



Fernando Martins: É simples. Eles adoptaram o espaço e assumiram-se como anfitriões, porque fazem parte do processo. Ainda antes de chegarem os Esterni, fui a uma reunião de comunidade (de uma outra iniciativa da Câmara Municipal de Guimarães) e tentei explicar o que se iria passar aí. Claro que nem todos perceberam, pois isto não é propriamente uma coisa comum. Aliás, entre as pessoas que se disponibilizaram logo para ajudar, alguns questionaram-me de forma céptica o objectivo daquilo que pretendíamos fazer. Uma das coisas que mais me satisfaz contar é que essas mesmas pessoas são agora defensoras do projecto e zelam pelo espaço. Ao longo do processo houve muito trabalho do colectivo e dos voluntários, não só prático e de construção, como de diálogo porta-a-porta com a vizinhança e com quem passava por ali e perguntava o que se passava. Por exemplo, a Mafalda, uma jovem lisboeta que trabalhou com os Esterni, ouviu cada uma das histórias e desejos dos moradores. Estes, percebendo a honestidade e vontade de quem ali trabalhava para melhorar o bairro, retribuíram com carinho e muita amizade. Estas coisas não se compram. Fazem-se acontecer de coração aberto. Começamos bem, portanto. Além da requalificação de Couros, é evidente o envolvimento da população e a aposta numa programação sólida e, ao mesmo tempo, livre. Esqueci-me de alguma coisa?
Ui. Fica tanto por dizer. A questão é que esta porção de terreno tornou-se num local especial, aberto a todos, com o que de bom e de mau que daí possa advir. Em horas diferentes do dia acontecem dezenas e dezenas de momentos programados ou casuais, que possibilitaram uma experiência diferente, para todas as faixas etárias. Desde os jogos mais elaborados à simples possibilidade de poder fazer "casinhas e estradas" com pedaços de madeira, as crianças percebem sem explicação o potencial do espaço. Depois, mesmo que não exista um evento planeado, há sempre um banco onde nos podemos sentar, ouvir os pássaros e a água do Couros a correr, sozinhos ou acompanhados. Mas se pensarmos bem, não há ali nada de extraordinário, para além de umas tábuas de madeira aplicadas com muita mestria. Todo o resto estava lá: as casas, o rio, as pessoas, para não falar nos tanques, onde muitos se sentam quando já não existe mais espaço na praça. Há espaços incríveis à espera de serem redescobertos, que só precisam de um pouco de atenção. Bem verdade. Acredito que tens tido um feedback excelente do que se tem passado no espaço…
De facto, tenho ouvido muitas boas reacções ao projecto. E nem falo dos moradores, pois estes já fazem parte, à partida. O mais gratificante é mesmo perceber através de comentários descomprometidos que a cidade também adoptou o espaço como sendo seu. Um utilizador assíduo dizia mesmo que aquela era a nova "baixa" da cidade. Achei brilhante, porque o local encontra-se fora da rota da topografia vimaranense…
Claro que não existe bela sem senão, e alguns utentes da praça acabam por utilizar o espaço de forma menos apropriada. Há já alguns danos irreversíveis, mas, na minha opinião, também são sinais do processo de crescimento e de afirmação do espaço. Ser para todos implica também ser para os menos civilizados. Claro. Agora que quase moras aqui, o que achas do local? Os vizinhos são fixes? Aposto que já sabes as cusquices todas.
É um local de muitas histórias, cusquices inclusive. Mas o meu sentido de ética impede-me de partilhar… Há gente muito boa aqui. Mesmo se, às vezes, estou a arrancar silvas, ou a arrumar mobílias ao sol, logo aparece alguém que começa a ajudar. E são óptimos conversadores. A Chiara Sonzogni que o diga. A jovem arquitecta italiana que tem estado desde do início do mês de Junho a encontrar formas de plantar vegetais pela praça, e não só, conhece toda a gente, que a adoptaram como sendo da família. Vais ter saudades de tudo isto quando acabar, ou nem por isso?
Ainda não estamos lá, mas tudo faz prever que sim. E haverá muitos sítios no mundo a precisar de atenção… Vens para Guimarães, começas logo a pensar em conquistas, concordo contigo. Para terminar, como é que o pessoal pode propor-se a organizar actividades para a praça?
Simplesmente, contactar através do [Facebook](http:// www.facebook.com/IstoEumaPraca), ou por e-mail, para o endereço pop.up@guimaraes2012.pt. Fixe. Obrigado, Fernando!