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Uma Lista de Todos os Amigos que Você Tem na sua Vida Agora

Numa tentativa de injetar alguma positividade no nosso mundinho de merda, fizemos uma lista de todo mundo que é seu amigo – apesar de 60% deles serem pentelhos pacas.
26 May 2015, 2:30pm

AMIGOS, U-HÚ! (Todas as fotos por Robert Foster).

Um tempo atrás, compilei uma lista de todas as pessoas pentelhas que você tem no Facebook. Fiz isso pra você. Bom... numa tentativa de injetar alguma positividade no nosso mundinho, fiz agora uma lista de todo mundo que é seu amigo, ponto – apesar de 60% deles serem pentelhos pacas. E eles estão no seu Facebook também.

Nós, humanos, com nosso cérebro idiota de macaco, não conseguimos lidar com mais de 150 relacionamentos sociais estáveis – isso, de acordo com o antropólogo Robin Dunbar. Aqui está a ciência por trás do negócio. Pense assim: você simplesmente não consegue. Quem é seu melhor amigo? Cite mais dez amigos. É isso. Diga o nome de todos os seus amigos no Facebook. Não dá.

Sabe, amizade é um raio de luz no abismo negro da existência. É uma função natural básica: você está aprendendo a fazer isso desde criança. Não é muito louco? Dá próxima vez que você conhecer alguém novo numa festa e disser "Então... hum... é... o que você vai fazer no final de semana?", saiba que uma criança é melhor em se conectar instantaneamente do que você. Toda vez que você suar porque tem de fazer contato visual com alguém de quem não é íntimo, lembre-se de que qualquer moleque de cinco anos te supera nisso. Fazer amizade é fácil. Continuar amigo – com todas as malditas mensagens de texto, todos os check-ins, toda noite da sua vida reservada para ir a uma galeria de arte ou à feira de food truck: infinitas feiras de food truck, food truck atrás de food truck, cada um mais medíocre que o último – é a parte difícil.

Mas um dos verdadeiros prazeres de se ter amigos é categorizá-los ordenadamente em grupos. Seus melhores amigos! Seus amigos que saíram da categoria de melhores amigos, mas que ainda são bons amigos! Aquelas pessoas que você vê uma vez por ano e, na verdade, odeia! Amigos de todos os tamanhos, cores e credos. Amigos que só são seus amigos, porque têm carro, e às vezes você precisa de carona. Amigos que têm filhos e você nunca mais vê de novo.

Aqui vai uma lista de todos, todos os seus amigos.

MELHORES AMIGOS (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 1-5)

Tá. Você não precisa que eu fique aqui explicando o que é um melhor amigo. É o seu melhor amigo. Ele ou ela provavelmente está te mandando uma mensagem pelo WhatsApp neste instante. "Cara, lê essa lista da VICE, meu!", seu melhor amigo está dizendo. "Tudo errado. De novo! Odeio esse babaca!" Você e seu melhor amigo: unidos no amor, unidos no ódio, sempre em contato através de mensagem instantânea.

VELHOS AMIGOS (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 10)

Um velho amigo meu – e não tem um jeito bom de dizer isso – parece um Abujamra que morreu de choque anafilático por causa dos remédios pra calvície e, de algum jeito, na morte, ficou incrivelmente bombado. Essa é a melhor coisa dos velhos amigos: você pode dizer que eles parecem o fisiculturista Zumbi Nutkins, porque sabe exatamente onde ficam os limites deles, o exato parâmetro de humor da pessoa, exatamente o que você pode dizer antes de ele te dar um mata-leão de brincadeira ligeiramente muito apertado. É isso: se você não tem alguém na sua vida que pode confortavelmente chamar de "puto" na cara, você nunca teve nenhum amigo de verdade, teve? Você tem gente do Facebook que te chama pra festas só para completar o número de convidados.

Existe um nível de conforto sem paralelos com os velhos amigos que é como usar aquela camiseta cinza velha superconfortável. E a melhor parte é que é muito fácil manter contato com eles: de vez em quando, você manda uma mensagem mencionando aquela piada interna ou a história de quando vocês foram expulsos da balada, porque outro amigo abaixou as calças para mostrar as tatuagens da coxa prumas minas, e boom: seu amigômetro vai pro máximo.

Velhos amigos são as pedras sobre as quais você constrói seu castelo de amigos: as primeiras opções para padrinho e madrinha, eles lembram como você era gordo no colegial (gordo pacas), como o nariz do seu primeiro namorado ou namorada era estranho (estranho demais) e por que você tem medo do conceito de hanseníase. Você provavelmente se mijou num saco de dormir enquanto passava a noite na casa deles. Você devia ligar para eles agora.

Você também pode ser amigo de um cachorro.

NOVOS AMIGOS (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 20)

Ah, esses novos amigos com seus jeitos descolados! Esses dias inebriantes das novas amizades. É tipo namorar – namorar sem as ereções e sem entregar escondido aquele cupom de desconto para o garçom do restaurante. Vocês trocam mensagens: "Vamos sair de novo logo, cara!". Seus ex-novos amigos começam a mandar mensagens, cheios de inveja. "Vamos fazer compras!", diz seu novo amigo, e você acaba numa GAP vendo-o experimentar uma pilha calças cáqui. Harpas tocam. Os anjos cantam. Vocês vão ao fliperama e jogam Time Crisis. Ele te apresenta para os amigos dele. "Chega aí!", ele convida. "Festa na minha casa hoje!" E você fica enrolando na frente do espelho antes de sair: "Por que estou preocupado com o que vou vestir? Vou à casa de um amigo beber Smirnoff Ice. Por que passei 45 minutos arrumando meu cabelo? Estou louco". E aí você vê seu amigo na festa dançando com outra pessoa e sente um frio na barriga, coloca a edição comemorativa do filme favorito de vocês (S Club: Dose Dupla) numa mesa e sai correndo em lágrimas. Aí você pensa: "Espera, tenho de trocar uma palavrinha comigo mesmo aqui. Eu devia ser um adulto!". E aí você acaba colocando a pessoa numa das outras categorias de amizade. E o ciclo recomeça.

AMIGOS DE BALADA (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 5)

Ah, a frágil conexão humana entre dois amigos de balada. Você conhece um amigo de balada: você não sabe o sobrenome dele, mas ele está em 80% das suas selfies; você sabe o que ele pede no bar, mas não sabe onde ele trabalha; você já acordou na cama ou no sofá dele, pelado ou vomitado, em várias ocasiões. E, assim mesmo, você consegue se imaginar passando uma tarde de sábado com essa pessoa? Não. Na verdade, você já viu essa pessoa à luz do dia? Mas um dia você estará fazendo um teste de rotina meio embaraçoso e vai entregar o potinho de xixi (que, como você vai descobrir depois, está) extremamente infectado para... o seu amigo de balada; depois, vai olhar nos olhos obviamente sóbrios dele e para seu jaleco perfeitamente passado, e nenhum de vocês vai saber o que dizer. "Vejo você na Trackers sábado?" Mas algo se partiu ali, algo mudou. Você não pode mais dividir tequilas com alguém que segurou um pote do seu mijo ainda morno. Você não pode ver alguém fazendo twerk sabendo que essa pessoa trabalha num laboratório de exame de urina. "Não", você pensa enquanto pega um táxi pra casa. "Não posso ver essa pessoa nunca mais."

AMIGOS COLORIDOS (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 1-2)

Amigos coloridos são legais, porque você pode transar com eles, mas não tão legais, porque você não sabe quando vai ser estranho andar de mãos dadas ou tomar café da manhã juntos. Você pode andar de braço dado com a pessoa na rua? Sim, o sexo é explosivo, os orgasmos explodem no seu corpo como fogos de artifício, mas você não sabe se pode deixar uma escova de dentes na casa da pessoa para não ter de escovar os dentes com o dedo. É muito confuso, né? Por um lado, você está mandando ver. Você está transando tão deliciosamente que nem é mais divertido. Por outro lado, cáries são um saco. Talvez seja hora de vocês terem uma conversa.

AMIGOS DE SHOW (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 3)

"Você vai ao show?", é a mensagem dele. Você recebe essa mensagem de seis em seis meses, como um relógio. "Vai ter show. Você vai?" E você diz sim para esse amigo, porque quer ir ao show – pode ser Arcade Fire ou uma dessas bandas que você curte, você sabe quais –, e aí a dança da logística começa. "Comprei dois ingressos, você deposita o dinheiro pra mim?" Você pergunta quanto foi, e ele diz o valor. Dá pra pagar por PayPal? Não, porque estamos em 2015, mas a pessoa nunca comprou nada pela internet na vida. Você entra no site do banco. Transfere o dinheiro. Você não vai ver a pessoa por seis meses até o show. Você esquece o show, é isso que acontece. Porque esse não é um amigo regular: é um amigo de show. Na verdade, você não lembra onde conheceu essa pessoa e não consegue imaginar uma oportunidade de apresentá-lo para o seu grupo de amigos; então, ela fica de canto, pairando no tempo como uma música do Arcade Fire. Você usa uma camiseta da banda no show. Ele, não. Você acha um bar perto do lugar do show, e vocês tomam uma cerveja antes dele – em silêncio. Seu amigo de show pergunta: "Viu algum show ultimamente?". Você admite que não. Ele parece desapontado. Você não lê o Pitchfork com a frequência que ele lê o Pitchfork. Você não lê o blog de música popular jovem Noisey. Ou o Thump, que também é um site. "Então", pergunta seu amigo de show, "o que você tem feito ultimamente?".

Isso já aconteceu com você? Você conhece alguém tão focado numa coisa só? O tipo de pessoa que acha que comprar discos de vinil é ter personalidade? Isso já aconteceu com alguém que você compartilha o menor fiapo de realidade? Já aconteceu de você não conseguir responder à pergunta "O que você andou fazendo nos últimos seis meses?"? Seu cérebro congela. Você teve medo de que sua namorada estivesse grávida. Você mudou de apartamento. Você amputou as duas pernas por causa daquele acidente de moto, lembra? E você olha pra essa pessoa na sua frente e fala: "Ah, nada demais". Ela não menciona suas próteses. Você não fala de todas aquelas horas de fisioterapia. Todos aqueles primeiros passos difíceis sobre os ossos esmagados do seu passado. É melhor vocês já irem entrando na fila, sabe como são essas coisas. E vocês entram na fila, ficam olhando para os celulares, pagam caro na bebida dentro do show, dançam sem emoção, se separam a fim de voltar para casa, mesmo morando na mesma direção – e você dá meia-volta depois de 25 minutos, quando tem certeza de que a barra está limpa, esperando ficar longe dele por mais seis meses. Até ele mandar uma mensagem sobre o show do Sad Boys.

O AMIGO QUE NÃO ENTENDE O SISTEMA DE RODADAS DO BAR, MESMO SENDO O CONCEITO MAIS BÁSICO DA EXISTÊNCIA HUMANA (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 1)

"O quê?", ele pergunta, voltando do bar com uma garrafa de cerveja e o troco na mão. "O quê? Vocês queriam também?". Essas pessoas sempre se chamam "Bruno". Sempre. "É, Bruno", você afirma, apontando para os copos vazios. "A gente obviamente queria, porra!" E ele dá meia-volta: revirando os olhos, faz aquele movimento "Beleza, vou lá buscar mais cerveja, porra" com os braços – mesmo que seja tudo culpa dele, mesmo essa sendo a convenção social mais básica do mundo, que ele estragou voltando com uma cerveja. Tipo: qualquer um consegue pagar uma rodada – e secretamente, na sua cabeça, você o risca dos seus 150 principais amigos. Quando ele volta, ele não divide o amendoim.

O AMIGO QUE CONFUNDE AMIZADE VERDADEIRA COM HOTEL (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 5)

"E aí?", é a mensagem da pessoa. "Vou estar em [A CIDADE ONDE VOCÊ MORA] semana que vem. Posso ficar na sua casa?" E você, que é jovem, ingênuo e nunca foi magoado antes, responde: "Sim, isso não vai ser nem um pouco inconveniente pra mim". Só que o cérebro de gente que não paga por acomodação quando viaja faz a pessoa tomar um banho de 45 minutos na hora mais inconveniente possível para você. Ela diz algo do tipo "Comi todo o salame que estava na geladeira. Era da casa, né?". E você – que ficou 90 minutos preso no ônibus por causa do trânsito, que teve um dia de merda no trabalho, que tomou chuva e que só queria fazer um sanduíche de salame quando chegasse em casa e não acha porra nenhuma na geladeira – responde: "Não, tudo bem". E você vai fazer um chá, mas seu amigo diz "Ah, fiz um monte de chá hoje". Tem uma pilha de saquinhos de chá na sua superfície de trabalho, do lado. Só tem aquele pouquinho de leite na caixa, aquele pouquinho que a pessoa deixa para tentar te enganar que ela não tomou o leite todo. "Eu tomei todo o chá que você tinha. A gente vai sair hoje? Aonde você vai me levar?" E você – em silêncio, no começo – pensa: "Sou a única pessoa que sabe que ele está aqui. Eu podia estrangular esse pentelho, e ninguém ia saber".

O AMIGO QUE SABE COZINHAR (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 5)

Ei, um conselho de um cara mais velho que está espiralando em direção ao abismo da morte: se um dos seus amigos sabe cozinhar, nunca o deixe escapar. Porque é assim que você decide se gosta de alguém e quer andar com essa pessoa – em diferentes idades:

0-13: Sua mãe te faz ser amigo dele;
13-15: A pessoa é socialmente adaptada e fuma. Você quer ser amigo dessa pessoa, porque você é nerd;
15-18: A pessoa é socialmente adaptada e bebe. Você quer ser amigo dela, porque também gosta de beber;
19-25: A pessoa conhece uma ou mais pessoas com quem você quer transar; além disso, há 40% de chances de ela ter drogas;
25+: A pessoa sabe fazer torta.

Meu Deus do céu, você não sabe a verdadeira alegria de se chegar à casa de alguém e a pessoa ter feito torta para vocês. Você sabe o trabalho que dá fazer uma torta? Você tem de juntar a manteiga com a farinha com uma colher gelada. Tem de cozinhar uma panela inteira só para fazer o recheio. Você tem de usar um pau de macarrão para abrir a massa. Você tem de comprar uma forma especial de torta. Alguém já fez uma torta pra você? É um negócio que leva o dia inteiro. E aí a pessoa coloca um pedação de torta na sua frente e diz "Bom apetite", sei lá. Você bebe todo o vinho que trouxe e pergunta: "Qual a situação da torta? Tem mais torta?". Depois de 45 minutos, você pensa: "Bom, hora de ir pra casa". Tenho de fazer um estrago na privada com essa torta. Fato: o gosto de torta melhora conforme você envelhece. Se algum amigo se oferecer para cozinhar qualquer coisa para você – um assado, torta, um pãozinho que seja –, segure firme essa pessoa e não solte nunca mais.

AMIGOS DA FACULDADE (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 20-25)

"Lembra como a gente se divertia?", a pessoa questiona depois de umas cervejas. "Sim", você responde. "Lembro-me daquela vez que a gente se divertiu." "Ha-ha", a pessoa devolve. "Ah, você tem visto o [AMIGO MÚTUO] ultimamente?" Não, você não tem visto. "E a [AMIGA MÚTUA]?" Não. "Você soube que o [AMIGO MÚTUO] teve filho?" Você soube, mas não dá a mínima. "Lembra como a gente se divertia?" Mas você não se lembra. Essa diversão é uma memória distante, se apagando na névoa do passado. A diversão no seu passado é a Terra, e você está acelerando pelo espaço em direção a Vênus. Você se divertiu desde então e vai se divertir mais até que essa diversão apague o ponto alto de diversão que você teve antes. Você não precisa se lembrar daquele corte de cabelo escroto que você teve e de todo o miojo que você comeu na faculdade. Você não precisa se lembrar da vez que o intercambista ameaçou todo mundo com uma faca, porque a situação da louça suja ficou insuportável. Isso é algo que você quer esquecer, na verdade. E você se vê flutuando para longe na brisa do céu noturno – para longe das suas memórias e para longe do passado, para longe daquela noite em que vocês compraram vodca vagabunda, quando você acabou caindo e cortando a mão num mictório quebrado, chorando. E, sim, você estava chorando desconsoladamente por causa da sua mão cortada e gritando "SERÁ QUE EU PEGUEI AIDS?"; gritando "PEGUEI AIDS DE MIJO!", você segurava sua frágil mão ensanguentada para um estudante de medicina cujo nome você esqueceu. Você não pegou AIDS. E aí uma voz à sua frente soa, te arrancando do buraco da memória onde você caiu. "Nossa, a gente devia voltar lá um dia desses. Pelos velhos tempos." E você olha para as rugas no rosto da pessoa, para o corte de cabelo adulto dela, e nota aquela ideia triste por trás dos olhos dela. "Ainda pareço ter 21, né?" E você chega no ouvido dela e sussurra: "Não".

AQUELE AMIGO COM QUEM VOCÊ VIVE FAZENDO PLANOS, MAS QUE SEMPRE CANCELA E VOCÊ FICA IMAGINANDO COMO ELE CONSEGUE FAZER QUALQUER COISA NA VIDA: COMO ELE CONSEGUE MANTER UM EMPREGO, O QUE ELE PODE ESTAR FAZENDO EM CADA SEGUNDO DA VIDA QUE NÃO PODE SAIR PARA TOMAR UMA CERVEJA QUE SEJA – PELO AMOR DE DEUS (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 2)

Quer dizer, Jesus Cristo, parece que eu sou o número 149 na sua lista de 150 amigos. Pare de fingir que gosta o suficiente de mim para passar uma hora inteira na minha companhia.

AMIGOS DE QUE VOCÊ NÃO GOSTA MUITO (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 1-5)

Um dia, você vai perceber: você nunca esteve sozinho numa sala com essa pessoa, mesmo ela estando sempre ali, na periferia da sua visão, há anos. Você sempre vê essa pessoa em festas. Sempre sorrindo e entrando nas conversas. E aí, um dia, todo mundo sai para fumar ou vai embora, e só sobram vocês dois, numa sala, com uma música de fundo. E, de repente – e você não tinha percebido antes –, de repente, você não gosta dessa pessoa. Porque você não sabe nada dela. E aí você olha nos olhos dela (olhos profundos, familiares) e esquece como se fazer amizade. É muito tarde para fazer amizade. Você faz um som tipo: "Ééééééé?". A pessoa olha para você. Você olha para a pessoa. Vocês não se gostam, mas ainda assim são amigos. Você tem pelo menos cinco desses amigos, talvez até dez. Se você não tem um amigo desses, você é esse amigo de alguém.

AMIGOS RICOS (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 1)

O amigo rico pronuncia coisas como: "Foda-se, vamos pegar um táxi. Não vou ficar esperando a porcaria do ônibus"; "Jesus, este bar tem cheiro de balde cheio de merda morna. Vamos a um bar de champanhe"; Mas, às vezes, esse amigo some por um bom tempo com outras pessoas de pedigree que nunca, nunca vão transar com você, e você está sozinho numa festa onde todo mundo está usando terno e máscaras estranhas, até que um garçom vem e te entrega uma conta: a conta é servida numa bandeja de prata. Você imagina quão caro isso vai sair. E aí você tem de ficar lá fora pegando chuva, no celular, implorando pro seu banco aumentar o limite do cartão de crédito para que você possa pagar aqueles bellinis de pêssego que custaram 130 paus cada, enquanto seu amigo rico está fazendo sexo rico em travesseiros que custam mais que a sua casa.

AMIGO IDIOTA (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 1-2)

"EI, EI, EI", balbucia seu amigo idiota. Você está equilibrando seis copos de cerveja nas duas mãos. "EI, EI, EI, EI, EI, EI", ele pausa e olha pra você. "Você está com calor?", ele solta. Você ainda está segurando os copos. "Com calor, calor, calor." E grita "EEIII!" de novo e vira os copos na sua cara. São 20 minutos até você conseguir ser servido de novo no bar. Três pessoas perguntam se você se mijou. "Você acha mesmo", você responde, "que alguém mija seis copos de cerveja de uma vez?" Eles olham para sua roupa. "Você acha mesmo que eu mijo pra cima e pra baixo ao mesmo tempo? Você acha mesmo que eu estava balançando meu pinto freneticamente para conseguir fazer isso?" Quando você volta à mesa, seus amigos foram expulsos do bar porque entraram com uma garrafa de Jägermeister escondida e estavam misturando isso na cerveja antes de beber. Ah, amigos idiotas: pura diversão.

O AMIGO QUE SEMPRE TEM VÁRIAS ESTANTES PARA MUDAR DE UM LADO PARA O OUTRO DO APARTAMENTO, OU PARA FORA DO APARTAMENTO, OU, EM CASOS MAIS RAROS, DA CASA DE UM VENDEDOR DE MADEIRA PARA A CASA DELE. E APARENTEMENTE VOCÊ É A ÚNICA PESSOA FISICAMENTE CAPAZ DE AJUDAR ESSA PESSOA – ESSE AMIGO É MEIO SOLITÁRIO. E VOCÊ SE VÊ, A CADA SEIS MESES, MANOBRANDO UMA ESTANTE NUMA ESCADA, PENSANDO: "QUANTAS MALDITAS ESTANTES UMA PESSOA PRECISA TER? JESUS, QUANTAS PILHAS DE REVISTAS E QUANTOS MINICACTUS UMA PESSOA PRECISA ESTOCAR VERTICALMENTE?" (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 1)

Uma carreta custa uns 100 contos e não requer um pretexto falso de amizade.

O AMIGO DA CONVERSA SÉRIA ÀS 5 DA MANHÃ (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 1-5)

Por alguma razão, você acaba sentado com essa pessoa na área de fumantes de uma festa na casa de alguém às 5 da manhã, agachado do jeito que as mães dizem que causa hemorroidas, os dois com os braços em volta dos joelhos, e ele pergunta algo inócuo como "E aí, como você está? Faz anos que a gente não se vê". E você fica todo sério e começa a falar sobre aquele acidente em que você perdeu as pernas, como você não consegue mais dormir sem ouvir um ronco de moto na sua cabeça, como você sente saudades da sensação de usar chinelo – e a pessoa só concorda com a cabeça e diz "Ã-hã", "Sei". Aí ele diz "Ei, cara...", te dá um abraço estranho com um braço só, você vai embora – com suas pernas de robô, lembra? –, o sol nasce, os pássaros se juntam num bando no céu e você pensa: "Espera. Nem sei o nome daquele puto".

Alguns amigos não vão gostar de você.

AMIGOS DURÕES (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 1-3)

Amigos durões, você pensa, são bons, porque olha só pra você. É um milagre que você não apanhe na rua mais vezes. Você precisa de amigos durões da próxima vez que alguém jogar suas opiniões ruins na sua cara ou da próxima vez que você julgar mal o clima de um bar e anunciar "É aqui que vamos beber". Mas os amigos durões de verdade têm uma certa fragilidade – e, antes que eles morram por sua causa, você tem de mostrar que é realmente amigo deles. Tipo... sim: eles podem estar preparados para dar uma garrafada em alguém a qualquer minuto do dia, mas você precisa se encontrar com eles no mínimo uma vez por semana antes que eles voltem essa brutalidade deslocada contra você. Uma vez, passei uma hora encurralado num canto de um bar por um cara de 1,90 metro, que eu só tinha encontrado duas vezes na vida, quase chorando, porque eu não o aceitava como amigo no Facebook. Se eu tivesse dito "Te odeio, cara, você parece um camarão gigante", ele teria soluçado. Valia a pena a proteção de tê-lo por perto? Não. Tive de lidar com um monte de solicitações do Farmville e atualizações irritadas sobre estacionamento no centro da cidade ("Não existe tanta gente deficiente física assim!")? Sim. A vida é uma questão de dar e receber, e amigos durões raramente valem o empurra-empurra. E mais: é muito mais provável, sem razão nenhuma, que ele pise na sua cabeça.

AMIGOS DO TRABALHO (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 10-15)

Tem essa coisa com os "amigos do trabalho" – e eu não sei, porque trabalho na VICE, e todo mundo me fala "Não, a gente não vai ao bar juntos. Não, a gente não sai escondido para beber e rir pelas suas costas. Ninguém é amigo aqui, Joel. Vai pra casa" –, mas a coisa com esses amigos é que isso é um espectro cinza, que vai do "alguém que você cumprimenta com a cabeça no corredor" e da "pessoa com quem você acha que falou na festa da firma e então tem de conversar na cozinha, enquanto a água do café esquenta" até "aquela pessoa que você até acha legal". É difícil, porque há sempre aquela dúvida na sua cabeça: "Eu realmente gosto dessa pessoa? Ou estou desesperado por calor humano e alguém com quem almoçar?". Você não sabe dizer. Vocês são amigos? Ou só odeiam a mesma impressora? Você não sabe. Nunca vai saber. Amigos do trabalho: a dúvida que nunca vai embora.

Balada! Com! Os! Amigos!

AMIGOS DO SEU NAMORADO OU NAMORADA (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 5-10)

Os esportes foram inventados para os namorados terem algo para falar com os amigos homens da sua nova namorada. É pra isso que servem os esportes. "E o jogo, hein?", todo homem já disse em algum momento da vida olhando para a tela de uma TV no canto de um bar lotado, enquanto o outro cara assiste a um jogo do campeonato europeu mascando chiclete. "É", o outro homem vai devolver. "Foda." E sua namorada nova vai destacar: "Não acredito como vocês se deram bem!" E depois ela vai sugerir: "Vocês deviam ficar amigos!" E depois, quando vocês estiverem sozinhos, depois do sexo, ela vai informar: "O Fera quer que você seja o padrinho dele". E você questiona "O Fera?", e ela diz "Sim", e você insiste "SÉRIO?", e ela frisa "Sim, ele não tem nenhum outro amigo", e você percebe que foi usado. Vocês não estão realmente apaixonados: você só foi seduzido para ser o padrinho desse cara porque a namorada dele é a melhor amiga da sua namorada. E você fica preso com ele pro resto da vida. E, no discurso de padrinho, você diz: "Se tem uma coisa que eu sei sobre o Fera, é que curte muito futebol!". E volta ao seu lugar e se senta de novo; depois, o pai dele aperta sua mão e relata que foi o melhor discurso que ele já ouviu.

Para as garotas, é diferente. Tudo de que uma mina precisa para aderir a um grupo de caras é beber uma cerveja rapidamente e arrotar. O ponto é: homens são basicamente chimpanzés e beber cerveja é nossa versão de se cheirar bundas. Mas é um negócio que todas as novas namoradas têm de passar.

A camada de amigos que são amigos da sua namorada ou namorado é mutável: quando termina um relacionamento, você perde 30 amigos num instante. Mas sempre vai existir um homem silencioso chamado Fera – o tipo de cara que "não gosta de mexer no celular"; ou seja, que te liga sempre que está entediado. Ele sempre vai ser seu amigo: ele nunca vai sumir, nunca. Ele estará esperando na frente da sua casa e vai perguntar o que você vai fazer no sábado. Ele está sempre lá – sempre que você olhar, todos os dias, para sempre.

AQUELE AMIGO QUE ACHA QUE A ACADEMIA É UM LUGAR ACEITÁVEL PARA SAIR COM OS AMIGOS (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 1)

12:43:03: e aí? Quer fazer alguma coisa hj?
12:43:47: sim, parece legal
12:43:47: ok, legal. Me encontra na Fitness 1st daqui a um minuto
12:43:59: q?
12:44:00: é. É legal levantar peso e conversar com aquela voz de quem está fazendo força. Vou correr literalmente 20 km na esteira, enquanto você senta numa máquina de remo, bebendo água naquelas garrafinhas de apertar e suando como um cachorro moribundo
12:44:21: você já ouviu falar de bar? Já ouviu falar de café?
12:44:22: cara, estou na frente da sua casa! Mesmo morando a 45 minutos de carro daqui! Estou usando um colete
12:44:37: por favor
12:44:38: te comprei um shake de proteína! A gente vai curtir muito hoje puxando ferro e suando! 12:44:48: não pfvr

AMIGOS QUE VIVEM BRIGADOS COM VOCÊ, GERALMENTE PORQUE A VIDA DELES É MUITO CHATA (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 5)

Você está numa situação social (numa festa, sabe? Uma reunião grande num bar, esperando do lado de fora o alarme de incêndio parar de tocar) e vê alguém lá longe; a pessoa te dá um sorrisinho minúsculo e volta a falar com quem estava falando antes. Você sacou o que aconteceu aqui? Essa pessoa está bolada com você. E sempre vai estar – por qualquer coisinha em vez de uma razão real. Você se esqueceu de dar os parabéns pra ela no Facebook, mesmo tendo dito pessoalmente. Você não convidou a pessoa para alguma coisa. Você disse que a avó dela era "uma vaca velha fedida" e que os biscoitos que ela faz são "uma bosta". Esse tipo de coisa.

Eu tenho a seguinte teoria: cinco pessoas estão boladas comigo – constantemente. Essas pessoas mudam: alguém está bolado, mas a raiva passa, porque nunca foi baseada em nada importante; aí outra pessoa fica bolada. É como um cano de esgoto, um fluxo constante de raiva. Cocôs fluindo para o mar. Essa é minha teoria; se você não gostou, pode entrar pra esses cinco.

TODOS OS SEUS OUTROS AMIGOS (NÚMERO DELES NA SUA VIDA: 14. CONVENIENTEMENTE, O NÚMERO DE AMIGOS DE QUE EU PRECISAVA PARA FECHAR 150, COMPLETANDO O CONCEITO DA LISTA TODA)

Ah, você conhece esses. Eles fazem aquele negócio, sabe? Aquela coisa de que você não gosta. Urgh, né? Eles são os piores.

@joelgolby

Tradução: Marina Schnoor