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Os melhores momentos do depoimento do Lula pro Moro

Geral esperava um dia tipo de clássico futebolístico, só que político.
11.5.17
Foto: Reprodução/Justiça Federal do Paraná.

Nunca antes na história desse país houve tanta expectativa, ansiedade, e nervosismo para uma audiência na Justiça Federal. No dia 10 de maio, o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva chegou a Curitiba para prestar depoimento ao juiz Sérgio Moro sobre o processo no qual é réu, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Lula foi o último réu a prestar depoimento ao juiz Sérgio Moro. Se desde 2014 os brasileiros têm apontado a "polarização" do povo brasileiro e tratado política como futebol, com certeza o depoimento de ontem foi o jogo principal. Inclusive chegou até a virar capa temática em uma revista como um embate entre "luchadores".

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Foram cinco horas de depoimento no qual a acusação — formada pelos procuradores da Lava Jato —, os advogados de defesa e Moro questionaram se Lula sabia do esquema de corrupção da Petrobrás, se era de fato proprietário oculto do triplex concedido pela OAS em troca de contratos na Petrobrás e se realmente mandou destruir provas como dito no depoimento do empreiteiro Léo Pinheiro.

Para além de toda movimentação em torno do encontro entre Lula e Moro, o depoimento transcorreu como uma audiência comum em termos de interrogatório. Foram feitas perguntas técnicas e jurídicas sobre como se formou o Conselho da Petrobrás, e notou-se uma particular e esperada serenidade de Moro — que, inclusive, para a decepção de todos os memes, desde o início do interrogatório explicou que uma possível prisão do ex-presidente ao final da audiência não passava de um boato.

Para você sacar as partes mais importantes, fizemos um apanhadão dos melhores momentos do depoimento na República de Curitiba:

  • Tríplex no Guarujá: O fatídico triplex da discórdia, avaliado como uma "porcaria" e "três Minha Casa, Minha Vida" pelo deputado federal Paulo Maluf, foi supostamente oferecido ao ex-presidente pela OAS na forma de propina em 2009. Lula negou as acusações e disse que não queria comprar o apartamento no edifício Solaris desde a primeira visita que fez em fevereiro de 2014 por ter visto muitos "defeitos". Também afirmou que nunca "solicitou" ou "recebeu" o apartamento no Guarujá e pediu para que a acusação apresentasse um documento que comprovasse a posse do lugar. Foi questionado sobre a visita feira por Marisa Letícia, morta em fevereiro desse ano. Lula respondeu que Marisa, provavelmente, tinha interesse em adquirir o apartamento como um investimento e não sabia dessa segunda visita. Um documento sem assinatura foi apresentado em juízo ao Lula.
  • Marisa Letícia: Lula se mostrou incomodado ao ouvir o nome de sua esposa, ré no mesmo processo até sua morte esse ano. "Só queria doutor Moro, pedir uma coisa, é muito difícil para mim, toda hora que o senhor cita minha mulher sem ela poder estar aqui para se defender, é muito difícil", disse.
  • "Acha apropriado um ex-presidente da República dizer isso?": Moro deu uma enquadrada no Lula ao negar os boatos de que mandaria Lula ser preso no dia do depoimento. Também o questionou por conta de um discurso feito pelo ex-presidente no dia 5 de maio dizendo que "se eles não me prenderem logo, quem sabe um dia eu mando prendê-los pelas mentiras que eles contam". O juiz deu uma alfinetada perguntando se é apropriado um ex-presidente mandar prender autoridades e Lula se justificou dizendo que foi o calor do momento e que presidente não manda prender ninguém, exceto em regimes autoritários. "Então, talvez o senhor não devesse fazer esse tipo de declaração", avisou o juiz.
  • Sítio de Atibaia & Mensalão: Uma das poucas perguntas não respondidas. O ex-presidente se negou a falar sobre o sítio porque este faz parte de outro processo. Lula também não falou sobre o mensalão, o que gerou um bate-boca entre os advogados e Moro, já que é um processo transitado em julgado. O advogado de defesa chegou a chamar as perguntas do juiz de "cansativas".
  • Imprensa: Talvez muita gente chamaria de "lacre" e "tombamento" o trecho do depoimento no qual Lula mete o pau na condução política da Lava Jato feita pelos veículos da grande imprensa. "Todo esse processo é subordinado à Época, ao O Globo, à Veja, à Globo", acusa Lula. Moro rebateu dizendo que a imprensa não condiz nada do processo. Na tréplica Lula responsabilizou Moro por vazamentos à imprensa de conversas de sua esposa e filhos.
  • Esquema de corrupção da Petrobrás: Moro questionou se Lula sabia dos esquemas de corrupção cometidos pelos diretores da Petrobrás como Nestor Cerveró, Paulo Roberto Costa e Jorge Luiz Zelada junto ao ex-diretor da estatal Renato Duque. "Não, nem eu, nem o senhor, nem o Ministério Público, nem a Petrobras, nem a imprensa, nem a Polícia Federal. Todos nós só ficamos sabendo quando foi pego no grampo, na conversa do [Alberto] Youssef com o Paulo Roberto", respondeu Lula. A afirmação gerou umas faíscas e foi rebatida pelo juiz afirmando de que ele não tinha nada a ver com a Petrobrás, mas o presidente da República sim. Lula novamente respondeu dizendo de que quem mandou soltar Youssef e grampeá-lo foi o próprio Moro.
  • Contradição: foi o ponto alto da atuação de Sérgio Moro no processo, porque conseguiu fazer Lula entrar em contradição ao dizer que a conversa que teve com Renato Duquefoi intermediada por João Vaccari, ex-tesoureiro do PT. Em primeiro momento, Lula afirmou não saber da relação entre Vaccari e Duque, mas depois confessa que pediu para Vaccari marcar uma reunião com Duque. A conversa deles, segundo Lula, foi em um encontro no aeroporto no qual o ex-presidente o questionou se o ex-diretor mantinha contas na Suíça.
  • Lula negou veementemente a declaração de Léo Pinheiro de que Lula o orientou a destruir provas.
  • Filmagens: os advogados de defesa de Lula pediram para que o depoimento fosse filmado mostrando a reação de quem pergunta e de quem responde e não focado só em quem está prestando depoimento, como foram a maioria das filmagens durante os julgamentos na 13ª Vara Federal do Paraná. Uma tática bastante óbvia de levantar os ânimos e dar um clima de embate político. Tanto é que assim que o depoimento terminou às 19 e pouco da noite, o vídeo completo já foi disponibilizado horas depois. Tem até uma outra versão mostrando Moro e Lula no mesmo enquadramento.
  • Alegações finais: foi o palanque de Lula até na visão de alguns comentaristas políticos. Lula se disse "perseguido" e que esse processo existe por causa do que ele fez quando governou o país durante dois mandatos. Também reclamou do Power Point — sim, aquele mesmo, o que virou meme —"mentiroso" que apontava Lula como "comandante máximo" do esquema de corrupção do país e de que o PT é uma organização criminosa. "Então, eu queria só pedir a meus acusadores que levem em conta que vocês são muito jovens, que vocês têm muito tempo pela frente. O Ministério Público, que é uma instituição que ninguém respeita como eu respeito, não foi feita pra isso. A acusação tem que ser séria, tem que ser fundamentada, ela não pode ser especulativa", disse.

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