A moda política de Ronaldo Fraga

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Sustainability Week

A moda política de Ronaldo Fraga

Pioneiro em envolver moda e sustentabilidade, o estilista Ronaldo Fraga é muito conhecido por fazer uma moda cultural, política e cheia de poesia, com aquele jeitinho brasileiro.

O estilista Ronaldo Fraga é muito conhecido por fazer uma moda cultural, política e cheia de poesia, com aquele jeitinho brasileiro. Suas coleções sempre mergulham de cabeça Brasil a dentro, explorando a cultura local.

Ele se conecta com mundo e com temas da atualidade e utiliza a moda como seu meio de comunicação para gritar ao mundo suas mensagens.

Fraga é um pioneiro em envolver moda e sustentabilidade, mas acha o termo "sustentável" já está desgastado e ultrapassado. Para ele, essa é uma questão muito mais ampla, mas que a indústria da moda muitas vezes utiliza esse tema por questões comerciais. Ele quer ir além, ele quer trabalhar nas questões humanas, na salvação do planeta, do sistema e do mundo em que estamos vivendo.

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Batemos um papo com ele sobre cultura brasileira, a situação atual do país e do mundo, refugiados e também sustentabilidade.

Você adota em sua moda práticas de sustentabilidade ambiental, como fibras naturais orgânicas e reaproveitamento de retalhos de confecção. Como surgiu a ideia de fazer uma moda sustentável?
Eu nunca decidi fazer moda sustentável. O termo "sustentável" já está desgastado e saiu de moda. Nós temos que discutir um termo que é: salvação do planeta. Me interessa muito mais pensar e fazer uma moda que tem uma face cultural e política. É um convite cultural. Pra mim a moda é transformadora. Minha intenção é fazer com que ela estimule a transformação do olhar do outro sobre as questões complexas do que estamos vivendo hoje em dia.

Sua moda é muito inspirada na cultura brasileira. Como surgiu esse interesse?O primeiro contato que eu tive com a moda foi eu era adolescente, militante pós ditatura, e li um livro onde tinha um capítulo que falava sobre a Zuzu Angel, estilista que usou a moda como manifestação política, extremamente política. Eu achei aquilo muito interessante, e foi ali que eu comecei a me interessar pelo assunto. Algum tempo depois eu ganhei uma bolsa para estudar em Nova Iorque e Londres. Nesse intercambio eu tive contato com estilistas de várias partes do mundo, japoneses, belgas, londrinos… Foi naquele momento eu pensei o que eu poderia fazer para que o Brasil também tivesse uma moda que falasse de seu país.

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Os brasileiros mal constroem uma identidade para a sua moda. Um país que deseja ter uma moda autoral, precisa olhar para sua própria história, pra sua própria cultura. Por isso eu acho essa questão tão importante.

Você acha que as pessoas estão ficando mais conscientes por aqui?
Existe um movimento mundial sobre essas questões do meio ambiente. Independente da elite ignorante que temos por aqui, independente da educação, existe um movimento de evolução que é próprio do homem. As pessoas vão evoluir, vão ter que pensar mais no que estão consumindo. Pensando nas grandes margens do Brasil, isso ainda é um futuro um pouco distante, mas eu sou otimista e acredito que um dia vamos chegar lá.

Quais materiais sustentáveis você já usou em suas coleções?
Nossa, já foram vários! Algodão colorido da Paraíba, fibras feitas de garrafa pet, casulo de seda… Mas mais importante do que esses materiais, são as relações humanas, que é o que realmente me interessa. Sustentabilidade humana. O que me interessa são projetos que reafirmem a cultura do lugar, que estimulem a fixação das pessoas com seu lugar, com sua memória, com sua história.

No seu último desfile no SPFW alguns refugiados desfilaram na passarela. Da onde surgiu a ideia de levá-los para o desfile? Como foi a experiência?
Quem acompanha minhas coleções sabe que eu falo da moda como um vetor de transformação social, cultural e política. Esse momento da crise de refugiados que a Europa (e o mundo) está passando precisa de atenção. Eu fiz uma viagem a África e voltei inspirado de lá.

A princípio seriam 16 refugiados na passarela, mas eu não pude colocar ninguém que não tivesse emissão de carteira de trabalho, porque eu seria multado, o evento seria multado, e eles seriam deportados. Então ficamos apenas com 6, vindos de diversos lugares como a Síria, Senegal, Palestina e Congo. Eles ficaram super emocionados em desfilar. No fim, até conseguimos emprego para 2 deles.

Você levou para as passarelas em seu desfile o primeiro fio biodegradável do mundo, feito com material inédito e com tecnologia brasileira. Como surgiu a ideia de utilizá-lo em suas roupas?
Esse material foi desfilado na coleção "Fúria Das Sereias", no SPFW Verão 2016. Eu já estava em contato com a Rhodia, empresa responsável pela criação do material. Um dia eles vieram me apresentar o fio para utilizar em minhas roupas e eu achei incrível! Esse material é realmente transformador. Um fio normal normalmente levaria 40 anos para se decompor. O fio biodegradável demora somente 3 anos.

Vídeo do desfile