​Cientistas querem transformar nossos celulares em detectores de mentiras
Aponte o smartphone para cara de seu amigo (ou de um político, se preferir) e saiba se ele diz a verdade. Crédito: Shuttershock

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​Cientistas querem transformar nossos celulares em detectores de mentiras

Aponte o smartphone para cara de seu amigo (ou de um político, se preferir) e saiba se ele diz a verdade.

É o seu primeiro encontro com alguém. Você gosta mesmo daquela pessoa e não faz ideia se é correspondida. Sem dar muita bandeira, você finge ver algo no celular e grava um vídeo da face da (o) crush. A seguir, recebe uma mensagem que descreve como ela está se sentindo: "prazer, empolgação". Maravilha.

Pode parecer estranho, mas este é o futuro que a NuraLogix, uma startup canadense, está propondo. Seu software de processamento de imagens, Transdermal Optical Imaging, afirma decodificar emoções escondidas, atuando também como detector de mentiras. A mente por trás do projeto é o neurocientista de desenvolvimento da Universidade de Toronto Kang Lee, especialista em processamento de faces humanas e a ciência por trás da enganação.

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De acordo com Lee, a tecnologia da NuraLex atua ao detectar mudanças no fluxo sanguíneo da face. A ideia é que emoções humanas básicas criam padrões específicos que vão além do nosso controle. E eles diferem quando falamos a verdade ou mentimos, de acordo com ele.

O software opera com a medição da concentração de hemoglobina. Estudos anteriores sobre o assunto encontraram relação entre emoções e fluxo sanguíneo em regiões como bochechas e testa. Estas diferenças podem ser notadas com base em alterações na cor da pele – quanto mais vermelha, maior o fluxo. (Isto foi testado com pessoas de diferentes cores e tons de pele, vale ressaltar.) Um estudo de 2015 revelou que sentir raiva está associado a maior fluxo de sangue e vermelhidão em comparação a um estado emocional neutro. Já com a tristeza, acontece o contrário: o fluxo e vermelhidão são reduzidos em comparação à neutralidade.

A equipe de Lee tomou esta pesquisa por base e desenvolveu algoritmos de aprendizagem para máquinas a fim de monitorar mudanças no fluxo sanguíneo em vídeos de rostos humanos. Usando imagens de qualquer câmera comum – incluindo seu celular – o software analisa mudanças na cor da pele e compara as imagens com dados padronizados de assinaturas de fluxo emocionais. O resultado é meio que ver o mundo com os olhos do Predador.

As aplicações vão desde encontros casuais até manutenção da lei, marketing e educação, disse o neurologista. "Pode ser muito útil para professores", disse Lee. "Muitos de nossos estudantes sofrem de ansiedade com matemática, mas tem vergonha de nos falar". Se os professores pudessem identificar alunos sofrendo de ansiedade em sala, poderiam atender às necessidades destes individualmente.

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Outros pesquisadores já tentaram interpretar emoções e detectar mentiras ao medir padrões na temperatura facial com câmeras termais, mas os resultados não foram tão promissores. "Acontece que nosso método é bastante útil e o descobrimos por acaso", comentou Lee. "Com ele podemos fazer tudo de forma não-invasiva, remota e até mesmo secreta, em algumas ocasiões."

Não é a primeira vez que a neurociência afirma ter bolado uma versão hi-tech do polígrafo. Em 2008, a detecção de mentiras via eletroencefalograma foi usada como evidência em um júri indiano para condenar uma mulher por assassinato (para o terror absoluto por parte de cientistas que usaram a tecnologia em estudantes universitários que cometeram crimes de mentirinha). Em 2016, uma empresa de tecnologia propôs utilizar tecnologia de rastreamento ocular para detectar terroristas em meio a grupos de refugiados.

Lee me garantiu que a tecnologia da NuraLogix não seguraria a barra num julgamento. "Eles querem uma precisão absurda, como a de testes genéticos, com um índice de erros de um em um milhão. Nossa técnica não será capaz disso, por isso não creio que será útil para os tribunais", diz.

O cientista prevê ainda que a NuraLogix terá sua primeira versão utilizável nos próximos seis meses, incluindo software armazenado na nuvem acessível por usuários para que possam processar os vídeos em seu dispositivos. "Em 12 meses teremos algo mais sofisticado", disse. "Já para um aplicativo de celular, serão alguns anos."

Já esperamos a versão in-app pro Tinder.

Tradução: Thiago "Índio" Silva