5 mulheres trans discutem como é perder a virgindade duas vezes
Foto por Alexey Kuzma via Stocksy.
Sexo

5 mulheres trans discutem como é perder a virgindade duas vezes

Como é transar depois da transição?
Madalena Maltez
Traduzido por Madalena Maltez
MS
Traduzido por Marina Schnoor

Fazer sexo pela primeira vez pode ser excitante, assustador, emocionante ou algo pra se arrepender – mas quando já foi, já foi, né? Mas e se você passar por uma mudança que altera radicalmente seu corpo e como os outros te percebem? Pessoas transgênero muitas vezes revisam o corpo e a identidade com que nasceram – e o sexo depois de algo assim é comparável ao sexo antes? Sendo trans, sei que aquelas experiências pré-transição foram significativamente diferentes do tipo de coisa que experimento hoje. E isso me fez imaginar: se você é trans, é possível fazer sexo pela primeira vez… duas vezes?

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Fazer sexo como uma mulher é algo novo emocional e fisicamente

Josie é uma mulher trans de 29 anos da Carolina do Sul. Ela disse a Broadly que, quando vivia como um homem hétero, esperava mais de perder sua virgindade: “Eu achava que seria uma coisa mágica, mas acabou sendo só sexo mesmo”.

A “mágica” veio depois de sua transição. “Perdi minha virgindade pela segunda vez quando estava visitando uma amiga de um grupo do Facebook”, ela disse. “Dirigi quatro horas até a casa dela. Eu tinha começado a tomar reposição hormonal e estava mais empolgada do que você pode imaginar.” Josie também estava nervosa: “Quando ela me tocou, meus joelhos tremeram”, me disse Josie. “Acabamos na cama dela.”

A parceira de Josie era outra mulher trans. “Ela começou bem devagar e se certificou de que eu estava OK com o processo de ser penetrada pela primeira vez.” Apesar de Josie ter feito sexo antes da transição, essa experiência foi diferente: nas mudanças de seu corpo e identidade; na sensação do ato sexual; nas emoções de estar com outra pessoa na cama.

“Quando ela me penetrou, foi um pouco doloroso, mas fiquei mole”, me disse Josie. “Minhas defesas caíram, e realmente senti que tinha entrado numa nova fase da minha vida. No meu coração, senti que isso destruiu a máscara que usei por tanto tempo.”

Sexo penetrativo depois da transição não é pra todo mundo

Kate é uma professora de 39 anos de Nova York. Ela se sentiu atraída por mulheres a vida toda. Ela fez sexo pela primeira vez “muito tempo atrás”, com uma mulher para quem, décadas depois, se assumiria transgênero. Quando perguntei se ela se sentiu “virgem de novo” depois da transição, Kate disse: “Mais ou menos: senti como se estivesse começando de novo. Eu disse coisas para meus amigos como 'Nunca beijei ninguém antes'. Parte de mim sabia que esse era um novo começo.” Mas o conceito de ser virgem de novo é bobagem para ela. “Me sinto da mesma maneira.”

“Ela nunca tinha namorado uma pessoa trans.”

Kate não fez sexo penetrativo depois da transição. “Decidi não usar meu pênis, que ainda está no meu corpo, a menos que alguém me peça. Minha parceira atual diz que 'não sente que precisa' do meu pênis.” Ela conheceu a parceira pelo Tinder. “Ela nunca tinha namorado uma pessoa trans e me trata como se eu não fosse trans”, disse Kate, acrescentando que ela prefere assim. “Ela me mandou uma mensagem hoje dizendo: 'Concordo 100% em explorar sua feminilidade juntas. Garotas lindas para sempre'. Há muita química física, concordamos nos pontos políticos, e há muita cura e crescimento entre nós. Eu não poderia ter encontrado uma pessoa melhor como minha primeira parceira física depois da transição.”

Ela se sentiu virgem de novo

Robin é uma mulher trans bissexual de 30 e poucos anos. “Fiz sexo pela primeira vez em 2001, quando tinha 21”, ela disse. “Foi estranho, mas acho que não mais estranho que a primeira vez de todo mundo. Passei outros 13 anos fazendo sexo antes de perceber que era trans.” Ela não estava interessada em sexo penetrativo, mas realizava esse papel na cama para dar prazer para as mulheres com quem ficava. “Eu preferia receber sexo oral, mas levei tempo para ligar essa preferência à minha disforia. Eu pensava em mim como um cara tosco, nunca como uma mulher. Eu tinha vergonha, mas conseguia funcionar apesar disso”, disse.

Quando passou pela cirurgia genital, ela se sentiu nova. “Eu disse que tinha uma nova virgindade quando consegui uma vagina”, ela disse. “Fui perder aquela virgindade assim que estava recuperada da operação.”

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Ela fez sexo com a esposa depois do procedimento e, apesar de ter sido algo profundamente pessoal para o relacionamento delas, não parecia que ela tinha feito sexo pela primeira vez “duas vezes”. “Mas pensei muito sobre a primeira vez que recebi sexo vaginal penetrativo com alguém depois da cirurgia”, disse Robin. “Escolhi um garoto cis geralmente hétero que era muito carinhoso”, ela disse. “Ele foi muito compreensível e paciente, apesar de não ter experiência prévia com mulheres trans.” A nova vagina pode ser extremamente apertada logo depois do processo de criá-la, exigindo meses de dilatação para se expandir. “Infelizmente, eu ainda estava muito apertada, e a coisa não foi muito bem. Considerando as circunstâncias, sou grata pela atenção dele, mesmo não tendo funcionado como eu esperava.”

Robin disse que sua segunda vez foi “mais estranha que a primeira – eu estava com medo de não conseguir ser penetrada confortavelmente. Felizmente eu estava errada. Com o tempo foi ficando mais fácil, e consegui superar o constrangimento daquela primeira tentativa”, disse.

“Fui perdendo todo tipo de virgindade com os anos”, disse Robin. “Sempre tinha coisas que eu nunca tinha feito antes. Adoro fazer algo novo e excitante pela primeira vez.” Ela disse que o conceito de virgindade não é inteiramente aplicável: “Não acho que há linhas claras dividindo 'virgem e não-virgem'. Só coisas com que você vai ficando mais confortável.”

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Ela perdeu a virgindade com um consolo?

Para Hannah, uma mulher trans de 33 anos, o sexo antes da transição não foi uma experiência positiva. Ela era bissexual e pansexual, mas na época estava interessada principalmente em mulheres. “Sexo era inexistente no colegial. Várias garotas disseram na minha cara que eu era 'muito baixinho', com 1,62 metro, para ser o namorado delas.” Ela sabia que era uma mulher, mas a rejeição era dolorosa. Na faculdade, Hannah teve muitas oportunidades para fazer sexo, mas as dispensou “principalmente por medo”. Eventualmente, ela perdeu a virgindade com uma mulher que também era virgem.

“Assumi para ela que era trans. E para minha surpresa, ela se ofereceu para me ajudar a encontrar pessoas com quem eu pudesse falar sobre isso”, disse Hannah. “Ela me viu vestida como mulher em várias ocasiões e acho que ela se sentia mais atraída por mim quando eu era meu eu autêntico. Era muito empoderador. Mas estraguei tudo.”

A parceira de Hannah experimentou dor durante o sexo penetrativo. “Eu tinha ouvido que isso não era incomum quando uma garota perde a virgindade, mas insisti. Eu queria explorar o sexo, mas ela não estava tão interessada.” Elas acabaram se separando por causa disso.

“Ela disse 'virgindade é uma construção'. Então perguntei se podia desconstruir isso com um consolo de silicone azul.”

Depois da transição, Hannah “se sentiu e não se sentiu” virgem de novo. “Quando fiz a cirurgia genital, eu estava namorando um garoto trans, e ele estava aberto a fazer sexo comigo antes da cirurgia. Perguntei a uma amiga se você podia perder a virgindade com uma cinta-caralha. Ela disse: 'Virgindade é uma construção'. Então perguntei se podia desconstruir isso com um consolo de silicone azul.”

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Hannah teve complicações “debilitantes” depois da cirurgia, então suas experiências sexuais pós-transição não foram tão recompensadoras como outras mulheres trans relataram. “Eu tinha certeza que outro procedimento consertariam essas complicações, mas depois da minha segunda cirurgia, tive que tirar o sexo da mesa porque só piorava as coisas. Simplesmente não estou confortável em me expor para um parceiro”, disse Hannah, iluminando as complicadas e difíceis realidades médicas que pessoas trans às vezes são obrigadas a encarar.

“Uma das experiências mais constrangedoras foi depois de um encontro que tinha sido muito legal. Ele descobriu sobre minha situação médica e encerrou as coisas ali porque 'não queria esperar'. Numa justiça poética, depois eu terminei com a garota com quem perdi minha virgindade por uma razão parecida.”

Hoje Hannah está num relacionamento, mas se descreve principalmente como assexual: “Sinto que minha sexualidade foi tirada de mim pela cirurgia.”

Mas que atos sexuais “tiram” a virgindade antes e depois da transição?

Jessica é uma mulher trans na faixa dos 40 anos da Costa Leste envolvida em pesquisa política. Antes de sua transição, ela era basicamente hétero. Hoje ela se vê “entre lésbica e queer”. Mas os relacionamentos que Jessica teve quando vivia como um homem não eram estritamente heteronormativos: “Depois que me assumi para minha parceira de longa data, ela não ficou muito surpresa; ela disse que eu nunca tinha tido uma 'energia de homem' sexualmente.”

“Depois da cirurgia de confirmação de gênero, o sexo era diferente em termos de como ter o coito e mudou fundamentalmente meu relacionamento com orgasmos e masturbação”, disse. No final das contas, aquilo ainda era sexo, apesar de parecer um pouco mais complexo no começo: “Sexo com um pênis biológico – seu ou do seu parceiro – é muito mais simples. Depois da cirurgia, você tem que encontrar os ângulos certos. E os brinquedos que têm o formato certo. E a flexibilidade e dureza certas. E o lubrificante certo para seus brinquedos. E. E. E… Ou você pode decidir que as coisas penetrativas não são necessárias para chegar lá, e simplesmente ficar no oral.”

Ela conheceu sua parceira atual seis meses antes de fazer a cirurgia genital quatro anos atrás. “Fui a primeira parceira transgênero dela, mas ela percebeu que era lésbica com quase 30 anos, então tinha ficado com homens antes – nós duas consideramos um pênis um pouco mais confortável e conveniente que uma cinta-caralha. Trabalhamos com o que eu tinha e conseguimos o que precisávamos.”

“Não dou muito valor para 'virgindade'”, disse Jessica. “Depois da cirurgia, perdi a virgindade quando minha parceira fez sexo oral em mim? Ou quando dilatei pela primeira vez? Quando ela me comeu com uma cinta-caralha? Minha parceira e eu somos poliamorosas, então fiz sexo com uma mulher trans que ainda não tinha passado pela cirurgia genital. Então isso conta como um pênis biológico? Acho que você tem que definir isso do jeito que quiser.

“Não perdi minha virgindade duas vezes. Só tive a chance de fazer sexo de um jeito totalmente diferente.”

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