Entretenimento

Sacha Baron Cohen ainda é o maior troll vivo

Mesmo numa era de fake news e extremismo, 'Who Is America?' é brutal e hilário.
MS
Traduzido por Marina Schnoor
19.7.18
Imagem: Showtime/Reprodução.

Quando o programa de Sacha Baron Cohen Da Ali G estreou na HBO em 2000, a ideia de fazer gente poderosa dizer coisas idiotas na frente das câmeras parecia uma novidade, ousado até. Mas na paisagem trumpiana infernal da atualidade, um mundo dominado por golpes publicitários, fake news e outras formas descaradas de enganação, a nova série de Cohen no Showtime, Who Is America?, consegue milagrosamente se elevar acima da sátira política média e realmente te fazer rir. Num mundo dominado por trolls, Cohn consegue trolar até os miguézeiros mais perniciosos.

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Mesmo antes do primeiro episódio de Who Is America? ir ao ar no sábado, alguns conservadores já estavam ultrajados por terem sido engambelados por Cohen. O que rendeu a melhor publicidade grátis que a série poderia querer – a ex-candidata à vice-presidência Sarah Palin, o ex-candidato a congressista do senado do Alabama Roy Moore e o ex-congressista Joe Walsh foram às redes sociais para xingar o comediante que os enganou para participar da série.

Mas mesmo depois que o Showtime divulgou um teaser de Cohen fazendo Dick Cheney autografar um kit de waterboard, eu ainda estava em dúvida se Who Is America? poderia justificar o hype. Afinal, a cultura política dos EUA só se tornou mais insidiosa desde a era Bush – em 2009, o ultraconservador Project Veritas ganhou importância com uma câmera escondida no ACORN, uma organização nacional que tenta ajudar americanos de baixa renda a se registrarem para votar. E a ideia de que políticos estão escondendo suas visões realmente tóxicas do público também parece datada, considerando que Donald Trump conseguiu ser eleito sendo abertamente escroto. O que Cohen poderia realmente expôr agora? Parece que muita coisa.

Who Is America? começa com uma introdução de um dos quatro novos personagens de Cohen – Dr. Billy Wayne Ruddick Jr., um renegado simpatizante de Trump que odeia a mídia mainstream, comanda um site chamado TRUTHBRARY.org (o contrário de lie-brary) e usa cadeira de rodas por diversão. Na primeira entrevista, ele tenta enganar um Bernie Sanders muito desconfiado, que dá vários olhares de perplexos para o personagem. Diferente dos conservadores que Cohen trola sensacionalmente mais tarde no episódio, Sanders consegue evitar parecer um completo otário. Sem querer, o trecho acaba destacando o grande dom político do senador de Vermont – que posso confirmar como alguém que já o entrevistou – sua habilidade de continuar na mensagem mesmo nos cenários mais improváveis.

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“Namastê, sou o Dr. Nira Cain-N'Degeocello, e sou um homem branco heterossexual cisgênero, pelo que me desculpo”, diz Cohen numa dublagem apresentando seu próximo personagem, que usa uma camiseta da NPR e uma touca rosa-choque de gatinho. Cain-N'Degeocello, um careca de rabo de cavalo, janta com dois membros do Partido Republicano da Carolina do Sul, “um casal que sofre de privilégio branco”, como ele descreve. Durante a entrevista, Cohen informa o casal que para combater o machismo, ele obriga o filho a mijar sentado e a filha a mijar em pé, e explica como aceitou o caso da esposa com um golfinho. Depois encontramos o terceiro personagem de Cohen, Ricky Sherman, um ex-presidiário aspirante a artista que usa seus fluídos corporais para pintar. Ele encontra uma consultora de artes chamada Christy, que inacreditavelmente compra a história da arte fecal de Sherman. No final do segmento, ela até presenteia Cohen com alguns fios de seus pelos pubianos para a coleção dele.

Mas Who Is America? vai além da trolagem básica quando encontramos o quarto personagem, um ex-agente do Mossad chamado Errand Morad, que consegue convencer alguns republicanos e ativistas pró-armas conhecidos a apoiar seu programa para dar “gunimals” – armas de fogo vestidas como bichos de pelúcia – para bebês. Numa entrevista com Larry Pratt, diretor executivo do grupo de lobby de armas de fogo Gun Owners of America, Cohen pergunta num pesado sotaque israelense: “Você acredita que esses liberais estão usando esses atentados em escolas para sua agenda anti-tragédia?” (Eles estão tentando, é o que Pratt responde.)

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Mais tarde, Cohen consegue fazer Pratt olhar para a câmera e dizer “Bebês são puros. Incorruptíveis por fake news e homossexualidade. Eles não se preocupam se é politicamente correto matar num atirador com problemas mentais, eles simplesmente atiram. A ciência por trás do programa ['gunimals'] está comprovada… crianças com mesmo de cinco anos… têm níveis elevados de feromônio Blink 182, produzido por uma parte do fígado conhecido como Rita Ora. Isso permite que reflexos nervosos viajem ao longo do caminho neural Cardi B para o Wiz Khalifa 40% mais rápido”.

Cohen também consegue que figuras mais respeitáveis embarquem em sua iniciativa absurda. Os congressistas Dana Rohrabacher da Califórnia e Joe Wilson da Carolina do Sul, além do ex-líder republicano do senado Trent Lott, ficam muito felizes em apoiar o programa falso de armar bebês. A parte mais surpreendente sobre congressistas republicamos apoiando dar armas para bebês é que Cohen teve que enganá-los para fazer isso.

O ex-congressista republicano Joe Walsh, que diz na série “Em menos de um mês, menos de um mês, um aluno da primeira série pode se tornar um granadeiro de primeira”, disse que foi enganado para dizer isso depois que o comediante “pagou sua viagem para DC para um prêmio inventado de amigo de Israel”.

“Agora tenho que assumir”, ele escreveu no Twitter.

E tem mesmo.

A melhor parte de Who Is America? é quando Cohen usa seus golpes para mostrar quem esses conservadores poderosos realmente são – um grupo de homens com cérebros tão zoados pela insanidade do discurso político contemporâneo que vão defender dar armas para bebês, literalmente. Charlie Warze, do BuzzFeed, escreveu: “Há uma catarse sombria em jogo enquanto assistimos Baron Cohen ludibriar defensores do porte de armas para fazer um informercial para vender armas de fogo para bebês”.

A última interação da marca única de Cohen de fabricação de fake news não é para quem se ofende fácil, nem para quem está procurando comédia com uma dose de ativismo – a comédia de Cohen é mais sobre utilizar o caos preexistente para produzir o melhor conteúdo possível que sobre transmitir uma mensagem política “woke”. Apesar da parte em que ele engana conservadores ser a que chamou mais atenção, Cohen não tem uma bússola ideológica particular, e não há uma mensagem positiva no cerne da série. Ela te leva para um mundo muito próximo do nosso, revela que ele é fundamentalmente absurdo, e te convida a rir. O que mais podemos fazer?

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