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Motherboard

Funcionários da Huawei têm alegadamente trabalhado com o exército chinês ao longo da última década

A empresa já veio desmentir, na mesma altura em que um relatório sobre os seus aparelhos descobriu que estes têm "centenas de potenciais vulnerabilidades de backdoor".

Por David Gilbert
28 Junho 2019, 8:59am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE News.

Funcionários da Huawei terão trabalhado em estreita colaboração com os militares chineses durante pelo menos a última década, para desenvolver tecnologias que pudessem ser usadas para recolher informações sobre os cidadãos. De acordo com documentos que estão disponíveis ao público, estes trabalhadores colaboraram com o Exército de Libertação do Povo (PLA) num projecto para extrair e classificar emoções em comentários de vídeos online. Trabalharam ainda numa iniciativa com a elite da Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa para explorar formas de recolher e analisar imagens de satélite e coordenadas geográficas.

Revelados em primeira mão pelo Bloomberg, os documentos dão mais credibilidade às alegações da Casa Branca de que a Huawei é uma potencial ameaça à segurança nacional dos EUA devido à sua estreita relação com os militares chineses - especialmente depois de um relatório publicado na última quarta-feira, 26 de Junho, mostrar que a segurança dos equipamentos da Huawei é muito mais fraca do que a dos seus concorrentes.



Ao longo da última década, pessoas identificadas como funcionários da Huawei terão colaborado com investigadores militares em pelo menos 10 projectos de investigação. Os nomes dos funcionários da Huawei e o nome da empresa foram listados com destaque no topo dos relatórios de investigação. A Huawei nega que tenha trabalhado em estreita colaboração com o ELP, alegando que estes indivíduos estavam a operar a título pessoal quando conduziram as investigações.

"Que eu saiba, não temos projectos de cooperação militar, porque somos uma empresa dedicada a fornecer sistemas de comunicação e soluções de (informação e tecnologia de comunicação) para uso civil", avançou Song Liuping, director jurídico da Huawei, à CNBC. E acrescentou: “A Huawei não personaliza produtos nem fornece pesquisas aos militares. Não temos conhecimento dos documentos publicados por alguns funcionários. Nós não temos tais projectos de investigação conjunta com o ELP".

Mas, os desmentidos da Huawei provavelmente não serão ouvidos em Washington, onde oficiais da Casa Branca estão a ler o relatório publicado na quarta-feira, que conclui que o equipamento de rede da Huawei é mais vulnerável do que o dos seus concorrentes. "Descobrimos que existiam centenas de casos de possíveis vulnerabilidades de backdoor - configurações padrão impróprias, que poderiam permitir que a Huawei ou um invasor mal-intencionado acedessem secretamente ao dispositivo de um utilizador", conclui o relatório da empresa de segurança cibernética Finite State, do Ohio, EUA.

O relatório não chega a dizer que a Huawei construiu propositadamente backdoors nos seus produtos e não aborda as alegações de que a empresa realiza vigilância electrónica em nome do governo chinês.

No seio da administração Trump, o relatório é visto como uma justificação da campanha para banir a Huawei dos EUA e encorajar os seus aliados a fazer o mesmo. "Este relatório vai de encontro à nossa avaliação de que, desde 2009, a Huawei tem mantido acesso secreto a alguns dos sistemas que instalou para clientes internacionais", disse um funcionário da Casa Branca ao Wall Street Journal.

Como parte da sua repressão à gigante de telecomunicações chinesa, a Casa Branca proibiu empresas norte-americanas de venderem tecnologia norte-americana à Huawei, embora fabricantes de chips dos Estados Unidos, incluindo Intel e Micron, tenham encontrado lacunas na lei para poderem continuar a vender centenas de milhões de dólares em componentes à Huawei, de acordo com uma reportagem do New York Times.

De acordo com o Wall Street Journal, a Huawei estará no centro das conversações entre Donald Trump e Xi Jinping, na Cimeira do G-20, amanhã, sábado, 29 de Junho, no Japão. Entre as condições prévias para qualquer acordo para resolver a guerra comercial EUA-China, Xi planeia exigir que Trump acabe com a proibição. “Pedimos aos Estados Unidos que cancelem imediatamente as suas medidas de pressão e sanção contra a Huawei e outras empresas chinesas e escolham o desenvolvimento estável e saudável das relações comerciais entre a China e os EUA", salienta Gao Feng, porta-voz do Ministério do Comércio, em declarações prestadas à imprensa na quinta-feira, 27 de Junho.


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