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Por Dentro da Epidemia de Uso de Anabolizantes na Grã-Bretanha

Mais de 1 milhão de pessoas usam esteroides ilicitamente no Reino Unido — alguns argumentam que, em certos casos, isso está ligado à dismorfia muscular ou “bigorexia”.
1.12.15

O especialista em anabolizantes Dave Crossland.

O uso de anabolizantes na Inglaterra está em ascensão. Mais de 1 milhão de pessoas usam esse tipo de droga ilicitamente no Reino Unido; além disso, em certas áreas, serviços de trocas de agulhas viram um aumento de 600% graças aos usuários de anabolizantes na última década. No entanto, mesmo conhecendo todos os estereótipos do usuário de bomba – comportamento agressivo, testículos encolhidos, bíceps gigantescos –, não sabemos muito sobre as consequências físicas e psicológicas concretas do abuso de anabolizantes.

Esteroides anabolizantes imitam os efeitos da testosterona, estimulando o crescimento de músculos e permitindo que o usuário malhe mais pesado e mais rápido. Mas essas drogas também podem ter efeitos sérios, que incluem pressão alta e problemas cardíacos, encolhimento dos testículos, disfunção erétil, esterilidade, libido baixa e agressividade. Além disso, nos jovens, anabolizantes podem prejudicar irreversivelmente o desenvolvimento do corpo e o crescimento.

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Entretanto, o que está levando ao aumento no uso dessas drogas? São várias razões, mas alguns argumentam que, em certos casos, isso está ligado à dismorfia muscular (ou "bigorexia", como isso é chamado nas manchetes do Reino Unido), o medo de ser pequeno demais e visto como fraco – quando a pessoa, na verdade, é grande e musculosa. Vigiando qualquer pequeno desvio de um certo ideal, a pessoa se preocupa com a aparência e os defeitos que só ela vê.

Segundo a Body Dysmorphic Disorder Foundation, a condição afeta um em cada dez homens que frequentam academias no Reino Unido.

O especialista em anabolizantes Dave Crossland diz que o uso de esteroides pode andar lado a lado com a dismorfia muscular. "O uso de anabolizantes pode aumentar problemas com a imagem do corpo", ele explica. "Se você melhora sua aparência e usou químicos para alcançar isso, é difícil voltar para um físico com o qual você não está feliz."

Crossland, 44 anos, experimentou os perigos dos anabolizantes em primeira mão. "Eu tinha 19 anos quando comecei a tomar. Eu achava que tinha ido o mais longe que podia naturalmente. Antes disso, eu era contra anabolizantes", ele me conta. "Aos 24 anos, desloquei o músculo do peito esquerdo e parei de malhar. Mas, quando fiz 38, comecei a usar anabolizantes novamente, e foi aí que vi como as pessoas não sabiam nada sobre isso e como o uso era generalizado."

Crossland usou anabolizantes por grande parte da vida e apenas seis meses atrás entrou num ciclo de doses pesadas de esteroides. "Peso 180 quilos. Estou 90 quilos acima do meu peso ideal. Provavelmente, sou um dos maiores caras da Inglaterra e talvez seja quem foi mais longe. Só que isso não significa que tenho a mesma qualidade de músculos que um fisiculturista profissional, mas tenho as mesmas dimensões físicas", ele explica. "Tenho 64 centímetros de braço. Faço de sete a oito refeições por dia. É o único jeito de manter minha massa. Tenho de me forçar a comer as duas últimas refeições do dia, enfiando a comida na boca e engolindo isso com água, porque esse é o único jeito de conseguir."

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Crossland revela que não é fácil viver com esse tamanho todo. "Isso controla tudo que faço. Não posso acordar de manhã e pensar 'Sabe de uma coisa? Foda-se'. Tenho de levantar às seis da manhã todo dia para comer", ele me conta. "Nos exames de sangue, meus níveis de sódio estão na média para uma pessoa normal, embora precise de três ou quatro vezes isso, e é assim com tudo que faço."

Com esse tamanho, Crossland diz que regras normais não se aplicam. "Não consigo entrar em carros. Não consigo entrar em ônibus. Não consigo entrar em aviões. Não vou caber no reservado do banheiro. Tenho de usar o de deficientes", ele reflete. "As pessoas gritam todo tipo de coisa para mim na rua. Elas tendem a te ver um pouco como uma propriedade pública: elas chegam e começam a cutucar e apertar meus braços. Você vira uma aberração de circo. As pessoas literalmente param na minha frente e tiram fotos quando estou comendo da minha Tupperware, porque acham isso muito estranho."

Uma investigação da Sky News descobriu que cerca de 1 milhão de pessoas usam anabolizantes ilicitamente na Inglaterra, porém Crossland acredita que o número é muito maior: "Eu diria que são 2 milhões. A maior parte das estatísticas vêm dos centros de troca de agulhas, embora só 30 ou 40% dos usuários de anabolizantes usem esses serviços".

Anabolizantes são drogas de classe C e só podem ser compradas com prescrição médica na Inglaterra. "Sei de um caso em que um traficante de anabolizantes pegou uma pena de dois anos. Você não consegue simplesmente entrar numa academia e comprar anabolizantes", explica Crossland. Então, segundo ele, muitos usuários acabam comprando as drogas pela internet. Mas não são apenas sites especializados que lidam com esteroides – uma boa porção dos traficantes opera atualmente pelo Facebook. "Não é difícil encontrá-los, esses caras colocam fotos de anabolizantes no perfil. Eles também têm grupos privados no Facebook nos quais você pode encomendar as drogas", ele me explica.

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A crescente onipresença desse tipo de droga significa que o espectro de crescimento é muito mais amplo do que se pode imaginar. "Uma área em que isso está crescendo e as pessoas não consideram é com homens bem estabelecidos, de 40 e poucos anos, que podem nem frequentar uma academia. Eles estão envelhecendo e a testosterona começa a cair; então, eles procuram isso online", destaca Crossland. "Você cruza com muita gente que não conta para o parceiro que está usando isso, e eles tentam achar desculpas para não estar indo bem na cama."

Crossland acredita que a representação dos homens na mídia teve um papel importante no crescimento rápido do uso de anabolizantes no Reino Unido. "Há uma pressão social enorme para ter uma certa aparência. Acho que os homens estão sofrendo mais com isso, pois é algo novo para eles. Acrescente a isso uma sociedade que procura uma pílula para resolver todo problema, aí você entende por que as pessoas estão se voltando para os esteroides", ele argumenta. "Mas por que chegamos a um ponto em que garotos de 17, 18 anos estão dispostos a correr esse risco só para ficar bem de camiseta? Isso não é para conseguir o recorde mundial. Eles não querem ser o número um do esporte. Eles são garotos normais que só querem ser aceitos socialmente."

Com histórias de meninos de até 13 anos usando anabolizantes, fica claro que isso não é mais o domínio de atletas de alto nível e fisiculturistas. A Public Health England admite que o uso dessas drogas é um problema crescente e está pressionando as autoridades locais para que elas ofereçam serviços de troca de agulhas e testes de saúde. A taxa de infecção por HIV em usuários de anabolizantes (1,5%) é tão grande quanto a dos usuários de heroína. E pior: os usuários não estão apenas aumentando as doses – estão usando isso por períodos cada vez mais longos. Antes, o mais comum eram ciclos de seis ou oito semanas injetando a droga; agora, é cada vez mais comum tomar isso o tempo todo.

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Gary Beeny, que trabalha numa clínica para viciados em anabolizantes em Ancoats, Manchester, diz que a maioria dos usuários de anabolizantes nunca sonharia em pisar numa clínica. "Para cada pessoa que vejo aqui, há muitos e muitos outros caras que nunca viriam por causa do estigma", ele explica. "Eles se sentem desconfortáveis em estar no mesmo ambiente que usuários de heroína e têm receio com a legalidade do uso."

Ainda assim, o número de usuários de anabolizantes procurando clínicas cresceu enormemente nas últimas duas décadas. "Nos anos 90, 5% dos nossos pacientes usavam anabolizantes; agora, cerca de 50% deles são usuários disso. É assim em todo o país", Beeny me diz. "Temos dois tipos de usuários: os fisiculturistas e os usuários que fazem isso por estética, que malham durante a semana e saem nas sextas e sábados. Um médico que conheci numa conferência chama esse grupo de 'guerreiros de final de semana'. Nos preocupamos mais com esse tipo, porque eles obviamente bebem e às vezes usam cocaína."

Como Crossland, Beeny também frisa que a dismorfia muscular tem um papel no aumento do uso de anabolizantes. "Você pode dizer para eles 'Seus braços são enormes', mas eles vão responder 'Não são grandes o suficiente – preciso malhar mais'. Essa é a exata descrição de dismorfia muscular", ele explica. "Se você está no caminho para ficar grande, não há um final para isso."

Além de uma imagem corporal distorcida, os sintomas da dismorfia muscular incluem malhar obsessivamente, dar prioridade aos exercícios em vez da família e dos amigos, adquirir transtornos alimentares, se olhar compulsivamente no espelho e usar anabolizantes. A combinação de fixação estética e perfeccionismo excessivo, dupla que caracteriza esse transtorno, pode causar depressão e ansiedade. Pouco é conhecido sobre a condição ainda, embora o NHS acredite que o transtorno pode ser genético ou causado por desequilíbrio químico no cérebro – e há chances de ele ser mais comum em pessoas que sofreram bullying ou abuso quando eram mais jovens.

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Uma pesquisa YouGov descobriu que 31% dos homens britânicos não estão felizes com sua imagem corporal; assim, não é surpresa que alguns se voltem para os anabolizantes como uma forma de ajudar a atingir seus objetivos mais rápido.

Mas não é preciso dizer que as razões por trás do consumo de esteroides são variadas e que, como acontece com qualquer outra coisa, suas causas são complexas. O que fica evidente é que o acesso cada vez maior a anabolizantes e a intensificação das pressões culturais em torno da imagem corporal significam que, o que antes era um segredo de comunidades fechadas de fisiculturistas, se tornou um estilo de vida para pessoas de todos os tipos.

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Tradução: Marina Schnoor.

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