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Μodă

Sanduíche Cool

Os Paninari são a única tribo jovem batizada com nome de sanduíche. Fast food era chique, gringo e moderno na Itália em 1982.
Jamie Clifton
London, GB

Os Paninari são a única tribo jovem batizada com nome de sanduíche. Fast food era chique, gringo e moderno na Itália em 1982. Os italianos passaram maior parte da década anterior vivendo em um país em crise, lidando com terroristas domésticos de esquerda e de direita que curtiam muito se explodir, além de explodir figuras políticas e econômicas.

Política não tava na agenda do Paninaro, eles só queriam se divertir, abraçar tudo que era norte-americano, usar roupas de grife e ouvir synth-pop britânico. Eles odiavam música italiana. Os primeiros Paninari eram jovens que vinham de algumas escolas particulares de Milão, que foram de férias para a Califórnia e para os Alpes Italianos, e se encontravam no Il Panino, a primeira sanduicheria de Milão.
“Paninaro” do Pet Shop Boys. Uma ode ao pop e aos bons tempos.

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Eles usavam botas Timberland, jaquetas de aviador, jaquetas da Levi’s forradas de pelo sintético, jaquetas coloridas da marca Moncler ou Stone Island, jeans da Levi’s, Armani e Stone Island e meias Burlington. Eles também tinham suas próprias revistas: The Paninari – que chegou a publicar 100 mil copias em um determinado ponto – Wild Boys, Zippo Sandwich, Preppy, e a revista feminina Paniara, Siffty.

É tentador pensar “E daí? Tinha a molecada que era rica e a molecada que queria parecer rica, grande coisa,”, mas grande parte das bandas que os Paninaro curtiam começou meio new pop –uma obsessão super intelectualizada de bandas britânicas pós-punk em fazer musica pop. Então tinha algo pop, a estética mais difícil do mundo de explicar – é grande, brilhante, novo, e te dá uma afirmação de vida – no ar nos anos 80. Hollywood por exemplo, e todo esse lance pós-moderno que tava todo mundo curtindo antigamente. Talvez fosse só uma celebração,  talvez seja isso que acontece quando uma geração cresce pela primeira vez sem ter medo de guerra ou pobreza, ou opressão política ou sexual, quem sabe? Mas o materialismo realmente tava com uma cara bacana.

Eventualmente, porque os Paninaro obviamente não eram skins, punks ou chineses, um grupo extremamente esquerdista de garotos de Milão que faziam questão de não estarem na moda – muitos bad boys e fascistas – foram atraídos pelo estilo.

É meio difícil falar com alguém que saiba alguma coisa sobre os Paninaro.

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Felizmente, o diretor de arte e designer gráfico, Enrico Priondi, que agora mora em Nova York, é filho do fundador da marca favorita dos Paninaro, Best Company. E ele sabe uma cacetada de coisas sobre eles.

VICE: Ei Enrico, nos conte sobre a sua conexão com o Paninari.
Enrico Pirondi: Bom, meu pai foi CEO da Best Company, que era uma marca de roupa que fazia blusas de boa qualidade. Na época eles estavam revendendo por tipo, 200 liras, que era o equivalente a US$200 nos anos 80. Eram umas roupas bem coloridas, cheias de bordados e inspiradas nas escolas da Ivy League norte-americana, mas com um lance italiano. Então foi uma marca ideal para os Paninari e acabou sendo uma marca que definiu uma sub- cultura.

Uau, então você realmente estava conectado ao movimento. Você se envolveu sozinho na cultura Paninaro?
Eu era jovem na época. Quando tudo isso aconteceu eu tinha por volta de 13 anos de idade. Então por inércia eu acabei parecendo um Paninaro porque era jovem e estava usando roupas coloridas, mas eu perdi a parte principal da coisa por alguns anos.

Qual era a média de idade dos Paninari?
Hmm, eu diria por volta de 15 a 16 anos. Velhos o suficiente para comprarem lambretas, sabe? Mas daí acabou expandido para pessoas de 20 a 30 anos também, mas eram predominantemente jovens. As pessoas mais velhas não se pareciam tanto com os verdadeiros Paninari, eles só usavam as roupas e tudo mais.

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Da onde surgiu realmente surgiu esse lance todo do Parinari?
Começou em Milão. Inicialmente era uma moda milanesa, mas obviamente, ela acabou espalhando para todas as outras cidades grandes da Itália. Então é, começou em Milão no começo dos anos 80 e era basicamente a garotada fazendo rolê de lambreta na frente de fast foods Italianos, que eram chamadas de Burghy. Na verdade, os verdadeiros Paninari eram quem ficava no Al Panino, que era uma sanduicheria em Milão.

Era de lá que eles tiraram o nome?
Sim, exatamente.

E de onde veio a influência norte-americana?
Bom, você sabe, eram os anos 80 e esse visual norte-americano era realmente popular, então eles pegaram esse visual almofadinha e fizeram uma versão italiana. Então eles tinham a Best Company, que era uma companhia italiana, e também tinham botas da Timberland, por exemplo. Era praticamente um uniforme.

Que mais fazia parte do uniforme?
Bom, tinham os jeans enrolados da Armani, botas enormes da Timberland no inverno e sapatos de marinheiro no verão, fivelas enormes estilo norte-americano e óculos Ray-Ban. Eles também usavam muito Moncler e Invictus.

Cores bem claras?
Sim, muitas coisas com cores claras. Roupas bem coloridas e tudo tinha uma marca.

Tinha alguma peça chave que todos tinham que ter? Tipo Dr. Martens para os punks, etc.
Ah, era Best Company, com certeza. Você tinha que ter.
O verdadeiro hino Paninaro era a musica “Wild Boys” do Duran Duran, uma revista Paninaro rival usou o nome dessa música.

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A cultura girava mais em torno das roupas ou havia outros aspectos?
Sim, a maior parte era sobre a apresentação e o visual da coisa toda. Obviamente tinham outras coisas, como por exemplo, a época em que a televisão abraçou essa cultura. Alguns programas surgiram na época especificamente para esse público. Musicalmente falando, tinha muita dance music e obviamente os Pet Shop Boys fizeram aquela música que foi totalmente aceita pelos Paninari. E também tem um artista italiano chamado Jovanotti que era considerado um falso quando ele apareceu, porque ele era um italiano que fazia hip-hop nos anos 80 antes de ter estourado como estourou agora, mas os Paninari o aceitaram completamente.

Os Paninari chegaram a se infiltrar na moda comercial da época? As pessoas usavam o visual em campanhas e coisas do gênero?
Sim, definitivamente, porque na época era a coisa que mais estava estourando. Eu me lembro de algumas campanhas para a Best Company que foram feitas na Califórnia com modelos norte-americanas tentando recriar o visual Paninari.

Que tipo de pessoas eram os Paninari? Qual era o passado deles geralmente?
Eram normalmente pessoas de classe média e classe média alta, porque as roupas que eles estavam comprando eram realmente caras, sabe? Então eles eram relativamente ricos. Ou isso ou eles estavam gastando todo o dinheiro dos pais.

Houve alguma evolução no estilo Paninaro?
Bom, depois de um tempo eles trouxeram essa revista, o Diario Paninaro, com, tipo, um mapa de lugares onde eles estavam se encontrando, dicas de estilo e outras coisas do gênero. Então, sim, suponho que o visual evoluiu, mas não houve mudanças muito significantes no uniforme original. Ah, e outra coisa que tinha na revista era o dicionário Paninaro.

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Ha ha, quais eram algumas das palavras?
Tinha El gallo, que queria dizer “O Galo” – o cara legal, o líder ou o que seja. Daí tinha sfitinzia. Não tem uma tradução exata pra essa palavra, mas era o nome de uma garota que estava sempre perto dos Paninari.

O que eles faziam quando eles se encontravam? Eles não parecem ser a sub-cultura mais pervertida de todas.
Não, de jeito algum. Era mais sair e ir para baladas. Que é basicamente o que a garotada faz mas mais focada no estilo – que nem os mods, eu acho. Coisas normais, mas era tudo visual e roupas.

Quando essa cultura começou a sumir?
Provavelmente pelo final dos anos 80 que começou a sumir.

Teve alguma coisa a ver com os programas de televisão?
Sim, olhando em retrospecto, acho que era. Era o início dos canais Berlusconi e o programa Drive In estreou nas noites de domingo. Era um daqueles típicos programas noturnos com montes de comediantes, mulheres voluptuosas, coisas estúpidas, sabe?

Coisas no estilo do Berlusconi.
Sim, totalmente. Mas eles não estavam mexendo com os Paninari nem nada. Tinha um comediante que se vestia como um Paninaro – mais como uma caricatura, não tinha nenhuma maldade.

Ainda existem Paninari por aí?
Vestidos desse jeito? Não. Mas eu escrevi um artigo sobre os Paninari faz uns quatro anos e um cara me falou que alguns dos Paninari originais ainda se encontram ocasionalmente, mas eu me mudei para os Estados Unidos nove anos atrás, então não tenho muita certeza.

TEXTO POR JAMIE CLIFTON
TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR