As Fotos Belas e Desoladas de Spot da LA dos Anos 70

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As Fotos Belas e Desoladas de Spot da LA dos Anos 70

As fotos 0% nostalgia e 100% realidade de Spot, um dos maiores fotógrafos de praia, skate e punk de Los Angeles.
29.1.15

Hoje, todo estudioso da contracultura ocidental tem uma estante abarrotada de livros de fotos documentando o punk das décadas passadas. Mas nenhum deles como o lançamento da Sinecure Sounds of Two Eyes Opening. O livro é uma coleção de imagens feitas por Spot, mais conhecido como o produtor do lendário selo SST no começo dos anos 80, mas hoje reconhecido como um dos melhores fotógrafos das culturas passadas de praia, skate e punk de Los Angeles.

Cada foto em preto e branco de Spot é um lindo pesadelo. Ele drenou todo o elemento de fantasia tropical da LA dos anos 70 e substituiu por uma realidade praiana sinistra e apavorante. Seus exteriores são solitários e amedrontadores. Seus interiores parecem casas assombradas. Spot mostra LA como ela realmente é: cinza, isolada e assustadora.

Apesar de Spot retirar qualquer senso de glamour de seus temas, seu trabalho nunca parece cruel, nem como se ele estivesse tentando ser mau ou julgar essas pessoas. Suas garotas de biquíni não são estimulantes, seus punks não são perigosos, seus skatistas não são deuses. Ele atravessa a artificialidade até a humanidade real e perdoa as falhas e pretensões de seus temas.

Falei com Spot recentemente sobre isso.

VICE: Como você chegou ao título Sounds of Two Eyes Opening? Você menciona na introdução que fotógrafos precisam manter os dois olhos abertos quando fotografam.
Spot: Primeiro, e principalmente, sou um músico – e tudo que já fiz ou faço é baseado nisso. Aprendi a tocar na época em que a rádio AM era a rainha (anos antes de o rock de FM aparecer), e, apesar de a AM ter pouca resolução e transmitir em mono, você ainda estava ouvindo com os dois ouvidos.

É a base de toda linguagem: quem quer experimentar música seriamente, aprende a deixar os dois lados do cérebro abertos e a confiar no instinto em vez da premeditação. Sabe? Usar improvisação e instinto como quadros para ritmo e composição. Em fotografia, o visor não deve ser uma limitação – é meramente parte de uma visão maior.

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Pode ser difícil no começo, mas você tem que se treinar para manter os dois olhos abertos – ou você perde toda a sutileza e profundidade do que está vendo e como isso se liga a tudo que acontece ao seu redor. Um jogador de basebol tem de ler não só o arremessador, mas também os caras no resto do campo. É assim que você sabe quando balançar o bastão e quando não.

Como os temas das suas fotos se sentiam quando se viam nas imagens que você tinha feito?
Os caras gostavam das fotos. Por que não gostariam?

O que eu quero dizer é que suas fotos tiram o glamour dos temas, mas não de um jeito cruel. As bandas não parecem endeusadas, as garotas de biquíni não parecem objetificadas como frequentemente parecem em fotos.
Não, ninguém nunca reclamou das minhas imagens, a não ser idiotas bêbados e alguns policiais e traficantes – e alguns "artistas" que eram muito cheios de si. Eu prestava atenção nos meus temas e no que eles estavam fazendo.

Esse é o primeiro livro de coletânea do seu trabalho. Como você se sente sobre isso? Você acha que demorou demais para isso acontecer?
Não é perfeito, mas saiu melhor do que eu esperava. Não houve oportunidade de fazer nenhum tipo de livro antes. Tudo que vale a pena demora muito para acontecer. Ah, humanidade impaciente…

O que você faria de maneira diferente para tornar o livro perfeito?
Foi um esforço colaborativo com o usual bate-cabeça estético. Eu teria eliminado algumas imagens e acrescentado outras. Claro, perfeição é um conceito nebuloso.

Como você desenvolveu as técnicas e escolhas que mostra no livro? Você retrata o mundo colorido das pessoas na praia, patinadoras de biquíni e punks em tons de cinza.
Você simplesmente vai lá e faz, comete erros e descobre o que funciona e o que não funciona para o que você está tentando fazer. Cinza é o domínio da fotografia em branco e preto. As pessoas se enganam quando pensam que o preto e o branco são apenas representações de ausência e saturação. Podem representar isso, mas também são realmente cores.

Vendo as fotos do seu livro, sinto zero nostalgia desse mundo. As fotos são lindas, mas acho que você consegue mostrar mulheres quase nuas de um jeito não sexy e bandas punks de um jeito não romântico.
Nostalgia é um subproduto da ação e da memória. Isso não precisa existir, mas a cultura tende a impor uma mentalidade "saudade dos velhos tempos" e "o outro lado é sempre mais verde" à percepção. Isso é muito vendável e faz um ótimo trabalho em transformar a história em dogmas quentes e em picolés políticos facilmente digeríveis. É por isso que os EUA têm uma fascinação com o Velho Oeste e um "individualismo austero", que talvez nunca tenha existido. Ansiamos viver uma época de que nunca fizemos parte. Eu já quis ter vivido nos anos 20, com as flappers, os gângsteres, os bares clandestinos e os clubes de jazz. Claro, por que não? Casa assombrada? Não sei, mas tenho visto fantasmas.

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Algumas das suas fotos parecem stills de filmes noir.
Acho que um dos meus filmes preferidos de todos os tempos é O Que Aconteceu com Baby Jane?. Sou um grande fã da Joan Crawford. (E do Alfred Hitchcock.)

Quando você fantasiava sobre a era das flappers? O que especificamente te atraía nisso?
Quando eu tinha uns 15, 16 anos. Isso provavelmente foi o último reduto da rebelião estilo Costa Leste contra o status quo e o zelo missionário equivocado. Nos anos 30 (provavelmente por causa do fim da Lei Seca), tudo tinha esfriado para um mundo sóbrio (ironicamente), de ombreiras, cortes de cabelo modestos e sedãs enormes, o que incluía a Costa Oeste também. Era um estilo sóbrio de Chicago, estabelecendo um senso de "máfia cultural" que só desmoronou realmente com a ascensão do country eletrificado, do R&B e do rock 'n' roll nas ondas de rádio do país.

É estranho pensar que muita gente deve desejar ter testemunhado as coisas que você testemunhou: o nascimento da cultura do skate e da cena hardcore de LA?
Não. Você não ia querer ter visto em primeira mão a construção do Empire State ou o primeiro voo dos irmãos Wright?

Você odeia Los Angeles? Isso é uma supersimplificação? Fico muito triste quando vejo essas imagens. Tudo parece tão encardido, solitário e sem esperança.
LA tem uma das histórias mais incríveis e interessantes de todas as cidades americanas, e ela conseguiu apagar seu próprio legado só para provar que não era como qualquer outro lugar. Não é mais minha responsabilidade pesar isso; dei o fora de lá quase 30 anos atrás. É uma perspectiva totalmente diferente, mas a websérie OnlyHelLA.com resume parte da experiência muito bem. LA é o melhor e o pior lugar do mundo. Tudo depende do que você traz para lá, mas é ridículo confiar em quem insiste que "A vida é o que você faz dela" – muitas vidas em LA foram transformadas num inferno justamente pelas pessoas que achavam que tinham encontrado o céu.

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Por que você saiu de LA?
Foi uma fuga de uma prisão sem portões. Muito tempo parado no trânsito, muito tempo gasto lidando com os problemas dos outros; então, percebi que os guardas tinham virado prisioneiros também, só que com celas mais chiques.

Onde você mora agora? Você é feliz lá? Às, vezes você ainda visita LA?
Sheboygan, Wisconsin – bem no Lago Michigan. Há prós e contras em qualquer lugar que uma pessoa escolha viver. Não existem soluções residenciais fáceis, mas consigo dormir melhor.

Você chegou a pegar numa câmera de novo?
Só quando tenho de me proteger. Uma Nikon FTN velha dá um ótimo porrete.

Sério, tentei, mas não tenho mais a motivação (e uma sala escura). O mundo digital é atraente, mas simplesmente não tem a mágica. Prefiro ter a Jean Harlow com espinhas do que todas as modelos do mundo esperando serem photoshopadas.

Você tem um celular com câmera? E se tem, você já chegou a usar isso alguma vez?
Sim. Ligo essa porcaria uma ou duas vezes por semana quando estou em casa.

Compre Sounds of Two Eyes Opening no site da Sinecure Books.

Tradução: Marina Schnoor