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Minha Semana com Sydney

Como a Sydney Leathers, a garota costumava trocar mensagens sexuais com o congressista norte-americano Anthony Weiner, foi na minha formatura e me ensinou a paquerar os caras no Grindr.
19.1.15

"Adeus, minha cidade!"

Em Nova York, empresários e moleques ricos de 16 anos que se acham gângsteres vivem gritando essas palavras – mas, dessa vez, era uma garota de 24 anos gritando, e essa garota era Sydney Leathers, a notória ex-amante de Anthony Weiner, que acabou com sua campanha para prefeito quando vazaram mensagens eróticas que eles tinham trocado.

Em maio do ano passado, eu estava num trem com Sydney que ia da cidade de Nova York a Bronxville, Nova York. Ela tinha vindo de Indiana para ir à minha formatura na Sarah Lawrence College.

Quando me matriculei na Sarah Lawrence, nunca imaginei que a ex-amante de um político iria comparecer à minha formatura na mais cara universidade lésbica e liberal de Artes. Achei que meus pais viriam e me aplaudiriam quando eu cruzasse o palco. Mas aí, em janeiro, tudo mudou. Depois de anos brigando, achei que não tinha outra escolha a não ser me afastar temporariamente da minha mãe. Foi uma escolha minha, e acho que minha mãe não iria à minha formatura mesmo. Não fiquei feliz com a situação, mas, na época, isso parecia a coisa certa a fazer.

Por volta da mesma época, falei com a Sydney por Skype sobre sua tentativa fracassada de leiloar seus grandes lábios retirados numa labioplastia. Quando ela viu meu tuíte dizendo que nenhum membro da minha família viria para minha formatura, ela entrou em contato e disse para eu não me preocupar. Ela iria à minha formatura e seria minha "nova mamys".

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Sydney frisou que me entendia, porque sempre teve uma relação difícil com a mãe, Laura Leathers. (Sim, esse é o nome verdadeiro dela.) Graças a uma infância traumática, hoje ela sofre de transtorno de estresse pós-traumático. Sydney não quis comentar o que passou, mas falou: "Minha mãe colocou meu irmão mais velho e eu num concurso de beleza, mas não meu irmão do meio. Quão escroto é isso? Agora olhe pra mim! Sou a JonBenét Ramsey adulta".

Impulsivamente, convidei Sydney para ficar na minha casa por uma semana.

Muitos dos meus amigos me chamaram de louco por convidar uma estranha – ainda mais uma estranha mais conhecida por trocar mensagens eróticas com um político e tentar vender seus grandes lábios – para ficar comigo por uma semana. Mas ter de parar de falar com a minha mãe também parecia insano; então, morar com a Sydney era uma grande ideia para mim.

Quando chegou ao meu apartamento no Brooklyn tarde da noite, Sydney lutava para arrastar sua mala enorme atrás dela. Ela me contou que tinha pagado centenas de dólares por um táxi do JFK para Bushwick.

"O cara te enrolou!", eu afirmei.

Ela xingou, mas não pareceu surpresa. Sydney sabe que é, ao mesmo tempo, uma alma experiente e muito ingênua.

Algumas semanas antes do Weinergate, Sydney viajou para o Texas para participar de comícios de apoio a Wendy Davis. Ela era originalmente conhecida na internet por seu blog de política, lido por alguns jogadores importantes de Washington. (Para provar isso, ela concordou em me mostrar conversas antigas que teve com figuras de DC que liam seu blog desde que eu prometesse não publicar nomes.) Sydney contou que amava política porque achava que os políticos queriam ajudar os pobres: "Eu era ingênua mesmo."

Hoje, Sydney se cerca de poucos conhecidos políticos. Na segunda noite, ela me levou a um Outback para conhecer alguns de seus amigos de Nova York: Greg, um comediante; o cantor Adam Barta; CrackDoubt, uma garota que Sydney conheceu numa convenção pornô; e um cara feminino que CrackDoubt jurava que era hétero.

Quando Sydney conheceu CrackDoubt, ela vendia brinquedos eróticos. Mas, agora, CrackDoubt trabalha como cam girl. Por cima de uma Bloomin' Onion e entre tragadas de seu vaporizador, ela pediu a Sydney para ajudá-la a montar sua tabela de preços. Ela a ajudou a concertar seu sistema de pagamento e contou sobre a primeira vez em que teve uma ejaculação feminina durante o sexo: "A primeira vez em que ejaculei, ejaculei sangue. Claro que isso aconteceu em Baltimore".

As histórias da Sydney me deixaram confortável; então, contei sobre um caso que eu tinha tido recentemente.

"Você engoliu?", perguntou Sydney.

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"Não engulo."

Sydney começou a gritar.

"Eu engulo quando chupo alguém que amo", eu disse.

"Você não precisa de amor para engolir porra!"

De algum jeito, essa discussão levou à TanMom. "Ela não tinha uma música?", perguntou Greg. "'It's Tan Mom Bitch'?"

"Comigo!", Barta gritou, se gabando de ter gravado uma música com a Tan Mom como se ele fosse a Mariah Carey e a Tan Mom, a Nicki Minaj.

Barta e Sydney têm a mesma empresária, Gina Rodriguez, especializada em fazer subcelebridades como eles serem famosos por mais de 15 minutos. Naquela noite, Gina tinha agendado uma participação num talk show para Sydney em Nova York. O talk show ia botar Sydney para discutir com um de seus amigos que não tinha gostado das plásticas que ela fez depois do Weinergate. Nenhum dos amigos de Sydney odiava suas cirurgias; então, ela tinha de arranjar alguém que se passasse por amigo. CrackDoubt se voluntariou para falar que ela estava um lixo.

Sydney sabe como são essas coisas. Durante sua estada em Nova York, ela discutiu abertamente sua experiência com a pobreza. "Nunca fomos sem-teto, mas minha mãe teve vários relacionamentos quando eu era mais nova e nós nos mudamos bastante. E meu pai trabalhava muito, mas só ganhava US$ 35 mil por ano", ela relatou.

No Outback, ela disse que aceitava participar desse tipo de coisa, porque esse é o único trabalho que aparece para uma garota lidando com um problema muito maior que uma letra escarlate – grandes lábios escarlates.

Na manhã seguinte, Sydney levantou e foi à varanda fumar um cigarro. Vê-la sem maquiagem me chocou. Mesmo na era do TMZ, raramente vemos celebridades, mesmo Jennifer Lawrence ou a Octomom, de cara lavada.

"Tenho uma sex tape, mas não gosto que as pessoas saibam que fumo", ela gemeu quando me viu fazendo anotações sobre os cigarros.

Antes de se maquiar, Sydney quis pintar minhas unhas e brincar de me vestir com máscaras de pombo e cavalo que ela tinha na mala. Ela agarrou minha mão e começou a passar esmalte confete nas minhas unhas.

Ela colocou uma máscara transparente na minha cara e disse que estava me fazendo "unhas disco".

Enquanto Sydney se arrumava para aparecer no VH1, ela recebeu uma ligação de Gina Rodriguez. A conversa passou para CrackDoubt, mas acabou decidido que eles usariam um amigo de Barta que ela não conhecia. Imediatamente, Sydney começou a pensar em maneiras hipotéticas de fazer a amizade parecer legítima. "Podemos dizer que nos conhecemos há dois anos", ela comentou com Gina. "Nos conhecemos pelo Brian, apesar de eu não saber quem é o Brian."

Sydney tinha pouco tempo para se arrumar para o programa no VH1 e suspirou enquanto colava rapidamente seus cílios postiços. "Você tem sorte de não precisar usar cílios postiços, Mitchell. Você é um puto muito bonito", ela afirmou. "A coisa mais importante que aprendi neste ano foi como colocar cílios postiços." Ela só não percebeu que não precisava deles.

Sydney não brilha como uma celebridade do porte de Marilyn Monroe, mas emite o mesmo carisma de Joyce McKinney, que se tornou uma figura da mídia britânica em 1977 quando as autoridades a acusaram de sequestrar um mórmon.

"Tenho qualidades realmente imaturas e bobas, mas também tenho certa profundidade", ela disse. Em sua cidade natal, todo mundo sempre falou que ela seria famosa, o que faz sentido considerando que ela se chama Sydney Leathers, mas ela nunca pensou que as coisas fosse acontecer assim. "Agora, todo mundo da minha cidade que achava que 'merecia' ser famoso me odeia. É hilário."

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Ela soa confiante quando diz coisas assim, mas, quanto mais tempo eu passava com ela, mais eu percebia que os comentários negativos a magoavam. Enquanto caminhávamos pela Times Square até o estúdio do VH1, ela estava preocupada em ser reconhecida. Achei que ela estava sendo paranoica, mas aí vi um cara esquisito passar por ela e sussurrar "Sydney".

Sydney atribui sua situação atual a três repórteres do Buzzfeed: Andrew Kaczynski, Ellie Hall e Michael Rusch. Sydney vazou as mensagens de Weiner anonimamente para o The Dirty e pretendia continuar anônima. Mas, um ano atrás, recebeu uma mensagem no Facebook de um estranho com o link para o artigo que os três repórteres tinham escrito.

"Você vai ficar famosa", dizia a mensagem.

O artigo expunha Sydney como a amante digital de Weiner. Naquela semana, ela ficou arrasada e até pensou em suicídio. Ela não queria ser famosa: só queria que Weiner não ganhasse as eleições, porque achava que, se ele estava mentido sobre as mensagens eróticas, provavelmente faria outras declarações falsas. Ela queria trabalhar com política para ajudar as pessoas, e agora isso é impossível. Enquanto repórteres cercavam seu apartamento, ela chorava e pensava em se matar.

"Gosto mais de Ted Kaczynski do que de Andrew Kaczynski", Sydney me falou mais tarde, deitada no colchão inflável no chão do meu apartamento. "Acho que ele tem mais coração, e ele é a porra do Unabomber."

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Ao mesmo tempo, Sydney admite que nada disso teria acontecido se ela não tivesse vazado as mensagens de Weiner. Ela é uma pessoa azarada que também fez péssimas escolhas e parece se arrepender de ter exposto Weiner. Ela começou a gritar em certo momento, dizendo que, apesar de Weiner poder seguir com a sua vida enquanto ela fica com o estigma de amante, ela não o odeia. "Acho que nós dois somos [problemáticos]", ela opinou. "Por isso, nos demos bem: temos um problema similar de controle de impulso, por exemplo."

Mas Sydney consegue achar graça em sua situação. Ela fez piada sobre como sua última conversa com Weiner pelo telefone foi sobre House of Cards. Depois que nos afastamos do cara esquisito na Times Square, ela posou para fotos safadas com um artista de rua vestido de Elmo.

O artista começou a ficar saidinho; então, Sydney correu até uma Toys R Us.

"Todos os Elmos são meio estupradores", ela comentou.

Depois, ela abordou um cara vestido de Woody do Toy Story e pediu para tirar uma foto safada com ele, mas ele se recusou a tocar nela. "Tem que parecer que você está comendo minha bunda!", Sydney gritou.

Comentei como o Woody e o Elmo provavelmente não conseguiam outros empregos.

Sydney riu. "Bem-vindo ao meu mundo!"

Uma vantagem do Weinergate é que Sydney consegue agora todas as cirurgias cosméticas que uma garota pode sonhar. Depois de sua aparição no VH1, a acompanhei até o escritório do Dr. Richard Westreich, em Upper East Side, onde ela recebeu injeções de Botox.

"Não quero ficar parecendo uma Real Housewife", ela falou ao médico.

Ocasionalmente, Sydney se mostrava envergonhada de quem o Weinergate a forçou a ser: ela queria trabalhar com política afinal de contas, mas ela tem habilidades e oportunidades que o resto das pessoas nunca vai ter. Quando não estávamos correndo para talk shows, consultórios ou eventos na Sarah Lawrence, Sydney e eu sentávamos nas nossas camas e conversávamos sobre sexo e cultura pop.

Contei para ela que eu tinha dificuldade para conhecer caras depois que fui atacado sexualmente alguns anos atrás. Eu sabia como escrever sobre sexo, mas não era muito bom em conhecer caras. Sydney pegou meu celular e começou a recalibrar meu Grindr. Primeiramente, ela foi até meus álbuns do Facebook para achar uma nova foto de perfil.

Aí ela me fez posar para fotos a fim de mandá-las para os caras.

Finalmente, ela me ensinou como mandar mensagens eróticas. "Diz pra ele: 'Oi, Sexy'", ela disse. Mandei a cantada para todos os caras do Grindr que eu achava sexualmente atraentes. Algumas horas depois, eu tinha recebido pelo menos dez fotos de paus. Lá pelas 11 da noite, eu estava chupando um universitário de 26 anos da Columbia.

Enquanto Sydney ficou comigo, me senti poderoso do mesmo jeito que viciados em PCP se sentem quando usam drogas e pulam de prédios. Eu podia transar. Eu podia fazer piadas ofensivas. Eu podia fazer o que eu quisesse, ninguém dava a mínima. Por um longo tempo, desde que parei de falar com a minha família, me senti em paz.

Quando outras pessoas estavam com a Sydney – da CrackDoubt a Amy, a fotógrafa que fez essas fotos –, elas diziam sentir a mesma coisa. Sydney entende esse sentimento: "Acho que eu queria essa vida muito estruturada, quase corporativa", ela comentou, "aí tudo isso aconteceu, jogando a porra toda pro espaço. Acho que existem pessoas que ficam presas nesse mundo corporativo, que não podem se expressar livremente através do humor ou da sexualidade, seja lá do que for. Eu tenho essa plataforma na qual posso dizer a porra que eu quiser, e isso realmente não tem repercussão".

O Weinergate a libertou de muitas maneiras. Mas ainda estamos nos EUA, onde nada é de graça, e a Sydney pagou dobrado por sua liberdade. Enquanto a maioria dos outros familiares tinham de se preocupar apenas com o monte de e-mails de trabalho chegando em seus celulares, Sydney teve de lidar com caras mandando fotos não solicitadas de pintos no Twitter dela durante a minha formatura. Depois que Barbara Walters apareceu no palco para doar seus arquivos para a Sarah Lawrence, Sydney parecia deprimida.

Sydney sorriu nas fotos comigo usando um vestido rosa e dourado, mas percebi que ela estava pra baixo. Quando chegamos em casa, perguntei o que estava acontecendo. Ela falou que ficou pensando se conseguiria voltar à faculdade para terminar sua graduação. Ela podia conseguir uma entrevista num programa de TV, mas duvidava que conseguiria se formar.

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No verão passado, antes do Buzzfeed a expor, ela estava terminando seu curso. Se ela voltasse à faculdade agora, será que ela se encaixaria? Será que as pessoas ficariam olhando para ela? Ela conseguiria sobreviver? Eu disse que não tinha certeza, mas sabia que ela era inteligente o suficiente para se formar como primeira da turma.

Quando voltei do trabalho no dia seguinte, encontrei um colchão sem grandes lábios no meu chão. Sydney tinha ido embora. Passei só uma semana com ela, mas já sentia saudade. Como o Bisonho do Ursinho Pooh, ela é uma pessoa meio deprimida, mas que alegra qualquer situação. Sua ausência me deixou triste; então, fui até minha cama para me deitar. No meu travesseiro, achei a máscara com que Sydney e eu tínhamos brincado. Segurei-a e lembrei de um conto que tinha lido muitos, muitos anos atrás.

Sydney Leathers, pensei, você é uma criança linda.

Siga o Mitchell e a Amy no Twitter.

Tradução: Marina Schnoor