


Sim. Já há muitas mulheres a trabalhar fora e os homens a ajudarem em casa e, idealmente, as coisas parecem estar a ser mais partilhadas. Confesso que quando cá cheguei contava ver-te a ti a fazer remendos e dei de caras com outras pessoas (voluntários) de agulha e linha não mão. Mas o artista não és tu?
Tenho muitos projectos participativos, este é apenas um dos muitos que tenho. É muito importante para mim que não seja eu a fazê-lo. Não se trata de cultura icónica e não se trata de algo feito por um artista que faz algo gratuitamente, tem a ver com um estranho que faz uma prenda a alguém, a outro estranho. E isso é bastante mais belo que ser o Lee Mingwei a fazê-lo. E ainda por cima eu não falo português e a ideia é que quem traz a peça se sente com o remendador. A comunicação e a partilha são importantes… Conceptualmente, representa as relações. Em Dezembro, podem vir buscar as peças e levá-las para casa. Qual a diferença entre deixar cá uma peça e na costureira?
Para começar, o tempo. Uma costureira ou um alfaiate estão cá todo o ano. Possivelmente é uma profissão que vem de família e não o fazem gratuitamente. Usa linhas o mais invisíveis possível. A ideia é que não se note. Eu aqui quero que seja muito visível e colorido. É uma espécie de celebração do corte no tecido. O facto de te dares ao trabalho de trazeres esta peça de roupa para ser remendada diz muito da forma que te relacionas com a peça. Como vieste parar a Guimarães?
Começou em 2009. Trabalhava com uma galeria em Nova Iorque e tinha o meu trabalho em Liverpool. A Gabriela [Vaz-Pinheiro] viu-me e gostou do meu trabalho e pensou nele para a Capital da Cultura em 2012. É muito interessante ver isto numa CEC, mais do que numa galeria de arte contemporânea, porque aí o público já vem preparado para o que vai ver. O mais interessante de estar aqui é que muita gente nunca experimentou trabalhos artísticos participativos ou cujo conceito de fundo seja esse. E é uma lufada de ar fresco. Mas atenção: este projecto não é suposto ser para decorar: é para reparar. Decorar e reparar é totalmente diferente. Estás a par da tradição têxtil da cidade?
Sim, tal como em Liverpool, quando o projecto lá esteve em 2010. Esta cidade também passou de um tempo de apogeu a uma grande crise, porque muitas das indústrias se mudaram para a Ásia. Já não é um ganha-pão viável por lá e acho que foi por isso que a Gabriela achou que este projecto faria sentido aqui. Para além do remendo em si, o que está atrás da ideia?
Quero que tragam as peças e falem com o remendador, que deixem a peça ficar até ao fim do ano, para nesse momento cortarmos os fios que saem dos rolos. Tudo isto é uma metáfora de qualquer coisa?
Sim, porque somos feitos de várias camadas, tal como este projecto que nasceu em 2001, quando vivia perto do World Trade Center com o meu companheiro, que lá trabalhava, e no dia 11 de Setembro se atrasou para ir para o trabalho. Escusado será dizer que a ele o safou da morte, mas perdemos centenas de amigos e colegas. Nessas semanas, comecei a remendar tudo o que tinha em casa. Embora nunca tenha sentido uma urgência política, tive a necessidade de consertar alguma coisa. A roupa. A segunda pele. Só em 2009 percebi que podia fazer este projecto para estranhos, como uma prenda. E assim nasce o “Mending Project”.