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Tecnologia

O Benito Muros quer mudar o mundo e começou pelas lâmpadas

Questionar a tecnologia.
11.7.13

O Benito Muros é um empresário de Barcelona que, por ter inventado uma lâmpada sem ciclos de vida limitados, tem sido alvo de chantagens e ameaças de morte. Falei com ele e fiquei a saber que é um empresário benfeitor, uma espécie de chefe que relega o lucro da sua empresa, a OEP Electrics, para segundo plano. Por detrás de tudo, diz que está uma vontade de mudar o mundo e já tem planos para o fazer. VICE: Olá Benito, como vais?
Benito Muros: Bem, e tu? Está tudo ok, mas acabei de ler que foste ameaçado de morte
Pois, é verdade. Queres falar do que se passou?
Eu decidi fabricar uma lâmpada que durasse o máximo que a tecnologia permitisse e que, além disso, pudesse ser reparada. Os problemas surgiram depois desta estar fabricada e comercializada. Primero, recebi uma oferta monetária para que não a comercializasse, depois foram ameaças e agora é o descrédito na internet e nas redes sociais. De que descrédito falas?
Os vendedores de lâmpadas tradicionais e os distribuidores das marcas habituais falam mal de mim na internet. Fazem-no com nomes falsos, é claro. Se calhar, isso é sinal de que estás a fazer o teu trabalho bem. Depois de teres enfrentado um negócio aparentemente viciado, parece-me normal que sejas um alvo.
Tenho noção de que vou vender poucas lâmpadas. Nenhum distribuidor ou intermediário as quer. Mas o meu objectivo não é vender, mas sim chamar à atenção para a necessidade de mudar o nosso sistema económico actual, baseado no consumo e no desperdício, no deitar fora e comprar. Conta-me como surgiu a ideia de criar uma lâmpada que não se estragasse ao final de um período pré-definido.
Em 1999, viajei até aos EUA e descobri a famosa lâmpada do parque de bombeiros  de Livermore, na Califérnia. Na altura perguntei-me: "Se há 100 anos era possível produzir uma lâmpada que durasse tanto tempo, por que é que agora isso já não é feito?" Foi aí que esbarrei com o conceito de "obsolescência programada". Na prática, os produtores de todo o tipo de produtos electrónicos fabricam esses mesmos produtos de forma a que durem pouco tempo, com o objectivo de lucrar economicamente, para que o consumidor tenha de comprar mais vezes a mesma coisa. Decidi divulgar estas práticas ao mundo, mas, apesar de serem indecentes e fraudulentas, ninguém quis saber e nem sequer acreditavam na minha história. Foi por isso que decidi fabricar estas lâmpadas. Tudo por causa de uma viagem. E essa lâmpada de Livermore, ainda brilha?
Foi uma viagem de férias. Encontrei essa lâmpada por acaso, continua acesa depois de 112 anos, podes vê-la na internet. É uma atracção para os turistas. Isso é muito fixe!
Mas não fiz isto para vender lâmpadas. Apenas para chamar a atenção e para dizer ao mundo que as coisas se podem fazer de outra forma, sem enganar ninguém, sem destruir o planeta e sem usar recursos de que não se precisa. Não é preciso emitir CO2 desnecessariamente, nem estar sempre a comprar coisas de que não precisamos. Sim, a qualidade dos produtos que são feitos em massa e vendidos em grandes superficies diminuiu. Estou a lembrar-me de vestuário, móveis de grandes superfícies…
Exacto, e além disso são fabricados em países onde não se respeitam os direitos humanos, ou os direitos laborais. É por isso que devemos alterar o nosso modelo económico. Mudar o modelo económico. É esse o teu objectivo?
Sim. O meu objectivo passa por reunir todos os movimentos sociais porque só se olharmos à nossa volta é que poderemos ver a realidade. Os movimentos sociais existem e lutam apenas por aquilo que os afecta. Mas, na realidade, aquilo que os afecta é o modelo baseado no crescimento permanente, que favorece a corrupção política e a concentração de riqueza que está cada vez em menos mãos. Os bancos, as grandes fortunas e as multinacionais já controlam as matérias-primas, os preços, a dívida pública, etc. Mas vamos ao que importa: como fizeste a lâmpada? Foste mesmo tu?
Não, contratei vários engenheiros. No início, sem lhes dizer para quê, pedi-lhes que fizessem vários testes com diferentes materiais. Isto até dar com cada um dos componentes que resistem, e que basicamente já eram utilizados antes, quando não se praticava a obsolescência programada. Isto está resumido. Não foi assim tao fácil. Como se limita a durabilidade de um produto?
Depende do produto. Se estivermos a falar de uma lâmpada fabricada com tecnologia led, podes fazê-lo de várias formas. Contudo, as marcas mais conhecidas utilizam fontes de alimentação comutáveis. Nestas fontes de alimentação usam condensadores electrolíticos, e são esses condensadores que permitem determinar a vida útil de um aparelho com uma variação de horas. É por isso que as lâmpadas têm a garantia em horas de vida. Normalmente têm um líquido, um produto químico altamente contaminante, que se vai secando consoante as horas de funcionamento, é como se fosse um depósito que fica vazio. Mas para elucidar os leigos na matéria, não se trata de criar uma nova tecnología, mas antes de adaptar a actual e retirar os componentes que limitam os produtos, certo?
Sim, é mais ou menos isso. Aliás, o objectivo é que seja os produtos sejam reparáveis. No total, em todo o mundo, deitam-se fora sete mil milhões de lâmpadas por ano. Esta é a primeira lâmpada do mundo patenteada que é consertável. Até onde é que podes levar isto? Faço-te esta pergunta porque o meu telemóvel tem dois ou três meses e a bateria já está viciada.
Normalmente fabricam-nos para que aguentem só um ano. Pois, já tinha lido algo sobre os reduzidos ciclos de vida dos telemóveis. Estás a pensar comercializar outros produtos?
Sim, é essa a ideia. Agora podemos produzir um frigorífico, uma máquina de lavar, praticamente qualquer electrodoméstico que dure muitos anos e que seja verdadeiramente reparável, e ao qual possamos adicionar os últimos avanços tecnológicos. Chegámos a um acordo com o governo cubano para montar uma fábrica em Havana. Em Cuba eles sabem apreciar o facto de as coisas durarem muito tempo. Mas agora que falámos de telemóveis, deixa-me perguntar-te: não te preocupa também a lentidão com que a tecnologia é colocada à disposição do público? Se pensarmos nos telemóveis, ou na industria automóvel, parece-me óbvio que as evoluções entre versões são ligeiras.
Sim, é o que se chama de obsolescência da percepção. Quando lançam um produto já têm desenvolvida toda uma gama de produtos seguinte, com alguma desculpa estúpida para que os compremos. De uma forma ou de outra, no final é uma questão de lucro.
Sem dúvida. As multinacionais baseiam-se todas no factor económico e nunca na dinámica social. Quer dizer, não as preocupa que os seus produtos acrescentem algo à sociedade, apenas ganhar mais dinheiro a cada ano que passa. E agora, para o futuro, que projectos tens?
Em Setembro vou lançar no meu site um novo projecto económico, político e social, que passará pela sustentabilidade a partir de todos os âmbitos da sociedade. Talvez seja um pouco ingénuo, mas gostava de mudar as coisas. Vais começar uma carreira na política?
Não, o objectivo é unir todos os movimentos sociais para lutar e mudar o modelo económico actual, que não esteja baseado em crescimento, nem no capitalismo especulativo, criador dos 1800 milhões de pobres no mundo, pessoas que sobrevivem com menos de um dólar por dia. Um modelo que fez com que se concentrasse a riqueza do mundo em oito por cento da população, e que opera através de paraísos ficais, endividando os países e as pessoas utilizando os excedentes do dinheiro que obtêm para produzir coisas de pouca duração, para controlar a dívida soberana dos países e submeter às pessoas o controlo dos preços e das matérias-primas, criando necessidades onde elas não existem, etc.