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Millennials explicam como é se casar aos 20 e poucos anos

O que faz jovens bem educados, subempregados e prematuramente falidos terem coragem de prometer o resto da vida um para o outro na frente de todo mundo que conhecem?
21.7.16

Andrea e Colton. Todas as fotos cortesia dos entrevistados.

Matéria original da VICE US.

Para alguns de nós, um casamento funcional parece uma lenda urbana — pode até ter existido, talvez nas histórias de amor dos nossos avós, mas em algum momento — nos anos 60, talvez? — se perdeu nas névoas do tempo. As taxas de divórcio nos EUA atingiram um pico por volta dos anos 80 e vêm caindo na última década e meia, mas os casamentos seguiram o exemplo e também caíram. Então, com as novas gerações cada vez mais confortáveis com separações, a tendência hoje parece ser que famílias têm que primeiro se dissolver depois se formarem.

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Os obstáculos entre os millennials e o tipo de casamento da Grande Geração, que era considerado o padrão de casamento feliz, são muitos. Frequentamos mais a escola, estamos subempregados, devendo, ainda morando com os pais e, segundo alguns especialistas, somos incapazes de nos comprometer com qualquer coisa — emprego, religião e, claro, o parceiro. Em 2013, meros 26% dos jovens adultos entre 18 e 33 anos norte-americanos estavam casados, e se a tendência continuar, um quarto dessa geração vai ficar solteira até os 40, talvez mais. Há evidências de que a própria instituição do casamento está desmoronando: um estudo diz que 43% dos millennials apoiam uma forma de casamento que permita que o casal se dissolva depois de dois anos de "test drive".

Mas pergunte para o estatístico mais próximo: Você tem visto o Facebook ultimamente? Nos seis meses que representam a "temporada de noivados" e a "temporada de casamentos", parece que você não passa um dia sem ver um amigo na faixa dos 20 anos dando festa de chá de cozinha, postando vídeos do pedido de casamento, proclamando "Por que vou casar com meu melhor amigo" e, para os convidados solteiros, postagens de autoajuda sobre como comparecer e sobreviver ao seu primeiro casamento como adulto. Parece que há um choque de culturas se formando, entre as pessoas organizando seu dia dos sonhos no Pinterest e quem condena o casamento ao fogo do inferno.

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Tentando criar uma ponte entre os dois lados, a VICE procurou millennials noivos ou recém-casados para perguntar, basicamente, por quê? O que eles pensam? Eles são assombrados pelas mesmas dúvidas que a gente? Eles acham que casamento tem data de validade? O que fez eles terem coragem de prometer o resto da vida um para o outro na frente de todo mundo que conhecem?

Lindy Law Pinkalla, 24 anos, e Christopher Pinkalla, 29
Casados há três meses

Christopher: Vamos ser honestos: eu acho que o casamento é uma instituição falida. Eu sei que tem gente que vai dizer "Por que se dar ao trabalho?" Não é natural prometer transar com uma única pessoa para o resto da vida, então acho que os mais jovens veem isso e pensam "Foda-se. Não quero isso pra minha vida".

Na minha família, minha mãe casou quatro vezes. Meu pai também casou de novo. Mas eu sabia que queria levar o casamento muito a sério. É algo em que você tem que trabalhar, e pode ser incrível se você fizer do jeito certo e pelas razões certas. Senti que a Lindy era a pessoa certa, e que a gente ia fazer a nossa vida juntos dar certo. E estávamos muito felizes naquele momento, então não me estressei pensando "Ah, será que é a decisão certa?" Foi uma decisão mais romântica e idealista. Mas de um jeito bom. Foi bonito mesmo.

Lindy: Estávamos planejando o casamento e toda vez que começávamos, eu desatava a chorar. Não tínhamos a grana para o que as pessoas geralmente esperam. Mas assim que decidimos fugir e fazer do nosso jeito, fiquei aliviada. Estava chovendo. Acordamos, todo mundo tomou um bom café da manhã. Fomos para o Point Dume em Malibu. Trocamos alianças. Ninguém ensaiou nada. O melhor amigo dele nos casou. Minha melhor amiga estava lá. Um colega da faculdade tirou as fotos. Voltamos para a casa na praia, comemos Taco Bell, assistimos Netflix e ouvimos música o dia inteiro. Foi perfeito. Não falamos com ninguém no celular naquele dia. Passamos o dia um com o outro e com nossos melhores amigos.

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Eu nunca ia dizer para ninguém simplesmente casar e pronto. Não acho que isso é legal pra todo mundo, é muito difícil e você tem que fazer funcionar. Vocês têm que saber que se a merda voar no ventilador, vocês vão ter que resolver. Mas acho que para muita gente da nossa geração, quando a merda cai no ventilador, as pessoas não querem resolver a situação. E nisso senti que eu e o Chris somos diferentes. Tivemos nossas próprias dificuldades e resolvemos, e vamos continuar resolvendo.

Stacy Omoagh, 24, e Justin Korelc, 37
Noivos há seis meses

Stacy: Nunca achei que eu ia me casar tão cedo. Meus planos eram casar com 27, 28 anos. Mas acho que quando você encontra a pessoa certa e quer casar, não tem por que esperar. Meus sentimentos não vão mudar. Eu podia me casar agora. Não cresci com essa ideia de simplesmente morar junto, então casar parecia a escolha certa.

Quando ficamos noivos, esperei vários meses para postar a notícia no Facebook, porque queria contar para os amigos e a família primeiro. É muito fácil ser sugado pelo Facebook. Acho que essa é outra pressão, porque quando você publica essas coisas, se você termina o noivado ou o casamento também vai ter que dar essa notícia. Recentemente não tenho postado tanta coisa como no começo do nosso namoro, porque não preciso e não quero que todo mundo saiba tudo sobre a nossa relação.

Fico impressionada quando vejo alguém pedindo a namorada em casamento hoje, porque vejo uma tendência das pessoas morarem juntas ou ter filhos fora do casamento. Quer dizer, estamos fazendo a mesma coisa, mas parece que quando você se casa, você sabe o que é um casamento e o que deve fazer num casamento. Sou muito cristã. Acho que se ficamos cada vez mais próximos de Deus, podemos ser pessoas melhores um para o outro. Se não estamos nos tornando mais cristãos e pessoas melhores, acho que não sobreviveríamos a um casamento, especialmente hoje em dia, quando as coisas são completamente diferentes. Tem tanta coisa surgindo todo dia, e quando você não tem um centro de apoio, é muito fácil se afastar disso.

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Justin: Acho que o mais importante aqui é que antes de conhecer a Stacy, eu estava desviado do caminho, e quando a conheci, ela me trouxe de volta para a crença na vida em família bíblica e para o marido bíblico que devo ser. Acho que isso se alinha com vários princípios que eu já tinha, mas me desviei do centro disso.

Para ser um marido bíblico, você tem que saber muita coisa. Você tem que ser realmente dono dos seus padrões de comportamento num relacionamento. Você tem que conhecer quais são suas expectativas como marido e pai. Você vai ter que ser responsável por certas coisas para se comprometer com o casamento, e reforçar os padrões de comportamento nos seus filhos, para poder se ver um modelo e viver por esses padrões.

Andrea Gilliland, 24, e Colton Gilliland, 26
Casados há quatro meses

Colton: A Andrea morava com os pais dela quando fiz o pedido, e ela vem de uma família muito tradicional, então não tinha essa opção de morar juntos e tentar conviver antes de nos casarmos. Não estou dizendo que foi por isso que nos casamos — eu sabia que queria casar com ela — mas sabia que poderia não ser uma transição suave. Hoje em dia, muita gente começa a morar junto e testa essas águas, e se for tudo bem, eles arranjam um cachorro, depois se casam. Elas tem medo de entrar nisso de cabeça. Neste caso, ela era meio que obrigada a fazer isso por causa do jeito como foi criada, e eu sabia que a amava o suficiente para me casar com ela. Então demos esse passo e decidimos nos casar.

Andrea: Ainda fico chocada com estarmos casados. Às vezes olho para ele e penso "Meu Deus. Você é meu marido!" Eu não conseguia dizer a palavra marido nas primeiras duas semanas. Foi estranho. Claro que eu queria casar com ele, mas a transição foi difícil para mim. Sou muito próxima da minha família. Não fiz faculdade fora. Nunca tive colegas de quarto. Nunca morei num dormitório. Colton é a primeira pessoa com quem moro, e foi difícil. Mas eles me ajudou na transição. Chorei aqui e ali. Um dia depois do casamento, o apartamento parecia silencioso demais. Comecei a chorar e não sabia por que, mas ele conversou comigo e foi muito paciente.

Britt Tovar, 25 anos, e Isabel López, 25
Casadas há um ano

Britt: Sou ativista do casamento igualitário há anos. Já fui presa por fazer um protesto pacífico no Dia dos Namorados com uma organização chamada GetEQUAL, então sempre fui apaixonada pelo casamento igualitário. Mas quando eu protestava, eu não entendia os laços emocionais ligados à instituição do casamento como conheço agora.

Vim de um lar desfeito, então é fácil pensar em divórcio. Alguma coisa no fundo da minha mente está sempre dizendo "Você vai estragar tudo, ela vai acordar um dia e perceber que escolheu a pessoa errada". Essa é uma batalha constante — ter que calar essa voz, e focar no que realmente posso fazer para tornar o casamento uma boa experiência. Para mim, é assustador pensar em divórcio porque testemunhei isso, então essa perspectiva fatalista sempre vai estar lá, mas em termos de "para sempre", se a Isabel um dia quiser ficar com outra pessoa, ou ela quiser ir embora porque está infeliz, vou deixar, claro. Porque o objetivo final disso tudo é a felicidade.

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Faço tudo que posso para fazê-la feliz, e se ela não estiver bem, eu quero que ela fique. Isso seria egoísta.

Isabel: No dia em que casamos, a Britt estava trabalhando numa firma de advocacia onde eles ficavam com TV ligada nas notícias. Eu estava em casa e ela me ligou dizendo que a proposta de lei SCOTUS tinha sido aprovada, que os gays agora podiam casar. Então ela disse "Vamos! Vamos casar agora!" Achamos que eles podiam derrubar a lei, e que essa seria pelo menos uma chance de ficarmos casadas por alguns minutos. Então acho que, tecnicamente, foi ela que me pediu em casamento. Naquele dia, senti um pouco de culpa, porque eu via casais muito mais velhos que nós, que estavam juntos há muito mais tempo, e eles esperaram por isso a vida toda. Então comparando nós e eles, me senti um pouco culpada.

Sebastian Mendieta, 23 anos, e Kaitlyn Delaney, 24
Noivos há um mês

Kaitlyn: Somos um casal meio rápido. Nos conhecemos em agosto. Começamos a morar juntos em novembro. Arranjamos um cachorro. Começamos a falar em casamento em janeiro. Mas só ficamos noivos em maio. Porque como a nossa linha do tempo era muito corrida, a gente teve que parar um pouco e pensar "A gente não vai se casar só por causa do que os outros acham que é o tempo certo para fazer isso? Ou vamos fazer o que deixa a gente feliz?"

Fiquei hesitante no começo. Nem contei para alguns amigos que estávamos morando juntos, e muitos deles — talvez por culpa minha — ficaram surpresos quando ficamos noivos. Alguns amigos deram muito apoio, outros ainda não me disseram nada. Mas isso dói bem menos do que achei. Seja morando junto, noivando ou conhecendo a família um do outro, acho que todo passo que tomamos foi pensando "Eu sinto que é certo". Temos orgulho disso entre nós.

Sebastian: Venho de uma família divorciada. Vi quando minha mãe pegou meu pai a traindo. Eu tinha oito anos e lembro que foi traumático, ver minha mãe caindo e chorando. O relacionamento deles ficou danificado. Então eu tinha essa visão distorcida de casamento com base nos meus pais, mas, ao mesmo tempo, tenho tios e tias incríveis e vi que relacionamentos também se baseiam em trabalho de equipe. Esses casamentos não são perfeitos, mas você pode criar alguma coisa. Quando conheci a Kaitlyn, para mim, o casamento era o jeito final de mostrar para nós mesmos que tenho 100% de certeza que vejo um futuro com essa pessoa. Seja eu e ela viajando pelo mundo como melhores amigos, ou mais tarde, criando uma família. Queremos fazer algumas coisas antes disso, mas casamento é só um jeito de comemorar esse amor e comprometimento.

Angela Almeida é uma jornalista freelance que mora no Queens, Nova York. Ela já escreveu para The Atlantic, MSNBC.com, Elle.com, entre outros. Siga-a no Twitter.

Tradução: Marina Schnoor

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