Tá na hora de ouvir umas verdades sobre o zika vírus
Cientistas em laboratório pesquisando uma vacina. Crédito: Vincent Moncorgé/Sanofi Pasteur Flickr

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Tá na hora de ouvir umas verdades sobre o zika vírus

Em meio a tantos textões, notícias falsas e boatos, o que de fato os médicos e pesquisadores podem afirmar sobre essa zika que nos amedronta?

Ao batermos os olhos nas nossas timelines e nos principais sites de notícia do mundo, só lemos uma coisa: zika, zika everywhere. Você já deve ter reparado que as conclusões acerca desse temido vírus variam do dia para noite e muitos dados sobre ele são, para dizer o mínimo, pouco confiáveis.

Esse mar parado de informações duvidosas se deve à urgência de pesquisas científicas que, não é segredo, exigem muito tempo para serem testadas, analisadas e comprovadas. Como todos querem uma resposta para ontem, vemos pipocar um monte de textões anti-científicos – sem sombra de teste, análise ou verificação. Os boatos correm solto e todos ficam perdidos, afogados.

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Mas, afinal, o que podemos afirmar com certeza sobre o zika vírus? O que ele causa? Qual a relação com a microcefalia? Por que algumas pessoas não apresentam sintomas? O que podemos fazer? Precisamos eliminá-lo? Qual a melhor solução? Ou melhor, há alguma solução?

Bem, a ciência ainda não tem resposta para todas essas questões, mas possui pistas valiosas. Para chegar perto delas, fomos ao encontro de pesquisadores que nos informaram o que, por ora, é o mais importante: aquilo que o vírus não é. Abaixo, num formato de oráculo, dizemos o que se sabe sobre o zika e o que precisamos decifrar antes que ele nos devore.

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Afinal, como se pega o vírus?

Em primeiro lugar, por meio do mosquito. Da mesma forma como acontece com a dengue, o Aedes aegypti é o maior transmissor de zika. Ele não produz o vírus; na verdade, carrega-o de um lugar para o outro e, de picada em picada, vai contaminando as pessoas.

Outra forma de contágio, ainda que mais rara, é por meio de relações sexuais. Nos EUA, foi confirmado um caso de transmissão sexual do vírus que está sendo investigado pela OMS. O Dr. Renato Kfouri, médico da Sociedade Brasileira de Infectologia, alerta que o esperma é um possível transmissor em casos esporádicos. "A gente não pode dizer que esta é uma via de transmissão importante, mas há casos na literatura médica", conta. "Como a gente ainda não sabe com certeza qual é o papel da transmissão sexual, a recomendação para maridos que estão com suspeita de zika vírus é usar métodos de barreira."

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Pode pegar via esperma. Anotado. E saliva? Tipo, se eu beijar alguém…

Parece que não. Na sexta-feira pré-carnaval, uma notícia de que o zika poderia ser transmitido pela saliva deu um sustinho, mas nada foi comprovado até então. Os especialistas alertam que ainda não há evidências de transmissão via oral, mas que o vírus é resistente e pode sobreviver em fluídos orgânicos. "Temos comprovação de que o zika pode ser transmitido pelo líquido amniótico, pela placenta, pelo sangue, pelo sêmen. Isso é verdadeiro", afirma o Dr. Thomaz Gollop, professor livre docente em genética da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Ok, dei o azar e peguei o vírus. E agora, o que acontece com meu corpo?

Apesar do seu azar, você ainda pode ter a sorte de pegar zika e nem sentir nada. Sequer saber. Cerca de 80% das pessoas que contraem o vírus apresentam sintomas de uma "dengue leve" ou não apresentam nada. Dores de cabeça, no corpo, um pouco de febre e umas manchas podem aparecer, mas nada que uma ressaca já não tenha feito você sentir. Segundo os médicos, os sintomas somem em até sete dias. Não existe tratamento para a síndrome, o procedimento é igual ao da dengue: muita água, paracetamol ou dipirona para diminuir a febre e aliviar a dor. Aí passa.

Agora, se você tiver entre os 20%, os sintomas podem se apresentar de forma mais grave e você ter que passar uns dias no hospital. Há relatos também de pessoas que contraíram a síndrome de Guillain-Barré devido ao vírus, mas são casos mais raros, de acordo com os médicos. O que essa síndrome comprova é que o zika tem atração pelo tecido nervoso, diz o Dr. Gollop. "Ela compromete os nervos periféricos, ou seja, dos membros e da respiração", afirma. "Esses indivíduos que estão numa fase de baixa resistência entram em contato com o vírus e manifestam a síndrome por meio de dificuldade de mobilização de pés e mãos no começo e, depois, vai evoluindo até dificuldade respiratória que exige que a pessoa tenha assistência respiratória em UTI."

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Podemos afirmar com certeza que o zika vírus causa a microcefalia?

Nesse ponto, as opiniões se dividem. Uma equipe de pesquisadores eslovenos afirma com certeza de que o zika é responsável pela microcefalia depois de analisar os órgãos do feto de uma jovem que foi contaminada no Rio Grande do Norte. Ela interrompeu a gravidez na Eslovênia e os cientistas encontraram o vírus no feto. Para a OMS, o vírus é culpado até que se prove o contrário.

O Dr. Gollop, no entanto, afirma que é preciso parar de falar somente em microcefalia. Isso é um erro primário, diz. O que o vírus causa deve ser chamado de "síndrome do zika congênita" e a microcefalia é apenas uma das sequelas. Nos casos de microcefalia associados ao zika, o bebê pode apresentar doenças neurológicas muito graves e lesões oftalmológicas. O que já foi comprovado, segundo o médico, é que o vírus chega ao feto por meio da placenta e altera a formação do sistema nervoso.

Mãe dá banho em um balde no filho com microcefalia em Poco Fundo, Pernambuco. Créditos: Associated Press/Felipe Dana.

O que é, de fato, a microcefalia?

Por definição, a microcefalia não é uma doença, mas sim uma condição do bebê que apresenta uma cabeça menor do que o normal de 32 centímetros. Pode ter várias causas: falta de oxigênio durante o parto, causas genéticas ou por infecções como rubéola e toxoplasmose. Em um caso de microcefalia comum, a criança apresenta algumas limitações cognitivas; já nos casos de zika, as sequelas neurológicas são muito mais graves.

E além da microcefalia, o que mais a "síndrome do zika congênita" pode causar?

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A microcefalia não é regra na síndrome do zika congênita. Ao atravessar a placenta, o vírus pode causar uma encefalite, uma inflamação no cérebro que pode ter como consequência uma atrofia cerebral devido à dilatação de uma área do cérebro chamada ventrículo. Além disso, de acordo com o Dr. Gollop, o bebê pode apresentar sérios problemas auditivos, complicações dos nervos oculares e calcificações cranianas.

Qual é o verdadeiro risco para as grávidas?

Ainda não se sabe por que algumas grávidas que apresentaram sintomas de zika tiveram crianças com a síndrome e outras não. "Nós não sabemos dizer ainda qual é o real risco de uma gestante ter um bebê com comprometimento. O risco existe, mas ainda não conseguimos estimar o tamanho desse risco", diz o Dr. Kfouri.

Um grupo de pesquisa na USP liderado pela Dra. Mayana Zatz está estudando se existe algum gene que predispõe o desenvolvimento da síndrome. Os pesquisadores ainda não têm resultados certos, mas é algo que pode responder a muitas perguntas caso seja confirmada a hipótese. Em todo caso, a indicação para as grávidas é, primeiramente, não entrar em pânico. Em segundo lugar, optar por roupas que cubram o corpo e passar repelente pelo menos três vezes por dia, além de evitar lugares que tenham criadouros de mosquito.

As gestantes poderão abortar?

No Brasil, o aborto é permitido em apenas três casos: gravidez resultante de estupro, risco de vida para a mãe ou feto anencéfalo. Um grupo de ativistas está redigindo um pedido que deve ser votado no STF para aprovar o aborto em casos de suspeita de contaminação da gestante pelo zika vírus. Enquanto isso, as mulheres têm buscado no aborto clandestino uma opção para interromper a gravidez e a crise pode dar abertura para uma mudança na legislação sobre o aborto no país.

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Larvicidas e outras substâncias podem causar microcefalia?

Não. Apesar do que disseram médicos argentinos na semana passada de que o larvicida Pyriproxyfen seria a causa do surto de microcefalia nas Américas, a informação já foi desmentida pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva. O governo do Rio Grande do Sul caiu na pegadinha e acabou proibindo o uso da substância no estado, mas isso pegou bem mal na opinião do Dr. Kfouri. "É um desserviço muito grande, algo de bastante crítica de toda a comunidade científica, foi um grande equívoco essa suspensão contrariando o Ministério da Saúde e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Não há relação possível, nada documentado", disse.

Também correu solto o boato de que vacinas vencidas estariam causando o surto de microcefalia em algumas regiões do país. O Dr. Gollop frisa que isso não tem fundamento. Não existem substâncias que podem causar microcefalia. "Isso é um mito, não tem nada de verdade nessa história. Inclusive tem alguns malfeitos nessa história porque você começar a dizer que vacina causa essas anomalias é extremamente pernicioso, na medida em que a vacinação é uma das poucas coisas na saúde pública no Brasil que funciona muitíssimo bem e deve continuar funcionando bem", afirma.

Qual é o tamanho da epidemia, hein?

Grande. Já foram notificados mais de cinco mil casos de microcefalia desde outubro de 2015, cerca de 500 deles obtiveram confirmação de relação com o vírus e 3.965 casos estão sendo investigados, segundo o Ministério da Saúde.

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No início de fevereiro, a OMS declarou estado de emergência global devido à epidemia, o que está movendo esforços internacionais para entender melhor o vírus. A União Europeia anunciou que vai liberar uma verba de 10 milhões de euros para investir em pesquisas e a OMS aprovou 56 milhões de dólares para investimento em campanhas de conscientização, cuidados com as pessoas afetadas, vigilância e pesquisa. O governo brasileiro criou a Rede Zika, voltada para estudos sobre o vírus. Os pesquisadores também estão recebendo apoio de órgãos de fomento à pesquisa, como a FAPESP e a Capes.

E as áreas de maior risco para contágio?

Todas as regiões do Brasil registraram a presença do vírus, segundo o Ministério da Saúde. A região Nordeste é a mais crítica. A Colômbia também está num estado crítico. Apesar de ainda não ter confirmado nenhum caso de microcefalia, suspeita-se que cerca de 25 mil pessoas já estejam contaminadas pelo vírus, colocando o país em segundo lugar, depois do Brasil, com mais alto risco de contrair zika. No total, 33 países já receberam a visita do vírus, sendo a maior parte na região da América Latina.

O Estado tem culpa?

Bom, tem sim. Não é de hoje que todo mundo sabe que a dengue mata e que os números têm crescido. Foram mais de um milhão e meio de casos em 2015, segundo o Ministério da Saúde. Para os especialistas, esse número revela que há um grande descaso com saneamento básico no país. "Era esperado isso acontecer porque não há um cuidado com a saúde pública", critica o Dr. Gollop. Mesmo contando com mais de 150 de história de "luta contra o mosquito", o Brasil ainda não descobriu como colocar em prática um meio eficiente de conter as epidemias das doenças que ele carrega.

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O fato é que o número de casos de zika também deve crescer enquanto a população de mosquitos não for controlada. Além disso, segundo informações da Folha de S. Paulo, houve uma subnotificação dos casos de microcefalia no país, sugerindo uma fragilidade nas estatísticas oficiais do país. Isto é: o problema é grande desde muito antes de eclodir a epidemia.

Repelente vendido no Brasil para combater o mosquito Aedes aegypti, vetor dos vírus da dengue, da febre chikungunya e da Zika. Crédito: Juca Varella/Agência Brasil

Estão falando de uma vacina. Esse plano é realista?

Sim. O Instituto Butantan e a Fiocruz estão apostando nesse caminho, mas deve levar algum tempo até que a vacina esteja disponível. O processo de desenvolvimento da vacina contra zika é o mesmo de qualquer vacina: fase de estudo do vírus, testes iniciais em animais para determinar se o elemento de composição da vacina é seguro e, por fim, testes em humanos.

O diretor da Divisão de Ensaios Clínicos e Farmacovigilância do Instituto Butantan, Dr. Alexandre Precioso, afirma que não há dificuldades técnicas na produção da vacina e que o vírus tem se mostrado muito mais estável do que o vírus da dengue, por exemplo, que tem quatro tipos diferentes. "Até agora não foi identificada nenhuma mutação [do zika], mas é um vírus novo", diz o diretor. Isso tudo pode levar de três a cinco anos, mas pode ser extremamente benéfico. O objetivo da vacina, diz o Dr. Precioso, é imunizar as pessoas ao vírus.

Eliminar todos os Aedes aegypti seria uma solução mais rápida?

Pode parecer uma boa ideia, mas não. Fazer o mosquito desaparecer poderia criar um pequeno caos no ecossistema e não temos muita ideia de quais seriam as consequências.

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Tá, parece uma má ideia mesmo. Tem alternativa?

Tem. A curto prazo, controlar a população do mosquito é a melhor alternativa para conter a transmissão do vírus. Aquela boa e velha dica de não deixar água para em pneus, garrafas, vasinhos de plantas da casa da sua avó e essas coisas. Isso evita focos de criadouro do mosquito e que ele saia espalhando vírus por aí.

A longo prazo, cientistas estudam modificar o Aedes aegypti geneticamente para que ele não transmita mais doenças. Mas isso vai demorar, claro.

O que mais a ciência ainda não conseguiu responder?

Por ser uma novidade, o mecanismo de funcionamento e as mutações do vírus ainda são pouco claros para os pesquisadores. Eles também têm dificuldades em determinar por que algumas pessoas apresentam sintomas da síndrome e outras, não.

Panfleto distribuído pela OMS para prevenir o zika. Crédito: OMS

Outro ponto que não está claro é se quem pega zika uma vez e se cura pode pegá-lo de novo. Em outras palavras: se, assim como ocorre com a dengue, os infectados criam anticorpos. Ao que tudo indica, as pesquisas relacionadas à vacina poderão responder essa pergunta.

Vai ficar tudo bem?

Tava ruim, tava bom, aí parece que piorou. Mas depois melhora de novo. A ciência vai nos ajudar.