Tech by VICE

A anatomia da empatia

Joel Salinas consegue literalmente sentir a dor dos seus pacientes. Mas, como os cientistas estão a descobrir, a empatia envolve muito mais do que apenas espelhar outra pessoa.

Por Shayla Love; ilustração por Lia Kantrowitz; fotos por Tony Luong; Traduzido por Madalena Maltez
15 Maio 2019, 2:56pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Numa manhã de Inverno em 2007, um estudante de medicina correu para atender um código azul no Hospital da Universidade de Miami. Um homem tinha desmaiado na sala de espera. Antes do alarme tocar, os dois homens não se conheciam; segundos depois, Joel Salinas, então com 24 anos e o homem que estava a ter um ataque cardíaco criaram uma conexão – não só era responsabilidade médica de Salinas tentar salvá-lo, mas um incrível acaso do cérebro permitiu que Salinas experimentasse intimamente o que o homem estava a sentir.

Salinas tem uma condição chamada sinestesia espelho-toque, que significa que, quando ele vê alguém a sentir alguma coisa, às vezes também consegue sentir o mesmo. “Senti as minhas costas pressionadas contra o chão frio, o meu corpo flácido a mexer-se com cada compressão, o meu peito a inchar com cada respiração artificial a entrar em mim através de um tubo”, escreveu no seu livro de memórias Mirror Touch, publicado em 2017. “Eu estava a morrer, sem estar”.


Vê: "Serás tu uma pessoa empática?"


Depois de vários médicos e enfermeiros terem passado 30 minutos a tentar reanimá-lo, o paciente foi declarado morto. Salinas olhou para o corpo. “Eu estava lá deitado com ele, morto”, escreveu. E acrescentou: “A ausência de sensações no meu próprio corpo, a ausência de movimento, de respiração, de pulso, qualquer tipo de sensação. No meu corpo, não havia nada além de uma ausência ensurdecedora”.

“Foi um momento traumático para mim”, disse-me Salinas pessoalmente em Novembro último, no hall de um hotel em Boston, perto do Massachusetts General Hospital, onde agora é neurologista. “Quando recuperei, estava furioso. Comecei a dizer a mim mesmo que, se queria ser o melhor médico possível, precisava de entender aquilo. Não podia ser tão instável com os pacientes”.

Agora, Salinas consegue controlar melhor a onda constante de sensações de outras pessoas. Desde que o seu livro foi publicado, foi assunto de vários artigos que alegavam que a sua sinestesia espelho-toque é a razão para ser um excelente médico, em vez de um obstáculo para o seu trabalho. Como escreveu um jornalista: “Por causa do espelho-toque, ele está em sintonia com os seus pacientes, levando a uma empatia sem esforço devido à sua condição”.

A condição de Salinas pode parecer algo saído de um livro de ficção científica, mas há uma possível explicação neurológica para isto no nosso mundo: espelho-toque pode ser uma forma exagerada de um processo que acontece em todos os cérebro – a capacidade de espelhar, ou de alguma forma simular, o que os outros estão a fazer ou a sentir.

Para a maioria, esse espelhamento acontece abaixo da superfície da consciência; mas, o cérebro de Salinas parece mergulhar regularmente nessas profundezas. Espelhamento pode ser parte integral de como os humanos experimentam empatia e estudar sinestetas como Salinas pode oferecer aos cientistas um raro vislumbre de como esse importante impulso emocional funciona no nosso cérebro.

A empatia pode parecer uma pedra de toque da nossa humanidade – comandando processos mentais por detrás de boas acções, uma necessidade de construir relacionamentos fortes. Mas, actualmente, a empatia parece estar em falta no nosso ambiente político e cultural. Muita gente tem dificuldade em entender a perspectiva daqueles cujas circunstâncias diferem das deles. A busca pelos mecanismos biológicos da empatia serve como um lembrete; somos capazes de imaginar como é ser outra pessoa. Na verdade, pode mesmo ser um instinto nosso.

Numa tarde chuvosa e fria de sexta-feira, a sala de emergências do Massachusetts General Hospital é uma mistura frenética de pessoas com dor. Enquanto Salinas passa pelos pacientes, vê um homem a segurar a barriga em agonia, o que o fez sentir um desconforto no próprio estômago e outro homem, que estava a dormir com um balde perto do rosto, a ter náusea que atingiram o corpo de Salinas como ondas. Normalmente, ele trabalha no piso de neurologia e, quando entra num quarto com uma pessoa que teve um derrame e não consegue mexer o lado direito do corpo, o seu lado direito imediatamente parece também flácido.

Vi Salinas a realizar um exame neurológico a uma paciente que tinha sido internada depois de ter uma má reacção aos medicamentos de pós-operatório cerebral. Ele está vestido de maneira impecável, com um blazer cinza e uma camisa lilás. O cabelo penteado para trás revela um rosto simpático que ainda brilha com juventude – se não sabes quem ele é, é fácil confundi-lo com um estagiário estiloso. Salinas pede à paciente para mexer os braços e pernas de formas específicas e confere os seus reflexos. A mão dela estremece com força. “Costuma ter reflexos muito rápidos?”, pergunta-lhe. “Não tenho a certeza”, responde ela.

Ao continuar o exame, ele diz-lhe que os reflexos parecem um pouco exacerbados e ela explica que o medicamento também lhe está a causar algumas cãibras musculares. “Acho que pode ser algum efeito residual da medicação”, salienta o médico. E acrescenta: “Na mão esquerda ainda está um pouco mais alto, mais exacerbado, comparado com a direita, o que faz sentido tendo em conta a cirurgia”.

Satisfeito, segue em frente. Salinas diz-me depois que sentiu a mudança de reflexo entre a sua mão direita e esquerda, o que o ajudou a alertá-la para a diferença. Considerando o resto da situação da paciente, ele não está preocupado. Espelho-toque também ajuda Salinas a perceber subtilezas quando está a dar aulas. Se um residente está a analisar um caso e ele sente um tremor na mão dele reflectido na sua, é uma pista de que o residente está a sentir incerteza ou está nervoso e, depois, pode falar com ele sobre isso.

Nas últimas décadas, temos visto acções para incorporar mais empatia na formação médica – para formar médicos que tentem entender o que os seus pacientes estão a passar. “O componente empático da medicina é o que torna um médico especial”, escreveu um estudante de medicina em 2007 no American Medical Association Journal of Ethics. Sem isso, os médicos são meramente “computadores altamente treinados”.

Joel Salinas touching fingers
Foto: Tony Luong / Ilustração: Lia Kantrowitz

A conexão humana que Salinas tem com as pessoas ao seu redor é quase palpável. É extremamente bom ouvinte, faz contacto visual quase constantemente e dá uma impressão forte de que se importa com o que estás a dizer. Há uma certa estranheza ao saber – como muitas pessoas sabem, com o livro publicado – que qualquer coisa que eu sinta durante a nossa conversa, ele pode também sentir. Eu estava consciente das vezes em que tocava na cara, ou que pousava o queixo na mão, por saber que ele estava a espelhar essas sensações.

“É um reflexo automático do meu cérebro tentar recriar a experiência da outra pessoa com base nas minhas experiências passadas e no contexto, da melhor forma possível”, refere. Está claro que Salinas é um médico empático e, ainda assim, a conexão exacta entre esse reflexo automático que ele tem e a emoção complexa da empatia ainda é debatida. Quando o espelhamento foi descoberto no cérebro, pensava-se que esse era o santo graal que explicaria como nos relacionamos uns com os outros. Mas, estamos a descobrir que há mais na empatia do que apenas o reflexo das sensações de alguém.

A empatia foi mencionada pela primeira vez num artigo em 1967, quando o neurocientista Paul MacLean a chamou de “ capacidade de identificar os sentimentos e as necessidades de alguém com as de outra pessoa”. Ele pedia que os cientistas estudassem mais isso, escrevendo que a empatia podia ser “um tópico de importância crítica para resolver problemas urgentes da era moderna, incluindo insensibilidade e agressão interpessoal”.

Menos de 20 anos depois, neurónios de espelhamento foram descoberto por acaso no cérebro de macacos. Os cientistas ficaram surpreendidos ao descobrirem que os mesmos neurónios que estavam activos quando um macaco fazia qualquer coisa, se activavam quando ele via os cientistas fazerem essa mesma coisa (neurónios espelhos também são chamados de neurónios “macaco vê, macaco faz”). A descoberta apresentou a possibilidade instigante de que os nossos cérebros mapeiam as experiências dos outros no nosso. Os cientistas acharam que podiam ter resolvido o problema de como a empatia funciona.

O neurocientista V.S. Ramachandran, conhecido pelos seus livros sobre estudos de casos neurológicos e trabalho na área do síndrome do membro fantasma, leva o crédito por tirar os neurónios espelhos da obscuridade da academia. Num artigo de 2000, escreveu que os neurónios espelhos fariam “pela psicologia o que o DNA fez pela biologia”, provando a existência de um mecanismo de traços e comportamentos que antes não tinha explicação. Há uma correlação directa entre empatia – o desejo de entender e imitar o outro – e o desenvolvimento de linguagem e cultura, escreveu. Língua e cultura são marcos que separam os humanos dos animais. Neurónios espelhos, portanto, são fundamentais para a nossa humanidade.

Um ano depois da publicação desse artigo, “o uso da frase neurónios espelhos duplicou e, na década seguinte, os neurónios espelhos capturaram a atenção do público, oferecendo um vislumbre de coisas como empatizar com clientes de terapia, diplomacia internacional, como é que as crianças aprendem música e como as pessoas apreciam a arte”, escreveu o graduado em psicologia de Harvard John Mark Taylor num blog sobre o assunto.

Mas, só porque todos temos a capacidade de espelhar as acções e sentimentos dos outros, isso não significa necessariamente que esses neurónios espelhos sejam a essência do que significa ser humano. Desde a descoberta dos neurónios espelhos, a extensão em que eles explicam traços complicados como a empatia e altruísmo tem sido questionada e teorias de que problemas nos sistemas de espelhamento são a principal força por detrás de condições como o autismo não foram comprovadas. Desde então, os cientistas estão a voltar atrás em afirmações de que há uma ligação directa entre neurónios espelhos e empatia, mas esse processo cognitivo continua a atrair a curiosidade dos cientistas. Segundo esse pensamento, se os nossos cérebros fazem isso, deve haver algum propósito.


Vê o primeiro episódio de "Motherboard"


Em 2005, investigadores da University College London relataram uma nova forma de sinestesia onde “a percepção visual do toque provoca experiências tácteis conscientes no observador”. Foi o primeiro caso de espelho-toque documentado; agora estima-se que 1,6% da população tenha a condição. O tema da investigação, chamado C, era uma mulher aparentemente saudável. Quando os investigadores lhe observaram o cérebro através de uma ressonância magnética, descobriram que a activação do seu sistema de espelhamentoera mais alta do que em pessoas sem espelho-toque. “Os resultados sugerem que, em C, o sistema espelho para toque é superlativo, acima do limiar de percepção táctil consciente”, escreveram os autores.

Alguns anos depois, em 2009, Salinas apareceu no laboratório de Ramachandran em San Diego. Tinha-se inscrito para ser estudado como um sinesteta pela sua associação de toda a vida entre cores e números. Ele também sentia fisicamente as sensações de outras pessoas desde a infância, mas não achava que isso fosse algo de especial. Todavia, Ramachandran sabia o quão única era a condição de Salinas. “Ele fez a declaração impressionante de que, quando via alguém a ser tocado, sentia a sensação na própria mão, ou onde a pessoa estivesse a ser tocada”, recorda Ramachandran.

Ramachandran sabia que era provável que o sistema espelho de Salinas fosse de alguma forma diferente do das outras pessoas – e que a participação dele representava uma oportunidade para fazer perguntas sobre o papel casual do sistema espelho e empatia. “A questão com a empatia é que ela está relacionada com muitas construções”, explica o neurocientista da UCL Michael Banissy. Banissy é um dos principais investigadores do espelho-toque hoje em dia, tendo estudado mais de 30 pessoas com a condição, incluindo Salinas. “Tem relação com simpatia, compaixão, mas essas coisas são ligeiramente diferentes da empatia em si, porque a empatia é puramente a partilha da experiência. E todas essas coisas vêm da empatia”.

Banissy acredita que as implicações de termos neurónios espelhos são importantes, mas que isso tem sido abordado de maneira muito simplista. Sabemos agora que, em vez de “neurónios” espelhos específicos que imitam comportamento, diz, os humanos têm sistemas cerebrais com propriedades de espelhamento, que são activados quando somos tocados ou quando vemos outras pessoas a serem tocadas. A diferença entre um punhado de neurónios e um sistema é que os sistemas são um processo maior e mais dinâmico.

Se vês alguém a ser tocado, isso vai activar partes similares do teu cérebro de quando tu és tocado. Sabemos disso. Imagens do cérebro com ressonância magnética mostram que sinestetas de espelho-toque têm essa rede superior, mas essa é apenas uma potencial explicação para sentirem o toque dos outros.

Joel Salinas, doctor with mirror touch
Foto: Tony Luong / Ilustração: Lia Kantrowitz

Na pesquisa da imagem estrutural, que observa o formato de áreas do cérebro em vez de função, pessoas com sinestesia de espelho-toque exibem diferenças em áreas como a junção temporo-parietal, ou TPJ. Esta área, diz Banissy, está envolvida em muitas coisas, uma delas associada com o controlo de “representações auto-outro”, ou a capacidade de te identificares como tu mesmo e outra pessoa como outra pessoa. “Pontencialmente, [sinestetas espelho-toque] têm uma dificuldade geral em inibir outras pessoas e tendem a tratar o corpo dos outros como se fosse seu”, explica Banissy. E detalha: “É o que podes chamar de 'auto-outro apagamento'. Têm uma tendência maior a incorporar representações de outros em representações de si mesmos”.

Quando Abigail Marsh, neurocientista e professora de psicologia da Georgetown, tinha 19 anos, estava a conduzir de regresso a casa à noite quando um cão atravessou a estrada a correr. Ao tentar desviar-se dele, derrapou na estrada e viu-se presa na faixa da esquerda sem telemóvel. No escuro, apareceu um homem que, conta, “numa fracção de segundos depois de me ver lá, decidiu parar o seu carro do outro lado da estrada e atravessar cinco faixas às escuras para chegar até mim”.

Ele ajudou-a a ficar em segurança, conseguiu pôr o carro dela a trabalhar, disse “Fica bem” e foi-se embora. Marsh ficou chocada que alguém pudesse ser tão bondoso sob o risco de ser atropelado. “A realidade de que há pessoas que arriscam as suas vidas para salvar um estranho é impressionante quando o vês acontecer”, reflecte. Desde então, o seu trabalho é voltado para a empatia e altruísmo – qualidades que, supostamente, surgem de apagares a linha entre ti e o outro.

Marsh estuda grupos de pessoas que exibem níveis incomuns de altruísmo, como pessoas que doam órgãos a estranhos. Ela descobriu em vários estudos que, quando esses doadores de órgãos vêem outras pessoas com dor, têm níveis de actividade similares em regiões do cérebro associadas a dor, como se eles próprios estivessem a experimentá-la.

Marsh afirma que quando os cientistas começaram a olhar para redes muito maiores do cérebro, descobriram algo mais do que mero mimetismo. Muitos neurocientistas acham, agora, que o cérebro é basicamente um órgão predictivo: tenta encontrar padrões no mundo exterior para estar um passo à frente do que está realmente a acontecer em tempo real. Quando interagimos com outras pessoas, o nosso cérebro pode estar a tentar representar o que se está a passar na mente delas e criar um modelo na nossa mente.

A pesquisa de Marsh observou extensivamente que pessoas são capazes de representar emoções dos outros, como o medo. A incapacidade de fazer isso pode ser um traço que leva a psicopatia. “Psicopatas parecem ter muita dificuldade em representar internamente a experiência do medo neles próprios”, sublinha. E acrescenta: “Então, não conseguem criar um bom modelo interno do que o medo de outra pessoa parece ser. [Esse modelo] é parecido com o processo de espelhamento. É usares a tua própria experiência daquele estado, para tentares entender o estado de outra pessoa”.

No seu trabalho com altruístas, Marsh descobriu que eles são melhores que a média em representar o medo de outras pessoas. São melhores a reconhecer quando outra pessoa está com medo e as áreas do seu cérebro associadas com medo reagem de maneira mais forte quando vêem outros com medo. É algo ligeiramente diferente do processo de espelho-toque, mas Marsh acredita que é outra forma de espelhamento. “Não sabemos exactamente como é que isso funciona, mas parece haver um sentido de simulação interna a acontecer”, garante

Só o espelhamento não leva a empatia. Ainda temos que escolher acreditar que os sentimentos da outra pessoa importam.

Outra investigação mostrou que quando as pessoas interagem, especialmente com alguém de quem gostam, a actividade do cérebro começa a sincronizar-se. “Isso sugere que elas estão maios ou menos a modelar os estados internos da outra pessoa, ou que os seus padrões cerebrais de actividade se estão a tornar mais parecidos durante a interacção”, relata Marsh. E justifica: “O que isso ajuda a produzir está, de alguma forma, relacionado com uma harmonia. Quando as pessoas dizem algo como 'estamos na mesma onda', é literalmente verdade”.

Enquanto aprendemos mais sobre as construções biológicas das emoções humanas, aparentemente há várias maneiras de alcançar a empatia. O nosso cérebro pode ter mais de uma rota para tentar adivinhar e, então, simular o que está a acontecer na mente de outra pessoa. Ainda assim, Marsh acha que, enquanto todas essas formas de simulação são importantes, não devemos prescrever a empatia como uma cura para todos os nossos problemas sociais. Ela aceita que é uma ferramenta social importante, mas não a única.

Marsh não conhece Salinas pessoalmente, mas diz que o facto de que ele automaticamente sinta a dor dos outros não é necessariamente a razão para que seja uma pessoa que se importa. Empatia é importar-se, relacionar-se não é a mesma coisa. “Podes empatizar com o estado interno de outra pessoa, mas isso não significa necessariamente que te importes com o estado interno dela”, alerta. E salienta: “O impulso de te importares com a dor ou sofrimento de alguém parece ser um efeito de seguir a corrente da empatia”.

Salinas decidiu tornar-se médico e é empático porque os sentimentos dos outros são empurrados para ele? Talvez. Mas, ele também teve que decidir importar-se e decidir fazer disso uma carreira. Mesmo sem o espelho-toque, segundo Marsh, pessoas altamente empáticas como Salinas são atraídas para sentimentos de compaixão para com os outros. O que quer dizer que apenas espelhamento não leva a empatia. Ainda temos que escolher acreditar que os sentimentos da outra pessoa importam. No caso de Salinas, ele às vezes diminui a sua empatia, para não ficar tão sobrecarregado que não consiga agir apropriadamente; o resto das pessoas pode precisar de abordar isso de maneira mais consciente. Podemos não experimentar espelho-toque, mas é o padrão do nosso cérebro para tentar entender os outros.

Muitas vezes, as pessoas querem ver algo místico no espelho-toque, considera Salinas, em conversa no seu escritório a uns 15 minutos a pé do hospital. Na estante, tem volumes sobre a neurobiologia da sinestesia – literatura para a qual Salinas se voltou para aprender mais sobre si próprio. Como ele também tem sinestesia “normal”, os seus outros sentidos também se misturam: cores, letras e números, pessoas e números, cores e cheiros. Quando as pessoas ouvem que ele pode sentir os sentimentos dos outros, ou ver cores e números ao redor deles, acham que ele consegue ler mentes ou auras e pedem-lhe para dizer que “cor” são, como se fosse um truque de festa. “As pessoas querem realmente que isto seja uma coisa psíquica”, diz.

Admito que, depois de ler o livro de memórias de Salinas, onde ele descreve as pessoas que encontra pelas suas associações sinestésicas, queria que ele me “lesse”. Queria saber que cores e números eu era, o que o seu cérebro pensou quando me viu. Também desejei que ele fizesse os seus truques de festa para mim, por pura curiosidade egoísta. Esse impulso fez-me pensar sobre como a empatia nem sempre gera empatia de volta. Às vezes, as pessoas tentam tirar vantagem dele, conta-me, mesmo que inconscientemente. Elas abrem-se, contam-lhe os seus segredos e esperam que ele sirva como um terapeuta.

Salinas já teve problemas nas suas relações pessoais. É muito fácil para ele perder-se num parceiro e ser envolvido pelas emoções dele em vez das suas. Casou-se aos 30 anos, divorciou-se três anos depois e disse que, com o ex-marido, os limites emocionais tornavam-se muito confusos. Parecia que o seu próprio mapa mental incluía o seu parceiro. Quando se separaram, sentiu como se estivesse a amputar parte do seu próprio corpo.

Depois do divórcio, esteve um ano sem se envolver romanticamente com ninguém. Quando tem um date, as pessoas geralmente sentem uma conexão forte com ele desde o princípio. “Sei que parece estranho e arrogante, mas quando digo isto, é de um ponto de vista neurobiológico”, diz-me entre risos. E justifica: “Imagina conversar com alguém que é um ouvinte super activo, super empático e está na mesma página que tu em várias coisas”.

Isso pode tornar-se um ciclo vicioso. Se alguém começa a sentir-se atraído por ele, Salinas pode espelhar isso de volta – mesmo não sentindo o mesmo – o que pode ser uma bola de neve. Se alguém passou recentemente por algo traumático, é fácil para ele ser sugado pela emoção e construir um laço baseado na sensação que está a espelhar.

Salinas tem, agora, truques para não se perder no que as outras pessoas estão a sentir. Foca-se no seu próprio corpo e experiência, ou conscientemente desvia o olhar da pessoa. Também utiliza estes métodos quando está a interagir com pacientes. Pode ser algo isolador e, às vezes, ele gostava de poder falar mais sobre a sua condição – não tanto sobre o que sente, mas as cores e formas que vê. Só que não há muitas pessoas que entendam.

Vive perto de uma pastelaria e, quando passa à frente do estabelecimento, às vezes sente um incrível cheiro doce e as cores sinestésicas que o acompanham. “Penso 'meu Deus, que tons bonitos de roxo e amarelo'”, explica. E realça: “Pego no telemóvel, tiro uma foto e publico nas stories do Instagram, até que me lembro 'não é assim que os cheiros funcionam'.” Às vezes, também se esquece e fala sobre uma cor que tem um som muito alto ou pergunta se outra pessoa sentiu o cheiro de uma cor em particular.

Salinas está apenas a começar a carreira na medicina e investigação e ainda não tem a certeza se quer centrar os seus estudos em espelho-toque e sinestesia – mesmo querendo continuar a ser um tema de estudo sempre que o seu cérebro for útil. Quer entender como as relações sociais influenciam a saúde no geral e desenvolver ferramentas que possam medir esses efeitos. Há estudos que procuram padrões dentro de redes sociais que descobriram que, se és obeso, há mais probabilidades de que os teus amigos e amigos de amigos sejam obesos. O mesmo vale para a felicidade. Ele quer entender como é que os relacionamentos sociais afectam o volume do cérebro e os riscos de desenvolver compromisso cognitivo ou doenças como o Alzheimer. Isto, no seu cerne, ainda é sobre a capacidade de sentimentos, hábitos e sensações de uma pessoa passarem, de alguma forma, para outra.

Muitos ficam surpreendidos que Salinas tenha escolhido uma vida em que está tão vulnerável às dores dos outros. Mas, ele não se arrepende da escolha. Como sente as sensações das pessoas desde criança, está acostumado. Todavia, admite que faz um esforço para desfrutar das vantagens do espelho-toque, sem a dor. Recentemente começou a fazer comédia de improviso, onde, por coincidência, o espelhamento é um conceito que é ensinado. “Se entras numa cena e não sabes o que fazer, espelha os outros”, explica. E estar rodeado de risos é uma sensação muito, muito boa. “A sensação das pessoas a rir tem essa qualidade de flores selvagens iridescentes. Essas pequenas flores a desabrochar, a espalharem-se por todo o lado, as pétalas multicoloridas. É incrível”, conclui.


Segue a VICE Portugal no Facebook, no Twitter e no Instagram.

Vê mais vídeos, documentários e reportagens em VICE VÍDEO.