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Fui Incansavelmente Assediado pela Mídia Depois de Cortar meu Próprio Pênis

Em vez de me desejar uma recuperação rápida, eles me assediaram constantemente e fizeram tudo ao seu alcance para me derrubar mentalmente.

Andre Johnson, também conhecido como Christ Bearer.

No ano passado, uma das maiores histórias relacionadas a doenças mentais no mainstream dos EUA foi o caso de Andre "Christ Bearer" Johnson, um rapper ligado ao Wu-Tang Clan que cortou o próprio pênis depois de usar PCP (pó de anjo) num episódio de depressão profunda. O frenesi da mídia cercando o caso foi intenso: ele foi de um rapper conhecido apenas no underground para as manchetes de quase todos os jornais e as revistas de fofoca. Foi bullying em grande escala, com jornalistas da grande mídia zombando dele por um ato de autoflagelação potencialmente mortal. Decidi entrar em contato com ele para saber mais sobre o impacto que as ações da imprensa tiveram em sua recuperação. A matéria a seguir é uma narração de seus pensamentos sobre o caso.

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2014 não foi exatamente meu ano. Eu tinha me perdido numa névoa de desespero depois que a mãe das minhas filhas me impediu de vê-las e sentia que nada daria certo. Quando pensei que a situação não podia piorar, isso aconteceu de modo dramático. Eu estava fumando maconha e PCP um dia, tentando amortecer a miséria da minha vida com drogas, quando perdi todo o contato com a realidade e dei um passo insano: cortei meu próprio pênis e pulei da janela. Pensamentos sombrios e destrutivos passavam pela minha cabeça sob influência do pó de anjo, e eu pensei: "Foda-se. Talvez as coisas sejam melhores se eu não puder mais ter filhos, já que as coisas vão tão mal com aqueles que eu já trouxe para este mundo".

Felizmente, sobrevivi ao incidente. Foi um episódio horrível que teria destruído um homem menor, mas sou membro da Nação Original do Islã e acredito no espírito indomável de Alá Todo Poderoso, que permeou meu ser e permitiu que eu me recuperasse. Entretanto, esse ato horrível de autoflagelação foi apenas o começo do meu calvário. Infelizmente, vivemos numa era em que a mídia vê doenças mentais como um show de circo. Em vez de me desejar uma recuperação rápida, eles me assediaram constantemente e fizeram tudo ao seu alcance para me derrubar mentalmente.

A tempestade de merda na mídia foi inacreditável. Enquanto eu deveria estar focado em melhorar e ainda tinha mais duas cirurgias pela frente, fui bombardeado por repórteres de quase toda publicação existente, o que obrigou o hospital a me mudar de quarto constantemente para que eu tivesse alguma privacidade. Claramente, a imprensa estava mais preocupada em rir de um episódio quase mortal do que com o fato de que perdi a vida.

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Quando tive alta do hospital, minha depressão foi agravada por celebridades por quem antes eu tinha grande consideração. Elas faziam piadas às minhas custas numa tentativa de lucrar com a minha desgraça. Alguns podem argumentar que pedi por essa situação ao usar drogas, porém, quando a história chegou às manchetes, a mídia não sabia que eu estava usando PCP na época. Eles chegaram a relatar que foi a depressão, não o abuso de drogas, que me levou ao incidente. Eles não queriam me apresentar como um exemplo dos perigos das drogas – só queriam vender cópias de suas publicações capitalizando em cima da minha tragédia pessoal. O locutor de rádio Charlamagne chegou a me rotular como "A Besta do Dia", uma posição que ele reservava em seu programa para pessoas que faziam ou diziam algo idiota. Isso mandou uma mensagem não muito positiva para pessoas lutando com problemas mentais. Também fui ridicularizado por grandes jornais com ampla circulação, cujos jornalistas deveriam ter mais consciência do problema.

Segundo o professor David Lester, da Universidade de Estocolmo, que estudou suicídio entre pessoas famosas, tratar celebridades assim coloca a vida delas em perigo. "Isso é similar ao bullying virtual, o que frequentemente resulta em suicídio", ele atesta. "Os transtornos psiquiátricos aumentam o risco de suicídio."

Sou conhecido apenas nos círculos do rap, então não consigo imaginar o que pessoas mais públicas passam quando sofrem uma doença mental. A opinião do professor Lester é similar à de Patrick Corrigan, do Instituto de Tecnologia de Illinois e editor do livro The Stigma of Disease and Disability. "Zombar das doenças mentais das celebridades não só piora os desafios delas como contribui para os estigmas da doença mental", ele destaca. "O estigma pode ser tão problemático quanto os sintomas da própria doença."

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LEIA: O Guia VICE da Saúde Mental

Felizmente, eu tinha minha fé para me ajudar durante essas tribulações. Nossos valores determinam o que fazemos na vida, e a crença em ser seu próprio Jesus é uma parte integral da Nação Original do Islã. Sou o deus do meu próprio mundo, então a mudança tinha de vir de dentro. Ascendi acima de todas as críticas, fiz piadas autodepreciativas sobre meu acidente para manter os espíritos elevados e continuar fazendo música na esperança de empoderar outros.

O fato é que a mídia é cúmplice em contribuir com o estigma sobre questões de saúde mental. Uma mudança radical é necessária, ou vamos continuar na idade das trevas, na qual as pessoas que sofrem de problemas psicológicos vão continuar a ser rejeitadas e tratadas com figuras de diversão. A mídia define as opiniões da sociedade, mas também as reflete; então, assim como fui o responsável definitivo pela minha recuperação, somos todos responsáveis por fazer a mudança que queremos ver.

Espero que isso aconteça em breve, porque é algo extremamente necessário.

Visite o site de Christ Bearer ou siga-o no Twitter.

Tradução: Marina Schnoor.

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