NebraskaAlexander PayneA minha avó tem 87 anos. As maleitas da velhice perduram há muito tempo: apesar de não andar, todos os dias faz a sua caminhada de fé. É muito religiosa. Reza uma dezena de terços por dia e acende velas por tudo e por nada. Já lá vai o tempo em que me compensava com rebuçados por cadaPai Nossoque eu debitava sem me enganar. E também já lá vai o tempo em que tentei dizer-lhe que não acredito no Jesus, e que não vou para o Inferno por me portar mal. Mas desisti da batalha de a convencer porque, como ela diz, " burro velho não toma andadura e se a toma pouco dura". Não vale a pena arreliá-la por coisas que nunca vão mudar. Todos os dias lhe telefono e todos os dias se despede de mim pedindo que reze ao santo protector. Para a proteger, digo que sim.
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É mais ou menos esta a relação entre David Grant (Will Forte) e Woody Grant (Bruce Dern), emNebraska. O filme começa em Billings, Montana, onde mora Woody, um velho casmurro, com uma sanidade mental gasta pelo tempo e pelo álcool. No entanto, uma carta de publicidade manhosa, que lhe promete um milhão de dólares, dá um novo sentido à sua vida monótona: ir até Licoln, no Nebraska, para receber o dinheiro que acredita ter ganho e investi-lo numa camioneta e num compressor.Nem os sermões da mulher resmungona (June Squibb), nem os apelos desesperados dos filhos ou os conselhos da polícia conseguem travar o seu devaneio e impedi-lo de se fazer à estrada com a determinação cambaleante típica da idade que carrega.Vencido pelo cansaço e complacente com o sonho tolo do pai, o filho mais novo, David, decide acompanhá-lo nestas centenas de quilómetros. Numa viagem cheia de percalços, avistam-se as paisagens de uma América profunda e desencantada, mostram-se os rostos sôfregos da ganância, desespera-se com a apatia de velhos operários e cowboys nos seus quotidianos vazios, revolta-nos o oportunismo da família disfuncional que os Grant revisitam, agonia-nos o vazio das memórias, mas sobretudo, rendemo-nos à cumplicidade entre um pai senil e um filho tolerante.Diz-se que se volta a ser criança quando se chega a velho. Há sempre uma mistura entre a fragilidade e a teimosia, a decadência física e mental superadas numa altivez estóica e desamparada. E Bruce Dern interpreta de forma soberba esta amargura infantil de Woody, que fala apenas com meros grunhidos de desprezo e acenos de cabelos brancos ao vento.A melancolia de Alexander Payne, neste road movie, vai no banco da frente até ao Nebraska. Olhando a espantosa fotografia monocromática de Phedon Papamichael, pelos caminhos do interior americano onde a cor não chegou, a ouvir a banda sonora nostálgica e ternurenta de Mark Orton.