FYI.

This story is over 5 years old.

cenas

Quartos de putos mortos

Um projecto mórbido e comovente em partes iguais.
11 May 2012, 3:30pm

O Room’s Project de Miranda Hutton consiste numa série de fotos de quartos de crianças mortas. É um tema muito pesado, por isso ligámos-lhe para descobrir como é que ela lida com a cena durante a execução destes comoventes retratos.

VICE: Olá Miranda! Como surgiu este Room’s Project?
Miranda Hutton: Bem, há muito tempo atrás, quando tinha uns 17 anos, uma amiga minha morreu com cancro. Os pais gostavam muito que nós, os amigos, fossemos lá a casa, mesmo depois de ela ter morrido, e que entrássemos no seu quarto. Aquele quarto era uma coisa importante nas nossas vidas – costumávamos conviver lá com bastante frequência. Pouco tempo depois, a minha mãe morreu. Acho que foi por ter perdido entes queridos que comecei a contemplar o significado que os espaços e objectos ganham quando as pessoas desaparecem.

É uma forma racional de lidar com a perda. Começaste a fotografar o quarto da tua amiga logo depois de ela morrer?
Não, ela morreu há quase 20 anos, mas eu só comecei a tirar as fotos por volta de 2003-2004.

O quarto não mudou muito durante esses anos?
Nem por isso. Mas, na verdade, pouco antes de ir para o hospital e morrer, ela reorganizou e deixou tudo arrumado, aquele quarto sempre foi uma completa bagunça, então a mãe pensou que era assim que a filha queria que o quarto ficasse. Eles não o limparam durante anos. De tal forma que ela pegava num vaso e sabia onde o voltar a pousar graças às marcas de pó à volta.

Ugh.
Eu sei. Só depois de eu começar a fotografar é que as coisas mudaram, acho eu. Parecia haver algum significado no facto de eu tirar fotografias e pedir-lhes para falar das memórias que estavam guardadas lá em cima. É um quarto que demorou muito tempo a mudar, mas aos poucos começou a ser usado como um quarto de hóspedes pelos netos. Ainda tem praticamente a mesma decoração, mas foi limpo e reorganizado.

Estás a dizer que o projecto ajudou os pais da tua amiga a seguir em frente?
Não. Acho que não ajudei de forma alguma, mas há uma espécie de modo universal das pessoas se agarrarem às coisas nos primeiros estádios de sofrimento e depois, lentamente, largá-las. As minhas fotografias representam um momento no longo processo de luto. Mas eu acredito que partilhar histórias com os pais ajuda.

Certamente deves ter tirado fotos do quarto durante estádios diferentes?
Eu passei muito tempo a fotografá-lo. Em alguns momentos até pensei em fazer filmes para mostrar o progresso, mostrar como ele passava da escuridão para a luz e do claro para o escuro, para que pudessem ter uma melhor noção de como era ou não era utilizado.

As fotografias foram tiradas com uma grande angular, e com luz natural que entrava das janelas.
Sim. No começo eu fazia close-ups do quarto, mas depois comecei a afastar-me e a fotografar a partir da porta, pois achei que era um pouco menos intrusivo dessa maneira. Já tinha uma ideia formada de como queria fotografar os quartos – ângulo amplo com câmaras de médio formato – no momento em que comecei a trabalhar na série. Sem flash ou qualquer coisa demasiado intrusiva.

Suponho que pedir aos pais para te deixarem entrar nos quartos dos filhos deve ser, no mínimo, estranho. Como encontraste estas pessoas?
A maior parte foi de boca em boca. Muitas vezes os pais enlutados formam grupos de apoio e foi isso que os pais da minha amiga fizeram. Foi através de um desses grupos que três outros pais entraram em contacto comigo e perguntaram se poderiam fazer parte do projecto. Também escrevi sobre o projecto em alguns sites de luto, porque muitos deles têm secções de pesquisa. Então, comecei um par de coisas a partir daí, mas a maioria foi de boca em boca.

As crianças têm algo em comum, em termos de idade ou causa de morte?
Nem por isso. Há toda uma gama de acidentes de carro, doenças e idades. A sala de luz azul pertencia a uma das crianças mais velhas, o que acho que se nota pelo modo como está arrumado e pelo facto de não ter muitas coisas de criança, excepto as imagens na parede.

Assemelham-se a retratos vintage que se penduram em cima da lareira nas casas antigas.
Não é nada disso. São apenas retratos de uma banda que ela gostava muito. Não me lembro do nome, mas ela deve tê-los recortado de uma revista, e acho que estavam autografados. Quer dizer, eles eram obviamente importantes, para ela os pendurar em cima da cama.

Existe um quarto ao qual te sentes mais ligada?
Para mim, todos têm uma história única. Eu crio laços muito fortes com os pais que conheço. Como podes imaginar, não é o tipo de coisa onde posso ir fotografar e depois sair imediatamente. Tenho que investir bastante tempo em explicar-lhes para o que é – porque estou a fazer isto, o que espero obter do projecto – e, então, eles contam-me as suas histórias sobre o quarto e sobre a sua perda. Cada quarto representa circunstâncias diferentes, logo não seria capaz de escolher um entre todos.

Quais as coisas mais interessantes que observaste, enquanto trabalhavas no projecto?
Uma delas é que muitos deles acabam por ser lugares onde as malas e coisas desse género são armazenadas, o que achei bastante simbólico, pois significa seguir em frente. Mas, depois, há o quarto roxo, que fotografei há quatro anos e onde senti que as coisas ainda não tinham mudado nada. Parecia que ainda os magoava bastante – pela forma como o tinham mantido tão imaculado. Mas há outros quartos em que vês que as coisas estão a seguir em frente. Como o quarto laranja, que a mãe começou a usar como estúdio de arte. Outra coisa interessante é que mesmo quando elas mudam, a decoração é normalmente mantida e eles estão sempre a chamá-lo de "quarto de tal e tal”… O quarto da Susan, ou o quarto da Alison… No entanto, não estou qualificada para dizer o que é um “bom” ou “mau” luto, ou o que as pessoas deviam estar a fazer. O único comentário que faço é que isto é um processo diferente para cada casal.

Já ouviste críticas por causa da sensibilidade do tema?
Sim. Muitas vezes as pessoas não conseguem ir para além do tema. Eu sei que é um assunto realmente pesado, mas parte da razão por que faço isto, é porque não só os pais têm de sofrer com a perda, mas também têm de sofrer com o isolamento que surge das pessoas não saberem como abordá-los por causa do tamanho da tragédia. Alguns dos pais dizem que as pessoas atravessam, literalmente, para o outro lado da estrada, para evitá-los. Mas a perda não é uma experiência isolada, é algo que todos nós temos que passar em algum momento das nossas vidas.