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Música

Cassetes: Oliwa

Selo Inner Islands, uma casa californiana cada vez mais sagrada.

Time Immemorial

Inner Islands

Passo horas e horas com os ouvidos colados a discos de música ambient (muitos deles à porta da amálgama curativa que é a new age), quase sempre na esperança de que algum me traga uma recompensa que faça valer a pena todo o processo. Duas semanas sem encontrar nada é um período suportável, mas a partir daí a procura começa a assemelhar-se a uma viagem pelo deserto. Eis que pego então numa cassete da Inner Islands — casa californiana cada vez mais sagrada — sabendo de antemão que o EP de

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Hear Hums era excentricamente cativante

e pouco mais. Desta vez a escolha recaíria sobre

Time Immemorial

, cassete de Oliwa, com um recorte de paisagem montanhosa na capa e toda a pinta de ser mais uma colheita que mistura drone e ambient num só cabaz.

Mas

Time Immemorial

 não é definitivamente um disco qualquer. Ainda que as suas primeiras quatro faixas sejam mornas e nem por isso muito distintas, assim que termina “Filosofia Natural” — na posição número cinco — fica a sensação de termos acabado de escutar um milagre em termos de música capaz de sugerir a atmosfera de um mundo à parte. Tudo é sublime na composição de “Filosofia Natural”: seja um coro angélico que pode ter saído de vozes ou apenas de instrumentos, ou o balouçar de um som metálico que se vai perdendo à medida que entram em cena os sintetizadores panorâmicos inspirados pelo gigante Cliff Martinez (talvez ele o grande esteta da ambient dos últimos 20 anos). Todas as palavras arriscam ser escassas para explicar o que se passa em “Filosofia Natural”, mas a verdade é que tem o seu lugar assegurado entre peças igualmente magníficas como “Deep Blue Day”, de Brian Eno, ou “Song One”, de Ethan Rose. Logo depois, “Tundra” encerra a cassete com um feeling que lembra Pedro Magina com os dedos sobre o velhinho Casiotone.

E a autoria do disco está claramente escondida atrás de uma música que dispensa uma contextualização biográfica ou associação a uma qualquer identidade — daí que não me tenha sequer preocupado em investigar quem é ou quem são os Oliwa. Na sua página de Bandcamp, a Inner Islands não adianta muito mais acerca do artista em catálogo e descreve esta cassete com uma só frase: "Explorações interiores. Paisagens em auto-revelação." Alguns dos tags — "Argentina, pastoral, magic" - garantem outras pistas, mas nada disso deve interferir na relação com o disco.

Time Immemorial

 merece ser uma experiência tão pura como a de dois peitos nus que se encontram sem ruído ou chachada pelo meio. Nem sequer me importo que a comparação soe a conversa de guru espiritual em modo TEDx. Por ser tão bonito, Time Immemorial desarma-nos de sarcasmos e convence-nos uma vez mais de que a ambient salva dias numa época tão apressada quanto esta. Está aqui uma das cassetes essenciais deste ano.