meio complicada porque ele estava indisponível para os advogados.Você tinha visto ele?
Não. Ninguém conseguia ver o vídeo porque a Corregedoria estava, teoricamente, escondendo. Nós só conseguimos acesso depois que ele caiu na internet e na TV.
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Depois.Tem ideia de como esse vídeo foi parar nas mãos dos jornalistas?
Bem, ele apareceu primeiro no YouTube. E depois que cai lá é a mesma coisa que você abrir um travesseiro de penas no alto de um prédio. Você nunca mais vai conseguir juntar todas.Mas você já sabia da existência dele, antes mesmo de ir para o YouTube?
Sabia porque sempre que eu era transferida, ou precisava sair da carceragem para ir ao médico, os policiais que faziam minha escolta diziam que já me conheciam porque tinham visto o vídeo.Diziam em tom jocoso?
Não. Se diziam revoltados. Aliás, no mesmo dia em que eu fui presa e levada até o IML para o corpo de delito, os policiais dessa escolta me disseram que já tinham visto o vídeo. Em apenas poucas horas depois da gravação ele já corria pela polícia.Você era casada com um PM nessa época, não era?
Sim. Nosso mundo desabou, culminando com a separação depois de algum tempo.E o que você tem feito para ganhar a vida desde que foi exonerada?
Procurei empregos, mas com esse meu tipo de problema, dificilmente vou conseguir alguma coisa.Mas quando você se apresenta para a vaga a empresa sabe quem é você? Ligam você ao vídeo?
No principio, não. Meu currículo é interessante, a entrevista é interessante, mas depois, quando vêm as pesquisas do RH, acabam todas as possibilidades. Quando meu neném nasceu, o pai dele não me ajudava, foi aí que consegui um emprego, mas acabei tendo que sair depois.
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Moro com minha avó e ela me ajuda.Depois disso tudo, você teve contato com os delegados que te revistaram?
Vi o doutor Eduardo no fórum, em uma das audiências, mas não conversamos, e na corregedoria também, no procedimento que foi instaurado contra ele.O que aconteceu com ele?
Tomou apenas uma suspensão.No vídeo, é possível ver que, no momento, também estavam presentes algumas policiais femininas. Como elas se comportaram diante do que aconteceu com você?
A policial militar ficou extremamente constrangida. Ela me procurou depois para pedir desculpas, mas ela nunca teve culpa de nada, coitada. Já a GCM estava feliz, porque tínhamos algumas divergências. Mesmo assim, senti certo desconforto por parte delas, por causa das ordens que recebiam do delegado, um cara que não era chefe delas. Estavam ali para fazer um favor.Seu delegado titular da época estava por perto na ocasião. Ele interviu de alguma forma na diligência da Corregedoria?
Sim, ele chegou a bater boca com o doutor Eduardo. Achei até que iria ter algo mais grave entre eles. Mas o doutor Eduardo colocou todos os funcionários do 25 para fora da minha sala e fechou com chave.Vocês ficaram trancados na sala?
Sim. Eu, ele, outro delegado e mais dois investigadores.Durante seu processo administrativo você chegou a pedir ajuda para alguma ONG ou instituição?
Diversas. Procurei políticos, ONGs de direitos humanos, de defesa da mulher, muitas mesmo.
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O vídeo ainda não tinha aparecido e por isso ninguém acreditava em mim. Na cabeça dessas pessoas eu estava inventado a história para me livrar de algo. Ninguém sabia o que eu tinha passado ou sofrido.Quanto tempo demorou para você superar tudo isso?
Nunca mais. Eu sonho com aquilo até hoje. Minha liberdade nunca mais será a mesma. Talvez eu dê mais valor, mas o trauma fica, né?Vocês já ingressaram com a ação de reintegração?
Não. Como a sentença é recente, é melhor esperar mais um pouquinho.Você quer voltar para a polícia?
Quero. Muito.Você guarda rancor de alguém na polícia?
Principalmente do doutor Eduardo. E pode ter certeza de que ele será a primeira pessoa de quem irei atrás para mostrar minha funcional.Uma vez de volta à polícia, você não tem receio de trombar com as pessoas que te fizeram mal?
Não. É o contrário. Ele é que deveria ter medo de um dia me encontrar.Nós sabemos que a ocupação das funções na polícia depende exclusivamente do cenário político e da qualidade de seu padrinho. Por isso, ninguém fica para sempre em um departamento. Um dia você é policial da corregedoria e, no outro, muda o secretário, o delegado geral, um dia, quem sabe, o governador e, do nada, você pode cair…
Foi isso o que aconteceu com o ele [o delegado]. Eles caíram da corró e foram jogados para lá e para cá dentro da polícia porque ninguém os quis.Onde ele está hoje?
No 30 DP.Plantonista?
Sim.A mesma função que você fazia quando ele te prendeu.
É. As coisas giram muito na polícia.Nunca pensou em começar outra carreira?
Batalhei muito para isso. Não é justo que eu fique assim por causa de um canalha.Siga o Roger Franchini no Twitter - @franchiniVeja mais fotos e vídeos do Felipe Larozza aqui.