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Cultura

Como o 'Lo-fi Hip Hop Radio para Relaxar/Estudar' se tornou um fenómeno do YouTube

Os infinitos loops de beats relaxantes, com imagens de anime de fundo, têm milhões de seguidores fiéis. Porquê?

Por Luke Winkie
02 Agosto 2018, 11:38am

Screenshot do canal de YouTube ChilledCow.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Um loop infinito de uma menina anime cansada, sentada num quarto a la Miyazaki, a tirar notas no seu caderno, ou a ler um jornal com uma chávena de café quente, ou simplesmente a olhar por uma janela solitária num dia de chuva. Um estilo muito particular, muito millennial, de um downbeat escorre pelas colunas do seu computador; a batida electrónica abafada, alguns excertos nocturnos preguiçosos de sintetizadores, talvez um sample de uma extasiada voz elíptica proveniente de alguma gravação de auto-ajuda, desenhos antigos, jogos de Nintendo 64 ou antiguidades de domínio público.

Estes ingredientes, tão simples e extraordinariamente consistentes, enquadram-se numa nova encarnação da rádio de Internet chamada “lo-fi hip-hop,” ou “chillhop” ou, mais especificamente, "lo-fi hip-hop radio for studying, relaxing, and gaming”. Infinita e sem data de validade, a transmissão dura 24 horas por dia, sete dias por semana no YouTube, proporcionando a vibe mais relaxante e amigável para uma legião de universitários traumatizados - é tipo uma alternativa holística perfeita para quando o rivotril já não funciona. Às vezes, tudo o que tens de fazer é confiar no gosto de um jovem empreendedor com um canal no YouTube.

Existem vários destes canais e todos são muito populares. O mais proeminente pertence à figura anónima de nome ChilledCow, que já conquistou 1.7 milhão assinantes em pouco mais de um ano de transmissão (ChilledCow também foi a primeira pessoa a usar a imagem da rapariga de anime a estudar, o que acabou por criar o background estético para o resto da malta que opera no mesmo género). Na verdade, isto não é muito diferente de alguém acrescentar uma música a uma playlist minuciosamente curada numa festa. As transmissões não exigem que a pessoa esteja o tempo todo atrás da mesa de mistura, ao contrário da constante monitorização necessária para qualquer transmissão numa estação de rádio convencional. No entanto, a rotatividade de músicas é constantemente actualizada com novos sons escolhidos a dedo — um gritante contraste em relação às sugestões dos algoritmos usados pelo Spotify ou Apple Music.

Ryan Celsius, um DJ de Washington D.C. que comanda a sua própria rede de canais de lo-fi hip-hop, diz que o YouTube se tornou o foco do seu trabalho, devido às diferentes atitudes negligentes em relação à lei de direitos de autor. O Twitch, o grande titã das transmissões ao vivo, é notoriamente exigente em relação à emissão de músicas licenciadas na sua plataforma e, quando Celsius começou a emitir o seu primeiro set no Twitch, foi imediatamente expulso por causa de uma violação dos Termos de Serviço. “Estávamos no início de 2017 quando vi que as transmissões ao vivo no YouTube tocavam na boa já há algum tempo, portanto decidi saltar para lá e tentar novamente”, revela.

Hoje, Celsius tem 286 mil inscrições no canal e destaca-se como um dos barões da vibe online. Ele tem a teoria de que o renascimento do chillhop está ligado à nostalgia que as pessoas sentem pelo Cartoon Network e Adult Swim. O Adult Swim especializou-se em agradáveis grooves obscuros nos seus separadores e anúncios e foram, inclusive, os responsáveis pelo processo que levou ao sucesso do rapper MF DOOM, (se existe uma referência para lo-fi hip-hop, provavelmente é o clássico Madvillainy). Os adolescentes que foram fãs dessas coisas estão agora a entrar nos finais dos seus 20. E é claro que estão prontos para voltar a sentir essas texturas incríveis.

“Há uma geração inteira de pessoas que foi influenciada pelas batidas suaves e psicadélicas, ou pela cena relaxante e aesthetics do Adult Swim no começo dos anos 2000”, reforça Celsius. E acrescenta: “[Isso] criou uma relação com a malta que curtia anime e uns wavy hip-hop beats”.

Deves estar a pensar que qualquer pessoa trancada no quarto pode começar um destes canais e começar a ganhar dinheiro graças ao rendimento igualitário dos anúncios do YouTube e, até certo ponto, isso é verdade. No entanto, é preciso um certo investimento para conseguir disponibilizar áudio e vídeo em alta qualidade simultaneamente. Celsius conta-me que os terabytes de armazenamento que aluga em servidores na cloud custam cerca de de 200 a 300 dólares por mês — o que significa que entre os ganhos com anúncios e com o Patreon, consegue lucrar uns mil e 500 dólares por mês. “Pessoalmente, para mim não é assim tão lucrativo”, garante.

Outros DJs do YouTube aprenderam a consolidar ganhos consideráveis para conseguirem manter-se à tona. Como os dois britânicos por detrás do canal de chillhop “College Music”, que tem 415 mil inscritos - Jonny Laxton, 19, de Leeds e Luke Pritchard, 20, de Reading. Juntos, transformaram a rádio numa editora - apresentando os seus artistas através de playlists no Spotify, criando uma marca que não é anónima ou descartável, como as que geralmente se encontram na Internet. “Não queremos que alguém encontre a transmissão e, no dia seguinte, não consiga voltar a encontrá-la”, diz Pritchard.


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Pritchard conta também que, ocasionalmente, recebe propostas de artistas dispostos a pagar para terem os seus sons inseridos na playlist da emissão. Faz sentido. O artista e o nome do som são sempre exibidos no ecrã e, obviamente, existe um valor de mercado em ser-se apresentado a milhares de jovens em incontáveis residências estudantis espalhadas pelo Mundo. No entanto, o College Music rejeita essas propostas, porque, dizem, violaria o carácter independente e pirata da rádio.

“Desde o primeiro dia, eu e o Jonny temos o propósito de partilhar músicas de artistas desconhecidos de que ambos gostamos”, explica. E sublinha: “Fazer dinheiro nunca foi a razão pela qual fundámos o College Music. Por isso, nunca faríamos esforço algum para aumentar o 'lucro', à custa da nossa integridade e da qualidade da música que partilhamos”.

Agora, resta ver quanto tempo isto vai durar. A monetização seduz - em geral e na Internet em particular - e se essas transmissões de lo-fi hip-hop continuarem populares, as ofertas tornar-se-ão, inevitavelmente, maiores. Ainda assim, é bom que a juventude do Planeta todo esteja a deixar para trás o estilo Silicon Valley de descoberta de música, em que tudo o que é levado ao teu feed foi "pensado" por servidores tétricos, estacionados numa qualquer sala hiper condicionada em sabe lá Deus onde. “Plataformas populares como iTunes, Spotify e Google Music, apesar das suas melhores intenções, acabam por colocar as pessoas numa câmara de vácuo musical”, acredita Celsius. E conclui: “Geralmente, os streams 24/7 apresentam músicas que as pessoas não sabiam que gostariam de ouvir”.


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