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John Lennon era sexista e admitiu ter batido em mulheres

O mais emblemático Beatle batia no filho e disse que “são as pessoas mais violentas que defendem a paz e o amor”.
23.11.16

Foto por Ron Case via Getty.

Esta matéria foi originalmente publicada no Broadly.

Em agosto último foi o 44º aniversário do lançamento do disco solo de John Lennon Imagine, no qual ele pregava a paz mundial e uma harmonia sem fronteiras. Descrita pela revista Rolling Stones como "o maior presente musical de Lennon para o mundo", a música de mesmo nome fantasia sobre uma humanidade sem maldade e sofrimentos, sem posses, ganância, fome ou guerra. Talvez um sonho menos ambicioso fosse um mundo onde as pessoas não fosse tão escrotas quanto John Lennon.

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É difícil condensar a variedade e alcance da sacanagem de Lennon numa matéria curta, ainda mais quando a letra do maior presente musical para o mundo de um agressor mulherengo não sai da sua cabeça. Começando com seu primeiro casamento, com Cynthia Powell, a quem ele engravidou enquanto ela estava alugando seu quarto de infância para ele em Liverpool nos anos de Hamburg dos Beatles, Lennon fez muitas coisas que só podem ser classificadas como péssimas. Segundo a empregada de Lennon, Dorothy Jarlett, numa carta descoberta recentemente de 50 anos atrás, nos primeiros anos depois do nascimento de seu filho, Julian, Lennon era um pai ausente que criticava e até batia no sensível Julian por coisas como não saber se comportar à mesa. (E segundo Jarlett, "a educação de Julian à mesa é melhor que a média".) Durante seu casamento, Lennon transou com outras mulheres e deixava drogas "espalhadas pela casa". A gota d'água foi quando Lennon, bêbado, contou à Cynthia sobre seu caso com a artista japonesa Yoko Ono. Logo depois que Ono revelou estar grávida, o divórcio de Lennon finalmente foi concluído em 1968.

Ono acabou sofrendo um aborto, mas seu relacionamento com Lennon floresceu enquanto eles protestavam contra a Guerra do Vietnã e, como ela disse numa entrevista de 2012 para o numa entrevista de 2012 para o Telegraph, eles "arruinavam" suas carreiras juntos. Ono foi ridicularizada e desprezada por supostamente ter destruído a camaradagem cabeludinha dos Beatles, mas era Lennon que exigia que ela o acompanhasse nos ensaios da banda e até no banheiro. (Essa hipocrisia sexista talvez esteja sendo compensada hoje na forma da imagem pública atual de Ono: uma feminista sábia que já sofreu sua cota.) Lennon teve outro caso famoso durante seu relacionamento com Ono, com a assistente do casal, May Pang, mas Ono disse que o caso de 18 meses foi uma pausa bem-vinda do relacionamento intenso deles e que "não ficou magoada".

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É verdade que Lennon experimentou um intenso sofrimento mental, numa entrevista em 1980 para a numa entrevista em 1980 para a Playboy publicada dois dias depois que o ex-Beatle foi baleado e morto na frente de seu apartamento em Upper West Side — ele descreveu o ano de 1965 como seu "período Elvis gordo", durante o qual ele era "gordo e deprimido" e escreveu a música "Help!" como, sim, um pedido de ajuda. Ele e os outros Beatles estavam "fumando maconha no café da manhã", e Lennon frequentemente sofria "depressões profundas onde queria se jogar da janela". Lennon admitiu ter batido em mulheres — "qualquer mulher" — e explicou: "É por isso que sou sempre pela paz, sabe. São as pessoas mais violentas que defendem a paz e o amor". Mais tarde na entrevista, ele justificou seu hábito tabagista com sua dieta macrobiótica, dizendo "os macrobióticos não acreditam no grande C. Quer você considere isso uma racionalização ou não, os macrobióticos não acreditam que fumar seja ruim para a saúde". O que não é necessariamente prejudicial para qualquer um exceto ele mesmo, mas evidencia o complexo de Deus de Lennon e sua babaquice em geral.

"Bed-In for Peace", Lennon e Ono, 1969. Foto via Wikimedia Commons.

Uma possível explicação psicoanalítica para os problemas de Lennon é sua relação tumultuada com os pais. O pai de Lennon o abandonou — o que o Beatle nunca perdoou, apesar de seu pai ter se arrependido — e e numa confissão em áudio de 1979, Lennon revelou que quando era adolescente nutriu desejos sexuais pela mãe. Mais tarde ele se arrependeu de não ter tomado a iniciativa, dizendo "provavelmente ela teria aceitado". Há rumores de que Lennon teve casos homossexuais com Paul McCartney e com o empresário dos Beatles Brian Epstein, o que deve ter criado pressões internas para Lennon, mas claro, esses não são exemplos de mal comportamento do Beatle, exceto que esses casos provavelmente aconteceram quando ele ainda era casado.

Todas essas informações estão amplamente disponíveis, muitas delas vindas da boca do próprio Lennon, ainda assim, nossa fascinação cultural — próxima do martírio — com o homem persiste. Me dói admitir que também já fui culpada dessa complacência; dos 12 aos 15 eu usava uma camiseta do John Lennon usando uma camiseta de Nova York de cor azul. O fato de eu ter comprado a camiseta num outlet e provavelmente não ter contribuído com seus lucros não ajuda muito a acalmar minha consciência culpada, mas me conforta saber que nunca toquei o White Album durante meus turnos como barista. Como qualquer millennial, tenho lá minha queda por um inglês descolado narigudo e de óculos, mas aí já é demais.

Tradução: Marina Schnoor

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