A Estufa de Plantas para Marte
Protótipo da estufa na Universidade do Arizona. Crédito: Cody Sheehy/CEAC

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A Estufa de Plantas para Marte

Acharam um jeitinho de alimentar os astronautas no planeta vermelho.
16.10.15

O sonho de enviar seres humanos à Marte esbarra em uma série de desafios científicos. Um dos maiores é: o que comer em um planeta onde nada cresce?

Na semana passada, depois do anúncio de que a NASA descobriu evidências de água corrente em Marte, rolou uma empolgação geral ao cogitarmos uma curtição humana no planeta vermelho. Mas se alguns de nós viverão por lá, ainda que por pouco tempo, precisaremos de mais do que água gelada e salgada; necessitaremos de boa quantidade de comida.

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É por isso que, há quase oito anos, pesquisadores na Universidade do Arizona (UA), nos Estados Unidos, trabalham em um projeto de estufa marciana que permitirá aos astronautas cultivar comida e, tão importante quanto, produzir oxigênio.

"Nós o operamos como uma estufa, mas não se trata de um dispositivo unicamente para a produção de alimentos. É um gerador de água fresca. As plantas também podem nos manter vivos porque produzem oxigênio", explicou Gene Giacomelli, engenheiro horticultor e um dos investigadores principais do projeto, que faz parte do Centro de Agricultura e Ambiente Controlado da UA. "É um sistema pequeno e biorregenerador de suporte à vida e é o que a NASA tem, há muitos anos, nos pedido para desenvolver."

Giacomelli explicou que o projeto está em desenvolvimento desde 2000, mas somente em 2008 a NASA forneceu fundos para financiar uma equipe de 20 pesquisadores e construir a estufa. Agora eles têm um protótipo em operação que, dizem, pode garantir a vida dos astronautas em Marte. A estufa em forma de tubo dobrável tem 5,5 metros de comprimento, dois metros de diâmetro e será somente uma das partes de uma estrutura de habitat projetada pelos pesquisadores.

"Dissemos à NASA que não íriamos ter uma estufa se não pudéssemos construir um habitat ao redor dela'", afirmou Giacomelli. "Trata-se de um apêndice na extremidade de um apêndice de 30 metros, o suficiente para permitir que um astronauta sobreviva. E haverá ainda mais quadro apêndices."

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Todo o habitat é projetado para ser desenrolado de forma autônoma e montado – possivelmente com o uso de robótica – na aterrisagem para que tudo esteja cultivado e pronto para ser consumido no momento em que os astronautas chegarem. A estufa poderá criar uma versão micro e hidropônica dos sistemas terrestres exigidos para manter a vida.

Os sistemas hidropônicos permitem que as plantas cresçam fora do solo e suas luzes artificiais garantem que o processo ocorra de forma eficiente. Uma unidade de compostagem utiliza água dos dejetos do astronauta e das plantas e, depois, a reusa para nutrir e regar as plantas. Há também um serviço AVAC que retira umidade do ar para fornecer água potável aos astronautas.

A estufa, entretanto, não é totalmente autossuficiente: vai necessitar de planejamento e cultivo bastante específicos dos astronautas, afirmou Giacomelli.

"Deve-se ir até lá e cultivar com determinados procedimentos e uma ordem lógica, para poder colher e transplantar ao mesmo tempo, sem espaços abertos, porque isso é caro e um espaço de energia intensiva que você desperdiçará se não houver plantas crescendo por lá", afirmou ao Motherboard. "E então você deve ser cuidadoso para não comer muito, senão sua produção de oxigênio não será suficiente. Se você der uma festança à noite e exagerar na comilança, no dia seguinte não terá oxigênio suficiente para que todos sobrevivam."

Há, a partir de agora, diversos desafios a considerar: quanta água os astronautas podem beber por dia sem acabar com o suprimento? Como você equilibra a quantidade de comida que um astronauta precisa para sobreviver com o número de plantas necessárias para produzir oxigênio suficiente para respirar? Que plantações são as mais eficientes, para, ao mesmo tempo, produzir e fornecer os nutrientes aos astronautas? Giacomelli e o resto da equipe estão considerando todos esses fatores para saber exatamente do que precisamos para sobreviver antes de colocarmos os pés em Marte.

Até então, a equipe tem somente um protótipo em funcionamento da estufa, mas o plano é construir mais três para ter uma ideia real de como será o layout das estufas em Marte. Eles fizeram experimentos com plantações diferentes, incluindo morangos, manjericão, batata-doce e tomate. Giacomelli disse que, desde que a unidade se tornou autogerida, eles não precisam se preocupar com o ambiente de Marte – o habitat será isolado da atmosfera severa do planeta vermelho. A única variável que ainda afetará é a gravidade, que é praticamente um terço da Terra. Mas, quando os astronautas da Estação Espacial Internacional se divertiram plantando alface verde e fresca na gravidade zero este ano, ficou claro que não é preciso nenhum tipo de gravidade para produzir uma safra.

Giacomelli afirmou que as próximas etapas consistem na expansão do protótipo e, por fim, do envio de uma unidade de teste para Marte para ter certeza de que tudo está funcionando de modo adequado. Ele também me contou que houve uma renovação no interesse pela pesquisa com o anúncio da água pela NASA e do filme Perdido em Marte nos cinemas, mas que sua equipe vive com a ideia das estufas em Marte, cof, muito antes de virar modinha. (Ok, ele não disse com essas palavras.)

"Não é tão empolgante, para ser sincero. O que fazemos é cultivar plantas em uma sequência lógica para suprir nossas demandas de mercado", Giacomelli afirmou. "É claro que nossa demanda é de quatro pessoas em Marte, que precisam de oxigênio para respirar, de água para beber e da energia dos alimentos."

Tradução: Amanda Guizzo Zampieri