Um dos infratores ouvidos pela reportagem foi preso por tráfico. Foto: Lucas Dantas/ VICE
O primeiro menor ouvido pela VICE conta que, quando foi pego pela terceira vez, era subgerente do tráfico na região. Por causa disso, ganhava R$ 500 por semana, fora as gratificações dos "plantões" realizados. Garantiu que, por mês, faturava, no mínimo, R$ 5 mil. "Entre o final de 2015 e 2016, nos feriados de Natal e Ano Novo, consegui tirar uns R$ 1,9 mil a cada um dos dias."Eu sempre procurei esse jeito mais fácil [de ganhar dinheiro] para tentar ajudar o meu pai.
Um dos menores infratores na Fundação Casa na unidade da Serra da Cantareira. Foto: Lucas Dantas/ VICE
O menor afirmou que, apesar de já ter traficado drogas pesadas, só fuma maconha. Falou também que o irmão frequenta uma igreja, estuda e, quando consegue, trabalha na feira para conseguir dinheiro. A irmã trabalha com carteira assinada em uma loja.A vida no crime dá com a colher e tira com a concha.
Crime por necessidade e revolta. Foto: Lucas Dantas/ VICE
O segundo interno da Fundação Casa entrevistado pela VICE, este de 16 anos, também somava três detenções — sendo a primeira por roubo e as demais por tráfico de drogas.A apreensão mais recente do garoto também havia sido feita depois da ação de policiais civis disfarçados. Pediram dois pinos de cocaína ao menor e, quando ele entregou a droga, afirmou ter sido jogado no chão. "Daí um dos policiais colocou a [pistola] 45 em minha cabeça e falou 'perdeu'. Aí eu falei, calma senhor, perdi, perdi. Daí me algemaram e me levaram para o 4º DP de Guarulhos." Nas duas vezes em que foi preso por tráfico, contava com 15 anos. Completou 16 dentro da Fundação.Entrei no crime por necessidade e também por revolta.
Quadra de esportes na Fundação Casa. Foto: Lucas Dantas/ VICE
Mais de 38% dos menores presos em São Paulo são acuados de tráfico. Foto: Lucas Dantas/ VICE
Nos oito primeiros meses de 2015, foram apreendidos, segundo a Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP), 13.515 adolescentes infratores em flagrante. Comparando com o mesmo período deste ano, quando 14.546 menores foram presos, há um aumento percentual de 7,6%.38% dos jovens detidos em SP são presos por tráfico de drogas.
Garotos não descartam voltar pro crime caso não consigam emprego depois da detenção. Foto: Lucas Dantas/ VICE
Além da análise feita pelas equipes da FC, o judiciário baliza sua decisão de privar a liberdade do adolescente, ou não, com base no processo em que o infrator é acusado. "Nós fazemos uma sugestão para subsidiar a escolha que cabe ao juiz [da Vara da Infância e da Juventude]."A encarregada de área técnica da unidade Serra da Cantareira, Ana Paula Soares, complementou que é analisada a "periculosidade" do ato infracional para que uma avaliação seja feita e, posteriormente, uma sugestão seja formulada favorável ou contrariamente à apreensão do menor.Usou como exemplo um caso de roubo em que o infrator ameaçou e agrediu as vítimas de forma brutal. "Quando analisamos os casos, levamos em consideração o histórico [criminal] do menor e as características da ação dele durante o ato infracional analisado."A diretora Célia Maria Dias, por fim, disse que os infratores costumam corresponder ao que se espera deles, incluindo comportamentos delinquentes e de rebeldia. "Nós observamos os menores e investimos para mostrar a eles o que eles têm de melhor. Já se você tratar como se fossem um caso perdido, também correspondem a isso."Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.Não podemos olhar somente o delito cometido pelo menor. Precisamos entender a situação [social, econômica e familiar] dele.
