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Um Médico Diz que em Breve Humanos Serão Capazes de Hibernar

Na Holanda, Dr. Rob Henning e sua equipe trabalham com a hibernação induzida para tornar cirurgias mais seguras e diminuir os danos de algumas doenças.

Crédito: Mosaic

O trabalho do Dr. Rob Henning como anestesista inclui manter estáveis a circulação e a oxigenação dos pacientes para minimizar o dano causado durante uma cirurgia. Não é tão surpreendente assim o fato de que ele, em algum ponto no início dos anos 90, começou a pensar em hibernação.

O atrativo de uma hibernação induzida na medicina é claro: o paciente teria um batimento cardíaco mais lento, o que resultaria em um menor sangramento, e precisaria de menos oxigênio para alimentar seus órgãos. Seu sistema imunológico também não teria uma reação exagerada a lesões e outros traumas.

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Aprender como induzir a hibernação também poderia levar a medicamentos e tratamentos capazes de diminuir os maus sintomas provocados por doenças como diabetes e Alzheimer. Em longo prazo, afirma Henning, um verdadeiro teórico do assunto, a hibernação induzida poderia até ajudar os humanos em coisas como viagem ao espaço.

"A hibernação é ótima para a anestesia geral", Henning me disse ao telefone, em holandês. "Mas à medida que nosso conhecimento foi crescendo, atentar à questão de lesão de órgãos foi uma transição meio que natural."

Só tem um probleminha: mesmo nos dias de hoje, ninguém entende muito bem como a hibernação funciona. Biólogos que estudam animais em hibernação só conseguem medir algumas funções corporais, como o ritmo cardíaco e a temperatura corporal. O mecanismo que causa a hibernação — a forma exata como esses animais desaceleram processos essenciais em suas células — é completamente desconhecido.

A cultura celular continha uma alta concentração de sulfeto de hidrogênio, ou H2S, o que lhe dava um cheiro peculiar. Era o que estava protegendo as células.

A pesquisa que o Dr. Henning está fazendo agora na UMCG em Groningen, na Holanda, pode e quer mudar isso.

O estudo de Henning parte da premissa que animais que não estão em hibernação sujeitos a um frio extremo sofrem grandes danos em suas células e órgãos; animais em hibernação, por outro lado, não sofrem quase dano algum.

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Quando, digamos, um hamster, recebe os sinais corretos — dias encurtando, escassez de comida e temperaturas em queda — ele começa a se preparar para a hibernação. Ele se enche de comida ao ponto de desenvolver os mesmo sintomas de alguém sofrendo de diabetes tipo II. Depois encontra um lugar confortável e começa seu longo sono.

Se uma pessoa fica deitada por muito tempo, os resultados podem ser bem ruins. O sangue começa a coagular e os músculos começam a se atrofiar. Hamsteres não sofrem essas consequências, apesar de demonstrarem sinais dos mesmo danos que humanos sofreriam: os pulmões passam por mudanças semelhantes à asma e o cérebro é danificado de forma semelhante a de alguém com Alzheimer. Mas quando o hamster acorda, todo esse dano desaparece sem deixar vestígio.

O metabolismo desacelerado não poderia ser a única explicação para esse fenômeno, me disse Henning. Tinha que haver processos nas células do hamster que o protegessem daquele dano. Um desses processos foi acidentalmente descoberto pela equipe de Henning.

Resfriar células costuma ser o mesmo que assinar um certificado de óbito. Coloque algumas células humanas ou de ratos num congelador e elas não sobreviverão por muito tempo. Então você pode imaginar a surpresa quando um grupo de células de hamster foi esquecido num congelador por um dos alunos e encontrado vivo uma semana depois. Com cheiro de ovo podre, mas vivo.

A cultura celular tinha uma alta concentração de sulfeto de hidrogênio, ou H2S, o que lhe dava um cheiro peculiar. A equipe suspeitou que a produção dessa molécula poderia ter um papel maior na proteção das células.

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Suas suspeitas se provaram corretas. Uma enzima que estimula a produção de H2S continua ativa nas células de hibernadores quando estas são congeladas. Em não-hibernadores a enzima foi "desligada" depois de uma certa temperatura.

Quando os pesquisadores começaram os experimentos em células de ratos, ativando a enzima durante o resfriamento, eles descobriram que as células poderiam ser mantidas a 5ºC por alguns dias e sobreviver. Em outros experimentos eles descobriram quais componentes estimulavam a produção de H2S, e desenvolveram uma série de medicamentos experimentais que tinham o mesmo efeito.

Para pessoas que trabalham com cultura celular, essa descoberta foi bastante revolucionária. Anteriormente as células podiam ser preservadas apenas se fossem congeladas. Esse processo danifica as células e também forma cristais de gelo que matam muitas delas. Agora as células podem ser refrigeradas em curta hibernação por alguns dias e permite que os experimentos sejam adiados para depois do final de semana, o que provavelmente foi motivo de alegria dos alunos.

E tem mais.

Henning e sua equipe estão testando esses componentes em ratos vivos— espécies que não hibernam. "Estamos observando os efeitos dos compostos que desenvolvemos, e eles parecem proteger animais de lesões de órgãos", disse ele.

O rato é anestesiado e injetado com esse composto. Quando os pesquisadores resfriaram o rato, descobriram que ele foi repentinamente protegido da coagulação sanguínea, de lesões de órgãos e de outros efeitos do resfriamento.

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"O dano causado por resfriar e aquecer é muito similar ao dano causado por inflamações", disse-me Henning. "O dano é causado pelo mesmo mecanismo em ambos os casos: radicais de oxigênio".

Diabetes tipo II é uma doença caracterizada pela grande quantidade de radicais de oxigênio que danifica o corpo. O mesmo acontece na doença de Alzheimer. Esse composto poderia impedir o dano.

"Por favor, note que esse composto não faz nada contra a diabete em si, mas desacelera ou impede que ocorra intensamente o dano que normalmente ocorreria", Henning acrescenta.

Porém, levará um tempo para vermos esse tipo de medicamento no mercado. O desenvolvimento foi assumido por uma empresa chamada Sulfateq, que validará o composto em não-hibernadores, como ratos, antes de aplicá-lo em testes com humanos.

O próximo passo seria usar esses compostos e processos durante grandes cirurgias para diminuir a temperatura do paciente de forma segura.

E depois disso? A European Space Agency pediu a Henning para ser o consultor do seu grupo de reflexão para longas missões espaciais — então, se tudo der certo, nem o céu é o limite.

Tradução: Julia Barreiro