Viagens

"Terra de Ninguém": o que aprendemos em Transnístria, aquele país que não existe

Relato da viagem de dois portugueses a um território que vive num limbo existencial, entalado entre a Moldávia e a Ucrânia.

Por Henrique Magalhães e João Rodrigues
10 Julho 2019, 3:25pm

Universidade de Tiraspol. Todas as fotos pelos autores.

Anna ouviu um ruído entalado no vento frio que percorre o rio Dniester. Ao virar os seus magros ombros soltou o cabelo ruivo curto e silvestre. Um sorriso rasga-se nos lábios gretados do frio. “English?”, pergunta espantada enquanto caminha em direcção ao som. A surpresa de Anna Belousova é aceitável, considerando que vive numa região onde o tapete de boas-vindas é tão prontamente lançado por uma corte de blindados e tropas agasalhadas com a farda cinzenta escura russa e de AK-47 empunhadas nas mãos vultosas.

“Nos livros de história, a Transnístria é uma região que se revoltou contra a Moldávia. Os moldavos dizem-nos que lhes pertencemos, mas eles que se lixem. Não quero ser moldava. Eles são estúpidos, se tivesse de escolher preferia ser ucraniana”, afirma Anna enquanto puxa um cigarro slim do maço preenchido de caracteres russos. A noite é da cor do leite e nas janelas dos prédios soviéticos, os flocos de neve baloiçam-se contra o parapeito. Anna sonha com um futuro longe desta terra espremida entre a Moldávia e a Ucrânia. Um futuro onde possa falar inglês, língua que aprendeu enquanto namorava online com um rapaz africano há uns anos atrás e que poucos à sua volta dominam.


Vê: "Fora de controlo: as milícias ilegais ucranianas"


Anton Dendemarchenko é um desses. Cresceu a ouvir as histórias que a mãe escrevia e lembra-se de uma em particular inspirada num conto folclórico italiano quase desconhecido. “É a história de uma rapariga que era filha de um Rei tão gentil quanto rico. Depois de um ataque ao trono por forças malignas toda a família real teve de se esconder na floresta sem dinheiro e comida”, explica. E acrescenta: “É uma história incrível sobre acreditares em ti próprio e aprenderes a não desistir”.

Anton tem 28 anos e vive em Bendery, numa pequena rua chamada solnechno, que significa ensolarado, mas onde “raramente faz sol e está quase sempre vento”. Pai de um rapaz de olhos azuis, trabalha num Call Center, é guia turístico, mas é a desenhar que se sente em casa. Tinha seis anos quando aprendeu esse ofício. Enquanto pintava o seu mundo nas folhas de papel, o mundo que conhecia pegou em armas para lutar entre si. Era o começo dos anos noventa e o fim da União Soviética. O outrora país continente que aglomerava 293 milhões de habitantes num território com 17 milhões de km2 e 11 fusos horários, fragmentava-se, do dia para a noite, assistindo a diversas declarações de independência. A Moldávia não foi excepção.

Por todo o antigo império, estátuas e símbolos da revolução e do comunismo eram mandadas abaixo. Porém, ali, onde Anton estava, esse entusiasmo independentista não era partilhado. Não sabia ele que, anos mais tarde, as estátuas que os seus compatriotas se recusavam a destruir, seriam as estátuas que viria a desenhar.

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Memorial de homenagem a todos os que morreram na guerra civil. Centro de Tiraspol.

Anton estava no meio de uma guerra por conceitos e sentimentos que ainda não compreendia. A Moldávia tinha declarado independência. Mas, numa estreita faixa de território junto à fronteira com a Ucrânia, onde o 14º Exército Soviético estava estacionado, a população local recusava-se a aceitar o fim da pátria mãe. Ali proclamava-se um nome que viria a ser símbolo da resistência soviética: Transnístria. O exército moldavo tentou várias vezes ocupar Tiraspol, a capital da Transnístria, mas os seus esforços foram sempre rechaçados graças ao sacrifício de vários habitantes locais. “Os moldavos e os transnístrios combatiam durante o dia e bebiam juntos à noite”, relembra Anton. Surpreendentemente, as forças combatentes ficaram tão próximas umas das outras que soldados de ambos os lados fizeram acordos para não dispararem um contra o outro no dia seguinte.

Embora o exército russo tenha oficialmente declarado neutralidade neste conflito, vários foram os soldados que se voluntariaram para combater do lado das forças separatistas. Foi o caso do General G. I Yakovlev, oficial de comando do 14º Exército, que abertamente apoiou a independência da região e serviu como primeiro ministro do departamento de defesa da República da Transnístria. Também o General Alexander Lebed do mesmo exército desempenhou um importante papel no conflito, coordenando um intenso ataque de artilharia que eliminou as forças moldavas concentradas na floresta de Gerbovetskii, perto de Bendery, a segunda maior cidade da Transnístria, pondo um fim ao conflito armado.

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Anton Dendemarchenko e o filho.

Anton Dendemarchenko relembra estes eventos com emoção na voz. Com as mãos compridas apoiadas contra a fachada de um dos maiores edifícios de Tiraspol, Anton espera que um residente abra a porta para poder entrar e subir até ao último andar. O classicismo soviético dos prédios lembra um bom jogo de Tetris. Contemplando a vista do topo daquele edifício através de uma varanda improvisada de tijolo, explica que os camaradas que viveram a luta pela independência tiveram a oportunidade de dar a vida por uma causa, pela nação. “Hoje a batalha é pôr comida na mesa todos os dias”, reflecte.

Anton já desenhou este monumental bloco de cor acastanhada várias vezes. Senta-se em frente a uma paisagem, agarra qualquer coisa que esteja à mão, “um livro, uma revista” e de pulso firme balanceia as mãos no papel. “Depende do espírito em que estás, há vezes em que atacas o papel ao estilo do Matisse, outras vezes tens um cuidado cirúrgico com cada linha que percorres. Estar ao ar livre não é como estar num estúdio”, revela. Porém “quase ninguém sabe que este país existe e por isso a minha arte não tem muito alcance”.

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Apartamentos da era soviética no centro de Tiraspol.

Anna encosta-se ao papel de parede da cozinha com desenhos de cafés em Paris e trauteia uma canção tradicional Transnístria. O ritmo engrandece-lhe o peito e o pescoço ondula com as notas reminiscentes da música folclórica russa. Faz uma pausa para encher a chávena com café em pó e pôr água na chaleira.

“Embora a República Moldava da Transnístria tenha declarado independência em 1990, nenhum dos membros das Nações Unidas a reconhece como estado soberano”, diz. A região é considerada como parte integral da Moldávia. Uma região moldava onde por todo o lado o cirílico predomina e onde, desde 2015, o maior grupo étnico a viver neste território é o russo. Com efeito, as únicas nações que reconhecem a Transnístria como estado soberano são a Abecásia, a República de Arquace e a Ossétia do Sul, todas elas nações de reconhecimento limitado.

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A economia da Transnístria está dependente da Rússia. Para além de importar produtos no valor de 88 milhões de dólares, o governo de Moscovo assegura àquela região consumo energético gratuito. Porém, é para a União Europeia que exporta a maioria do que produz. Entre Janeiro e Fevereiro de 2016, as exportações para a Europa através da Moldávia contabilizaram cerca de 30 milhões de dólares. A situação financeira deste Estado auto-declarado independente começou a deteriorar-se drasticamente nos finais de 2014 devido à situação económica dos seus principais parceiros, Rússia e Ucrânia, bastante penalizados graças à ocupação da Crimeia e à guerra civil no leste da Ucrânia.

Neste contexto, a Rússia suspendeu muitas das ajudas directas que providenciava ao governo de Tiraspol, também envolvido em suspeitas de fraude. Dessa forma, segundo dados da rede Euractiv, o governo apenas conseguiu pagar 70 por cento das pensões e salários do sector público, resultando numa subida drástica dos níveis de pobreza. A Euractiv reporta ainda que a economia da Transnístria ainda só não entrou em colapso total por causa dos tratados de comércio que possui com a Moldávia e a União Europeia.

Aos 17 anos, Anna sorri ao pensar na Europa. “Eu gosto da Europa, sei que as melhores condições de vida são lá. Acho que a Europa tem uma cultura muito boa de interajuda, se eu te ajudo tu ajudas-me. É a coisa certa a fazer, tal como na nossa relação com as pessoas. Se pudesse seria alemã”, afirma entre gargalhadas. O marido de Anna Belousova está sentado do seu lado esquerdo com uma aplicação no telemóvel a tentar descodificar que língua estranha se está a falar naquela casa. Anna aproveita-se desta situação para explicar que, de todos os povos europeus, os alemães são de longe os mais sensuais.

Anna está desempregada. Gostava de ser educadora de infância ou “alguma coisa que envolva tratar de animais”. Esta paixão sente-se no seu lar. Adora gatos e tem pintados nas paredes vários desenhos de felinos ao estilo manga. “Não é um país para novos. Não há emprego”, salienta. E, enquanto pede um isqueiro, acrescenta: “Nós [os transnístrios] temos algumas faculdades aqui e para arranjarmos trabalho temos de terminar algum tipo de curso”, porém não é assim tão fácil.

Anna explica que na Transnístria os postos de trabalho são extremamente específicos e raramente oferecem oportunidades de carreira. “Não é como se pudéssemos emigrar com um diploma universitário daqui, lá fora ninguém reconhece o nosso tipo de ensino, o que significa mais dinheiro e stress investidos para um novo diploma”, assegura.

É certo que o desafio principal da Transnístria é acabar com a vaga enorme de trabalhadores jovens a emigrar para a Rússia, motivados pela facilidade da língua ser a mesma. Nas duas últimas décadas, segundo os inquéritos demográficos na região da Transnístria, 200.000 nativos, cerca de um terço da população, emigraram na tentativa de encontrar trabalho. O inquérito informa que a perda de população devido a migrações representa 2.5 a 3.5 mil pessoas por ano.

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Mercado tradicional na Rua Lenine. Tiraspol

Anna revela que há pouco tempo o governo de Tiraspol incentivou os jovens a arriscarem e abrirem negócios na Transnístria. “Disseram que era fácil e prometeram privilégios. Abrir negócios é simples, difícil é mantê-los. O governo diz que é fácil, mas competir com a marca Sheriff é impossível, matam qualquer ideia”, afirma.

A Sheriff levanta em todos os filhos da Transnístria uma onda de suspeição. A marca faz jus ao nome, lembrando um daqueles filmes western-spaghetti de Sergio Leone, em que o xerife domina toda a cidade. “Tudo é Sheriff” gozam muitos locais ao olharem em seu redor e ao verem a marca colada a supermercados, postos de combustível, estações de televisão e até clubes de futebol.

Criada no início dos anos 90 pelos antigos membros do KGB, Viktor Gushan e Ilya Kazmalya, a empresa, Sheriff começou a dominar o mercado transnístrio, através da concessão de fundos monetários a Igor Smirnov, o primeiro presidente da auto-proclamada República Moldávia da Transnístria. A empresa, que beneficiou várias vezes de reduções nos impostos aduaneiros, forjou um monopólio dentro da região ao apoiar financeiramente quer o partido no poder, quer o partido da oposição.

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Posto de combustível da Sheriff.

Uma investigação de 2004 liderada pelo Departamento Britânico para o Desenvolvimento Internacional chamou à Transnístria “uma empresa de tráfico mascarada pela fachada de um estado”. Esta acusação deriva de uma suspeição comum de que a Sheriff é um sindicato mafioso liderado nas sombras por Igor Smirnov, o antigo presidente da nação separatista. A autoridade económica dentro da região é tanta que dados da British Helsinki Human Rights Group, acusam a Sheriff de usar a sua influência para manipular as eleições parlamentares de 2005.

O partido renovador que chefia o governo de Tiraspol foi reeleito em 2015 com maioria absoluta, integrando na sua equipa vários membros de grandes empresas ligadas à Sheriff. Oleg Baev, director da empresa que fabrica a famosa bebida local KVINT e Andrei Mejinski, presidente da empresa de têxteis Tirotex são os casos mais sonantes. “É Sheriff por todo o lado, não há hipótese”, protesta Anna. Porém, numa região onde o salário médio mensal ronda os 200 dólares [cerca de 180 euros], a tentação de trabalhar numa das várias empresas detidas pela Sheriff que afirmam pagar o dobro é grande.

Os estudantes não escondem o desejo de querer sair da região, Anna, residente em Tiraspol e cujo sonho é trabalhar com animais e crianças, não é diferente. “Isto é mau, não há trabalho aqui, não há trabalho nas redondezas, não conseguimos viver. As pessoas aqui são agradáveis, reparam em ti e estão sempre prontas para ajudar, mas sem dinheiro e sem oportunidades é impossível”.

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Darya Fedoseyeva.

Já Darya não concorda com a angústia juvenil de Anna. “O que é que eles querem? Revolução, crime, terrorismo? Isto é o que é bom para eles”. Darya não pensa em emigrar. “Adoro a vida aqui. Tenho um bom trabalho, tenho boas relações com a minha família, tenho o meu próprio apartamento. Porque é que haveria de ir para outro sítio onde não conheço ninguém? Não vejo sentido nisso. Gosto da minha vida aqui. Não quero mudar isso”. Darya Fedoseyeva tem um auto-controlo quase robótico. O queixo triangular e as maçãs do rosto arregaladas amparam o cabelo moreno liso que com o vento desliza lateralmente batendo-LHE nos ombros. Nativa de Tiraspol, pratica musculação até à exaustão todos os dias de manhã antes de andar cerca de trinta minutos até ao trabalho. Rigor é um verbo que conjuga todos os dias.

“Posso declarar firmemente que tive uma infância feliz. Não só eu, as crianças aqui têm muito acompanhamento dos pais. Talvez porque aqui as pessoas não estão tão interessadas na carreira. Aqui o maior interesse é a família. O mesmo se aplica à escola. Os nossos professores são os nossos segundos pais. Para além disso temos parques infantis e outras formas de entretenimento. Se calhar tive uma infância feliz também por não ter internet, nem tablets, nem telemóveis. Correr, esconder, eram as coisas normais que fazíamos quando éramos crianças”, afirma Darya enquanto espreme as palmas da mão com firmeza. E acrescenta: “Em primeiro lugar, o sonho de qualquer mulher é constituir família. Sim, nós também perseguimos carreiras, trabalhamos o mesmo que os homens, mas ainda assim a família está em primeiro lugar”.

Embora filha de emigrantes russos, Darya Fedoseyeva tem orgulho na sua identidade transnístria. “Somos pessoas determinadas, até porque não vivemos nas condições mais fáceis. Não somos um país reconhecido, mas ainda assim amamos o nosso país. Somos patriotas, optimistas e temos muita dignidade”, justifica. Darya reitera que a independência ainda não foi conquistada, porque os estrangeiros não conhecem suficientemente bem a região: “Somos pessoas com a nossa maneira própria de pensar e de viver. Nós somos Transnístria(nos), nós vivemos na Transnístria. É por isso que queremos ser reconhecidos, não como moldavos, ucranianos ou russos, mas sim como transnístrios”.

Como cantor, Anton é conhecido pelo seu apelido, Dendemarchenko. Sentado num tapete de lã esverdeado, dedilha alguns acordes para o filho que se senta de pernas cruzadas a brincar com legos e com um cão de peluche. De improviso, Anton acompanha o som da guitarra com um pequeno trompete. Instantaneamente os olhos azuis do rapaz expandem-se e solta uma gargalhada. Mais tarde, num café, a trovoada de aplausos abafa o vibrar das cordas de metal. De repente, silêncio. O ritmo define o compasso e os movimentos erráticos do público. De voz meiga e num inglês com sotaque australiano, Anton canta: “Um dia o sol vai brilhar, o mundo vai-me perdoar e vou ficar bem”.


Segue o Henrique Magalhães e o João Rodrigues.

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