Quão perto de Deus já chegou o Homem?

Investigadores brasileiros aplicam ferramenta que ajuda a entender experiências místicas através do uso de substâncias alucinógenas.

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abr 14 2017, 5:50pm

Foto por John Stephen Dwyer/WikiCommons

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Motherboard Brasil.

Há 55 anos, na Sexta-Feira Santa de 1962, o investigador norte-americano Walter Pahnke cometia um acto, que para muitos pode soar a sacrilégio, mas que, na verdade, não poderia estar mais distante disso. Sob orientação do guru da cultura psicadélica, Timothy Leary, o também pastor Pahnke deu psilocibina a um grupo de estudantes no interior da capela Marsh, na Universidade de Boston. O objectivo era avaliar se a substância facilitaria uma experiência mística.

Psilocibina, para quem não sabe, é o componente químico que faz dos cogumelos algo mágico. Nascia, então, a chamada Escala de Experiência Mística.

Quem conta a história é Eduardo Ekman Schenberg, neurocientista ligado ao Instituto Plantando Consciência, que, desde o início do ano, encabeça a equipa de tradução e validação da Escala para o Brasil. Pode parecer conversa de malucos, mas a Escala de Experiência Mística é uma ferramenta importante para cientistas interessados em investigar a interacção entre as tais experiências e terapias e tratamentos para diversas patologias. "Validar este instrumento, permite que estudos feitos no Brasil possam ser comparáveis aos do exterior", diz Eduardo. E acrescenta: "É como fazer a fundação da casa".


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A Escala é composto por 30 itens (eram 43 originalmente), que abarcam seis características de uma experiência mística: sacralidade ("Sensação de reverência", por exemplo), qualidade noética ("O indivíduo está convencido agora, quando avalia a sua experiência passada, de que encontrou a realidade definitiva"), unidade ("Percepção, da vida ou de uma presença viva em todas as coisas"), humor positivo ("Sentimentos de paz e tranquilidade"), inefabilidade ("Sensação de que a experiência não pode ser descrita adequadamente através de palavras") e transcendência de tempo e espaço ("Experiência de atemporalidade").

Para cada um desses itens, o sujeito do estudo atribui um grau de 0 a 5 de intensidade. No final, o investigador determina se houve ou não uma experiência mística. "Um estudo norte-americano que considerou a psibilocinila no controlo do tabagismo, por exemplo, identificou que os participantes que tiveram uma pontuação mais alta responderam melhor ao tratamento", diz Luís Fernando Tófoli, psiquiatra e coordenador do Laboratório de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos (Leipsi), da Unicamp, que também participou na validação da Escala.

A psilocibina tem sido a referência usada em investigações do género no estrangeiro, mas não é o único fio condutor possível. Para garantir que a Escala de Experiência Mística se adequava à realidade brasileira, foi feito um levantamento com 1504 pessoas, que utilizaram algum tipo de substância psicadélica. LSD (35,6%) e Ayahuasca (42,3%) lideraram o ranking - apenas 10,1% dos sujeitos tinham anteriormente utilizado psilocibina, ou cogumelos.

"Esta foi outra vantagem da validação, aproximar este instrumento de substâncias como a Ayahuasca", afirma Eduardo. Com uma característica mística intrínseca ao seu consumo (na maior das vezes, vá), a Ayahuasca é bastante estudada no Brasil, mas esta é uma nova referência que pode ser utilizada. "No Leipsi, daqui para a frente pretendemos utilizá-la para todos os nossos estudos, tanto clínicos como experimentais", diz Tófoli.

Também não é necessário o envolvimento de qualquer tipo de substância para o uso da Escala de Experiências Místicas. Rituais de umbanda e outras cerimónias religiosas, meditação, hipnose, enfim, o caminho está aberto. "A espiritualidade faz parte da vida, mas ela ainda é vista como sendo só uma coisa sobrenatural em vários campos", considera Eduardo. E conclui: "É importante mudar essa perspectiva".


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