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A Imortalidade Enfrenta Problemas de Financiamento

A imortalidade ainda não está à venda.
Crédito: Tashatuvango/Shutterstock

Quanto dinheiro vale a imortalidade? Se você chutou "bastante", está perto da resposta certa. Em lendas e histórias, reis e imperadores gastaram fortunas tentando obter o elixir da vida e burlar o ceifador.

Hoje, em um mundo cada vez mais velho, qualquer pessoa que encontrar uma fórmula para previnir ou apenas refrear o processo prosperaria. Mas os cientistas controversos que estão trabalhando para construir uma fonte da juventude alegam que, apesar do interesse crescente por parte dos empresários do Vale do Silício nos últimos anos, os investimentos ainda são baixos.

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É difícil dizer quanto dinheiro exatamente foi injetado globalmente na pesquisa da longevidade, mas David Orban, ex-diretor do coletivo transhumanista H+ e conselheiro da Universidade da Singularidade, voltada para o futuro, estima que o valor total seja de "aproximadamente um bilhão de dólares" por ano.

O lado financeiro da jornada pela vida eterna chamou minha atenção mês passado, quando fui à estreia do documentário americano The Immortalists, no Reino Unido. O filme acompanha dois cientistas trabalhando na área de extensão radical da vida, e numa sequência, no final, a discussão filosófica sobre imortalidade é posta de lado ao passo que a questão financeira toma o centro do palco.

Um dos protagonistas, Bill Andrews, biólogo que reside em Nevada, está atrás de investidores dispostos a ajudá-lo a pagar os montantes de sete dígitos para prosseguir com a pesquisa, e ele parece nervoso. O outro, o cientista britânico antienvelhecimento Aubrey de Grey, está tentando conseguir um cheque robusto para financiar seu centro de pesquisas no Vale do Silício, o SENS.

Pesquisas sobre extensão da vida não precisam ser caras. Aubrey de Grey me contou que, para gerir a cria dele, o SENS, "a maquinaria e os procedimentos necessários são os mesmos de qualquer pesquisa biológica", com equipamentos de alta precisão, como microscópios, compondo os gastos mais altos.

reação muitas vezes hostil a estudos de extensão da vida certamente fazem parte da equação. Muitas pessoas acham que a cura para o envelhecimento nada mais é que óleo de cobra ou uma ideia perigosa demais.

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Mas mesmo para quem compra a ideia, não há recompensas previstas em um futuro próximo. Investir em empreendimentos do tipo pode gerar grandes retornos — mas somente a longo prazo. Embora de Grey esteja certo de que a primeira pessoa a viver mil anos já tenha nascido, o prospecto de que um dos laboratórios antienvelhecimento proclame "Eureka!" a qualquer momento soa improvável para a maioria.

"As pessoas querem investir hoje para ganhar dinheiro amanhã, essa é a questão", disse de Grey. "Com a extensão da vida, as coisas demoram um pouco mais."

Agora mesmo, a pesquisa sobre extensão da vida ainda é uma pesquisa, pura e simples. Cientistas que exploram os territórios desconhecidos da longevidade basicamente mexem com células e telômeros, ou dão duro para gerar um rato longevo; até então, as oportunidades para institutos de extensão da vida fornecerem produtos vendáveis são praticamente nulas.

As pessoas querem investir hoje para ganhar dinheiro amanhã, essa é a questão

"Temos muitos medicamentos à venda para tratar as doenças da terceira idade, mas não há sequer um produto que almeje a própria idade avançada, isso se excluirmos o pseudomercado de suplementos alimentares", disse Avi Roy, especialista em biomedicina da Universidade de Oxford, em um telefonema.

Se conseguirem avanços nessas linhas, o setor de extensão de vida tem um potencial para ser uma indústria bastante lucrativa. Em 2013, segundo um relatório da Global Industry Analysts (GIA), as pessoas ao redor do mundo gastaram 195,90 bilhões de dólares para controlar os sinais de envelhecimento, com produtos destinados a combater incômodos como rugas, queda de cabelo e memória falha. Imagine se tratamentos viáveis emergissem para deter esses problemas na raiz, erradicando o envelhecimento de todo.

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É por isso que, para o entusiasta transhumanista Orban, a escassez atual de fundos não faz sentido. "Meu argumento é o seguinte: saúde é um grande negócio, e doenças também são grandes negócios. Se pudermos oferecer produtos para as pessoas viverem mais, será um grande negócio. Qual será o valor dos ganhos futuros? Será um valor colossal. Quanto vale investir nisso? Digamos que 100 bilhões de dólares por ano, mas na verdade, qualquer valor vale a pena", disse ele.

Evidentemente, quanto menos dinheiro investirem em pesquisas de longevidade, menos respostas serão entregues. É um impasse, e a única saída depende de pessoas ricas e aventureiras o bastante para apostar no jogo transhumanista.

Existe um lugar com investidores assim: o Vale do Silício. Endinheirados, arrojados e com uma queda por desafios ousados, os empresários do Vale têm mostrado cada vez mais interesse por esse tipo de pesquisa.

O cofundador do PayPal Peter Thiel, por exemplo — atualmente o principal patrocinador do SENS —, já gastou milhões de dólares para combater o que ele chama de "o problema da morte". Recentemente, grandes corporações entraram em campo, sendo o Calico, projeto milionário antienvelhecimento do Google o exemplo mais notório.

É uma boa notícia para pessoas como de Grey. "Não se trata apenas de angariar mais fundos: o setor ainda precisa de dinheiro, mesmo que esteja bem mais próspero do que, digamos, dez anos atrás", disse ele. "É mais uma questão de atitude, a maneira como as pessoas falam de extensão de vida, otimistas."

Ele disse que o envolvimento de grandes nomes da tecnologia é benéfico para a imagem do tema: "Google, Thiel, [o geneticista Craig] Venter, que administra uma empresa chamada Human Longevity [Longevidade Humana] (…) são nomes reconhecidos por outros investidores, e podem atraí-los."

Capaz que o Vale do Silício seja o fator transformador do sonho da longevidade em um setor mais voltado para o mercado. Em setembro, por exemplo, o projeto Calico fechou um contrato de parceria em pesquisa e desenvolvimento com a AbbVie, empresa farmacêutica britânica, para criar tratamentos contra neurodegeneração e câncer.

A imortalidade ainda não está à venda.

Tradução: Stephanie Fernandes