Publicidade
Drogas

Como os EUA convenceram o Planeta a demonizar as drogas

A maior parte do Mundo costumava tratar o vício em drogas como uma questão de saúde, não como uma questão criminal. Os EUA mudaram tudo.

Por JS Rafaeli; Traduzido por Madalena Maltez
05 Outubro 2018, 6:00am

Foto: vexedart / Alamy Stock Photo.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Em Baltimore, um jovem negro é preso por posse de canábis. Em Glasgow, Escócia, uma porta de apartamento é arrombada por um esquadrão anti-drogas. No Afeganistão, uma plantação de papoilas é incinerada por um avião. No México, policias corruptos que trabalham para cartéis de droga estão envolvidos em desaparecimentos e massacres.

A Guerra às Drogas é, geralmente, apresentada como um fenómeno global. Cada país tem as suas próprias leis e autoridades sobre o assunto. Apesar de pequenas diferenças regionais, o Mundo – dizem – sempre esteve unido na abordagem aos perigos do uso de drogas ilícitas, através das forças da lei.

Isso é mentira.


Vê: "O legado de violência que Escobar deixou aos actuais cartéis criminosos"


Se investigares a história do que chamamos agora de "Guerra às Drogas", descobres que ela tem uma origem muito específica: os EUA. O desenvolvimento global da guerra às drogas é inseparável do desenvolvimento do imperialismo norte-americano e um produto directo desse imperialismo. Antes do século XIX, as drogas hoje ilegais eram usadas amplamente um pouco por todo o Planeta. Medicamentos derivados do ópio e canábis eram usados para aliviar a dor e, de forma menos alargada, com objectivos "recreativos". A própria Rainha Vitória gostava muito de ópio e canábis, antes de ser apresentada à cocaína mais tarde na vida.

Depois, vieram as ferrovias norte-americanas.

Milhares de trabalhadores chineses foram para os EUA em meados dos anos 1800 para construirem a Central Pacific Railroad. Mas, quando a ferrovia ficou pronta, foram imediatamente considerados uma ameaça para os trabalhadores brancos norte-americanos. Em 1882, o Congresso aprovou a Lei de Exclusão dos Chineses, a única lei norte-americana a conseguir banir imigração com base apenas em raça.

Pessoas a fumar ópio na China, por volta de 1917 - 1923. Foto: CH Collection / Alamy Stock Photo

Um método para incentivar o sentimento anti-chinês era o de atacar a prática de fumar ópio. Apesar de morfina e láudano serem populares como medicamento nos EUA, o ópio chinês era visto como uma ameaça à moralidade cristã norte-americana, particularmente para as mulheres. Em 1881, enquanto a Lei de Exclusão era debatida no Congresso, rumores começaram a circular a partir de São Francisco sobre casas de ópio onde “mulheres brancas e homens chineses se sentam lado a lado sob efeito dessa droga – uma visão humilhante para qualquer um com alguma masculinidade”.

Artigos de jornal diziam que a ameaça do ópio chinês precisava de ser exterminada antes que “acabe com a nossa juventude, castrando a próxima geração, ou até destruindo completamente a população da nossa costa” e que, para os norte-americanos brancos, fumar ópio “não é consistente com os seus deveres como capitalistas ou cristãos”.

Crucial, no entanto, é que o primeiro regime de proibição não foi fundado nos EUA em si, mas numa das suas primeiras colónias. Em 1898, os EUA conquistaram as Filipinas na Guerra Hispano-Americana. Charles H. Brent, o bispo episcopal abertamente racista das Filipinas, desprezava consumidores de ópio e apelou ao presidente Roosevelt para proibir o hábito “maligno e imoral”. Em 1905, Brent conseguir instaurar o primeiro regime de proibição norte-americano – não nos EUA, mas nas Filipinas.

Sem surpresa, a proibição foi um fracasso. O bispo Brent decidiu então que o uso de ópio só podia ser culpa da explosão de comércio na China e escreveu novamente ao presidente Roosevelt, dizendo que os EUA tinham o dever de “promover algum movimento que reúna os representantes de todos os países onde o tráfico e uso de ópio são a questão do momento”. Assim, nascia a ideia de controlar internacionalmente o comércio de drogas.

No debate norte-americano, o vício em drogas era enquadrado como uma infecção e contaminação da América branca por influência estrangeira. Agora, essa visão devia ser internacionalizada. Para proteger a pureza moral da América branca, o suprimento de drogas de outros países tinha de ser cortado na fonte. Como o candidato Richard P. Hobson disse: “Tal como invasões e pragas ao longo da história, o flagelo do vício em entorpecentes vem da Ásia”.

Um cartaz do filme de 1936 "The Cocaine Fiends".

Em 1909, os EUA conseguiram convocar a primeira Comissão Internacional sobre Ópio em Xangai. A representar os EUA estavam o bispo Brent e o médico Hamilton Wright, que se tornaria uma das principais forças do movimento proibicionista norte-americano. No século seguinte, quase toda a grande conferência ou comissão internacional sobre controlo de drogas foi formada através de pressão e influência dos EUA.

De maneira interessante, apesar do que aprendemos sobre “relações especiais”, o país que ofereceu a resistência mais consistente e organizada ao impulso norte-americano para a proibição das drogas foi o Reino Unido. Uma e outra vez, a Grã-Bretanha frustrava diplomaticamente as tentativas norte-americanas de impôr regimes de proibição e de estabelecer protocolos internacionais.

Isto, em parte, porque os britânicos estavam a operar lucrativos monopólios de ópio nas suas próprias colónias, mas também porque ressentiam “os tons de idealismo e virtude superior” dos norte-americanos. O Reino Unido tinha o seu próprio sistema para lidar com o vício das drogas – tratá-lo como uma questão médica, em vez de criminal – e, por muito tempo, resistiu à histeria moralizante da abordagem norte-americana.

Mas, era difícil para os EUA empurrarem a proibição das drogas pelo resto do Mundo sem a reforçar antes dentro das suas próprias fronteiras. Wright começou então uma nova campanha para a proibição total das drogas dentro dos EUA – mais uma vez construída quase inteiramente em cima de preconceito racial.


Vê: "A Noruega vai seguir o modelo português de descriminalização de drogas"


Todavia, dessa vez, uma nova droga emergiu para capturar a febril imaginação norte-americana, com uma nova minoria racial para perseguir. A droga era a cocaína e a minoria era a afro-americana. Em 1910, Wright submeteu um relatório ao Senado, dizendo que “esse novo vício, o vício na cocaína... tem sido um incentivo potente para levar os negros humildes de todo o país à criminalidade”.

O que se seguiu foi uma explosão de manchetes a ligar os negros ao uso de cocaína e crimes. O New York Times publicou um artigo típico, sob a manchete “NEGROS VICIADOS EM COCAÍNA – A NOVA AMEAÇA DO SUL”. O artigo conta a história de “um negro até então inofensivo”, que teria cheirado cocaína e entrado em frenesim. O chefe da polícia teria sido obrigado a disparar sobre ele várias vezes para conseguir derrubá-lo. A cocaína, como o artigo implicava, estava a transformar homens negros em brutos super-humanos. Como o médico citado na matéria dizia “um crioulo da cocaína certamente é difícil de matar”.

Essa histeria levou ao Harrison Narcotics Tax Act de 1914, instituindo a proibição das drogas nos EUA. Nos 50 anos seguintes, os EUA procurariam agressivamente internacionalizar a sua forma de proibição.

H.L. Sharman, chefe do Controlo de Narcóticos do Canadá, a discutir o controlo da canábis, com Harry J. Anslinger, comissário da Divisão de Narcóticos e o secretário-assistente do Tesouro, Stephen B. Gibbons. Foto: Granger Historical Picture Archive / Alamy Stock Photo

Harry J. Anslinger foi nomeado chefe do Bureau de Narcóticos dos EUA em 1930. A proibição do álcool estava prestes a ser repelida e esse posto num pequeno departamento parecia um beco sem saída. Mas, Anslinger embarcou numa campanha de manipulação política e dos media para tornar a proibição de drogas uma chave da polícia doméstica e exterior dos EUA. E continuou como chefe da FBN por 32 anos, servindo sob cinco presidentes e mantendo o seu cargo por mais tempo do que qualquer outro funcionário público excepto Herbert Hoover.

Anslinger foi, de muitas formas, o arquitecto da Guerra às Drogas moderna – e o arquétipo norte-americano do guerreiro moralizador, quando o assunto era drogas. Anslinger era implacável na sua cruzada, muitas vezes recorrendo a métodos nada éticos e mesmo ilegais – particularmente para monitorizar e perseguir artistas, cientistas e intelectuais que via como ameaça. Também ele gostava de usar a raça como isco. Para incentivar a histeria na imprensa, Anslinger jogava incessantemente com o medo e o preconceito raciais, ligando a canábis aos hispânicos, a cocaína aos afro-americanos e a heroína aos chineses.

Os chineses, alertava, “gostam dos charmes das mulheres caucasianas”, usando o ópio para as forçar a uma “depravação sexual indescritível”. O aumento do vício em cocaína, insistia, era de “praticamente 100 por cento entre os negros”, que faziam amizade com mulheres brancas, “conseguindo a sua simpatia com histórias de perseguição racial. Resultado: gravidez”.

Anslinger não estava contente em realizar a sua cruzada apenas dentro dos EUA. Durante os anos 1930, fez lobby no governo norte-americano para pressionar o resto do Mundo a adoptar a abordagem proibicionista. Depois veio a Segunda Guerra Mundial. Todos os países emergiram da Guerra significativamente mais pobres, menos um: os EUA. Anslinger e os seus subordinados não perderam tempo para usar a nova hegemonia norte-americana para obrigar outras nações da ONU a adoptar o modelo proibicionista. Garantiram que aquela versão do Harrison Act entrasse para as leis dos países ocupados do Eixo e o próprio Anslinger foi apontado como representante norte-americano da Comissão de Estupefacientes (CE) da recém-formada Organização das Nações Unidas.

Cada aspecto das relações internacionais, da protecção militar a acordos comerciais e programas de ajuda humanitária, tornaram-se um incentivo ou ameaça para coagir outros países a adoptarem o modelo norte-americano. Charles Siragusa, um agente de alto escalão da FBN, deixou essas táticas de bullying explícitas: “Na maioria das vezes, descobri que mencionar casualmente a possibilidade de acabar com os nossos programas de ajuda, nas horas certas, resulta, quase imediatamente, na permissão de má vontade para as nossas operações”.

Os outros países estavam conscientes dessa armação e não viam com bons olhos serem obrigados a adoptar normas norte-americanas para satisfazer argumentos raciais internos dos EUA. O delegado britânico da CE reclamou que, se não fosse “pelo problema branco de drogas nos EUA”, outras nações poderiam investir nas suas próprias políticas de drogas. Outro representante inglês expressou frustração de que o presidente da CE, “Anslinger... continue a confundir a sua posição como presidente e representante dos EUA”.

Uma "cozinha" de cocaína na selva boliviana. Foto: Jeff Rotman / Alamy Stock Photo

Depois do final da Guerra em 1945 e 16 anos de bullying norte-americano nos bastidores, o sonho do bispo Brent de uma proibição internacional das drogas ilícitas realizou-se. A Convenção Única de Estupefacientes de 1961 foi aprovada, visando colocar todo um emaranhado de tratados e convenções de drogas prioritariamente na linha. Isso foi resultado de uma resolução pensada e patrocinada pelos EUA. Era uma política norte-americana, ao serviço de interesses norte-americanos – e todas as marcas registadas do proibicionismo norte-americano estavam enraizadas no seu cerne.

A Convenção de 1961 é a única da história da ONU a usar a palavra “mal”, afirmando que “o vício em drogas narcóticas constitui um sério mal para o indivíduo e está repleto de perigos sociais e económicos para a humanidade”. Tortura, apartheid e guerra nuclear não são descritos nesses termos. Genocídio é referido nos documentos da ONU como um “flagelo odioso”, ou “acto bárbaro”, mas nunca como um “mal”. Que a ONU, fundada das cinzas da Guerra Mundial e do Holocausto, ache que o vício em drogas é o único fenómeno digno dessa palavra, mostra o tamanho da pressão moral norte-americana.

A Convenção Única estabeleceu o padrão internacional de colocar as drogas em diferentes “escalas” para determinar os seus níveis de perigo, punições para quem as comercializa e potenciais benefícios para a medicina e a ciência. Essa Convenção formou a base para as legislações individuais de cada país sobre as drogas. Quando outras nações consideravam desviar-se do modelo norte-americano, as sanções automáticas escritas na Convenção Única mantinham-nas na linha.

Um inventário completo de como os EUA militarizou a guerra às drogas no Mundo, desde que a Convenção Única foi assinada em 1961, levaria vários livros para explorar. Desde patrocinar esquadrões da morte na América Latina, ao DEA realizar missões estilo Forças Especiais no Afeganistão, até ao método de ser elegível ou não para ajuda dos EUA e tratados de comércio baseados em cooperação na erradicação das drogas e atividades de interdição, a Guerra às Drogas funciona consistentemente como um braço do exército norte-americano e da sua hegemonia económica.

Governos por todo o Planeta – mesmo no Reino Unido, que antes resistiu à abordagem proibicionista e ofereceu um modelo alternativo – dizem que o certo a fazer é continuar “a luta da guerra às drogas”. Quando dizem isso, não te podes esquecer que eles estão a aplicar uma política norte-americana que foi forçada ao resto dos países. Uma política, no geral, derivada de algumas das tendências mais feias e vergonhosas da história dos EUA. A Guerra às Drogas não é um conflito global – é um conflito norte-americano que foi globalizado. Devemos examinar os seus fracassos e pensar duas vezes sobre se devemos continuar nesta guerra.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.

Tagged:
cocaina
Politică
heroína
políticos
canabis
EUA
tráfico de drogas
ONU
imperialismo
norte-americanos
guerra às drogas
leis
legalização das drogas
Globalização
Destaques
leis sobre drogas
imperialismo norte-americano