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cinema

O toque de Philip Seymour Hoffman

Para o James Franco, o Philip Seymour Hoffman esculpia personagens como ninguém.

Por James Franco
06 Fevereiro 2014, 6:20pm

Philip Seymour Hoffman em 
The Master.

Não conhecia o Philip Seymour Hoffman pessoalmente. Só o vi algumas vezes ao longo dos anos. A primeira vez foi no início de 2000 numa casa de banho no MCC Theater, durante o intervalo do The Glory Of Living, a peça protagonizada pela Anna Paquin e que ele dirigiu. Chocámos um com o outro, mas não dissemos nada. Na altura, fiquei nervoso e não consegui meter conversa. Lembro-me de o ouvir soltar as gargalhadas mais altas na sala e fiquei comovido com o apoio que dava aos actores em palco. A segunda vez que nos vimos foi em 2006, numa das festas anuais dos Óscares no Beverly Hills Hotel. Foi no ano em que ganhou o Óscar por Capote. E vocês sabem como essa noite acabou: o Philip Seymour Hoffmand ganhou o Óscar de Melhor Actor e fez um grande discurso em homenagem à sua mãe que ainda hoje ecoa na minha cabeça.



E que grande ano esse para os actores. O já falecido e grande Heath Ledger estava nomeado pelo Brokeback Montain e o Joaquin Phoenix (pré-mocumentário) tinha impressionado toda a gente com a sua performance em Walk The Line. Mas foi o Philip que nos relembrou o poder do toque. Há uns dias, alguém chocado por ver um actor que parecia ter o mundo nas mãos atirar tudo pela janela, comparou o Philip ao Brando. Não acredito que o Hoffman tenha atirado tudo pela janela, mas concordo com a segunda parte. O Philip, tal como o Brando, tinha um poder inato. A sua cara tinha o peso de um martelo. Acho que o Philip sabia isso e usava esse factor da mesma forma que o Brando — cobrindo-a com um toque suave. Recordem o On The Waterfront, o The Wild One, o The Godfather, ou o Last Tango in Paris, e verão um furacão contido pelo véu de seda de um homem elegante a falar com timbre de poeta. Recordem o Happiness, Magnolia, Capote, Mission Impossible III, Charlie Wilson’s War e Doubt, e verão a força de um actor americano a interpretar personagens suaves — dando-nos soco no estômago atrás de soco no estômago com uma interpretação profunda da humanidade. Tal como o Marlon Brando, o Philip mostrava-nos a poesia das emoções verdadeiras.

O Philip atingia-nos, ano após ano, com a sua magia constante, fosse qual fosse a personagem. O que o colocava ao nível de camaleões como o Daniel Day Lewis, Meryl Streep e Benicio Del Toro era a sua forma escultural de actuar. Por escultural quero dizer que as suas personagens pareciam profundamente esculpidas. Do The Master a Along Came Polly, todos as suas personagens tinham uma qualidade indestrutível. Como Miguel Ângelo disse do seu próprio trabalho: “vi o anjo na mármore e esculpi até o libertar”. É assim que as personagens do Philip se sentem — como se fossem pessoas reais a viver as suas vidas profundas e esquisitas, puxadas para o ecrã para demonstrar o lado mais intenso de si próprias. Mas o Philip não demonstrava só realismo, tingia também cada uma das personagens com grandeza, o que nos leva de volta à ideia da escultura — as suas interpretações tinham uma qualidade lapidar. Eram mais duras do que humanas, mas estavam simultaneamente abençoadas com a faísca da humanidade. Eram mais humanas que os humanos.

As suas personagens serviam sempre o filme. Nunca foi de roubar as atenções, mas as suas interpretações brilhavam de forma inevitável. Tanto que a principal coisa de que geralmente nos lembramos de um filme com o Philip é a parte em que o Philip aparece.


Philip Seymour Hoffman em Capote.

A primeira vez que vi o Philip foi em Scent of a Woman. Mas foi o devoto de Dirk Diggler em Boogie Nights que me conquistou. Vejam-no a punir-se depois de se atirar ao Dirk de Mark Wahlberg e verão o material mais tocante desse filme. Mas o trabalho dele é todo fantástico. Vejam só aquela cara maldosa de “Vai-te foder, cabrão” que o Philip atira ao Matt Damon em The Talented Mr. Ripley, enquanto o Matt e o Jude Law mudam para jazz numa loja de música. Tão maldoso e tão bom. Vejam como a cena do troco na cafetaria em Charlie Wilson’s War para terem noção da realidade, ou vejam a cara de gozo que exibiu enquanto bebia vinho no papel de padre em Doubt. Transmitia tanta vida em comportamentos tão pequenos. Mas a minha interpretação favorita do Philip está em The Master como Lancaster Dodd. É a minha favorita porque é o seu melhor trabalho com o seu melhor colaborador, Paul Thomas Anderson. A interpretação tem um poder sublime, de alguma forma maior do que as partes. Como Lancaster Dodd, foi simultaneamente um génio e um louco — uma delas a metade da equação do verdadeiro Philip Seymour Hoffman: génio? Sim. Louco? Não. Do que ouço dizer, era uma das pessoas mais doces que por cá já andaram.

A última vez que vi o Philip foi no Bar Centrale, um teatro-restaurante, em que apareceu com um grupo que incluía o Chris Rock, o Zach Braff e uma data de grandes actores de teatro. Na altura, li que o Philip tinha passado uma temporada em reabilitação por causa de problemas com a heroína. Fiquei chocado porque ninguém pensa que uma pessoa que toda a gente considera fenomenal possa ter esse tipo de problemas. Mas fui parvo, porque o vício não tem em conta personalidades. É uma doença, não uma questão de vontades, classes sociais, inteligência ou estilos e vida. Não faço ideia daquilo que aconteceu ao Phil antes de ser encontrado morto, mas um amigo contou-me que o viu no dia anterior e que ele parecia feliz. Isto diz-me que o Philip não era alguém de desistir. Não atirou tudo pela janela. Era apenas alguém — muito especial — que estava doente. A sua morte é chocante para todos porque a sua grandeza o tornava aparentemente invencível. Pelo menos, toda a arte incrível que nos deixou deve garantir-lhe uma nova oportunidade.

Descansa em paz, Phil. Vais viver sempre nos corações daqueles a quem o teu trabalho conquistou.