sepultura beneath the remains
Ilustração: Cassio Tisseo 

"Beneath the Remains": 30 anos do grande salto dos Sepultura e do metal brasileiro

Conversámos com a banda e com outros músicos do Brasil e do Mundo sobre a história e a importância deste verdadeiro clássico da música pesada.
ilustração por Cassio Tisseo
18 April 2019, 10:46am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Brasil e parcialmente adaptado ao português europeu.

Quando Beneath the Remains foi lançado, em Abril de 1989, talvez ainda não fosse possível ter uma dimensão real da sua importância. Gravado no final do ano anterior no Rio de Janeiro, o terceiro longa duração dos Sepultura e o segundo com a chamada “formação clássica”, com Max Cavalera, Iggor Cavalera, Andreas Kisser e Paulo Júnior, é certamente um dos discos mais importantes do metal brasileiro. O álbum marcou uma série de “primeiras vezes” para a banda e, consequentemente, impulsionou a música pesada feita no país para níveis até então nunca vistos.

Entre outras coisas, Beneath the Remains foi o primeiro disco dos Sepultura a sair pela Roadrunner e o primeiro gravado com um produtor especializado (Scott Burns), além de ter rendido o primeiro videoclip (para “Inner Self”) e as primeiras digressões internacionais, na Europa, na América do Norte e no México – quando aconteceu o primeiro encontro dos Sepultura com Lemmy Kilmister, dos Motörhead. Como se isso não bastasse, Beneath the Remains também abriu as portas para a trilogia Arise (1991), Chaos AD (1993) e Roots (1996), lançada nos anos seguintes e para outros clássicos nacionais que saíram ainda em 1989, como Brasil, dos Ratos de Porão, e Theatre of Fate, dos Viper.


Vê: "Heavy Metal In Baghdad"


Para relembrar as histórias e a importância do álbum, incluindo a “polémica” sobre a capa, que originalmente deveria ter sido um outro desenho de Michael Wheelan, as gravações de madrugada no Nas Nuvens, no RJ, a produção de Scott Burns e as primeiras tours fora do Brasil, entre outras muitas coisas, conversámos com os quatro responsáveis por Beneath the Remains e também com músicos do Brasil e do Mundo que foram marcados e/ou influenciados de alguma forma por esta verdadeira obra-prima do metal.

Evolução da banda na época

Max Cavalera (Soulfly, Cavalera Conspiracy, ex-Sepultura)*: Quando fizemos esses discos (Beneath the Remains e Arise), só estávamos a pensar em como é que podíamos tentar melhorar musicalmente e tocar melhor. Acho que o primeiro passo que demos nesse sentido foi o Schizophrenia (1987), que já mostrou uma musicalidade bem maior do que o Morbid Visions (1986) - apesar de eu ser bastante fã do Morbid Visions, que acho que é aquele black metal cru, bem legal e que escuto até hoje. Mas, sentimos que podíamos fazer mais, que dava para ir mais além. Portanto, quando recebemos o convite e eu fui para os EUA e conseguimos o contrato (com a Roadrunner), apercebemo-nos da seriedade da coisa e vimos que havia uma possibilidade daquilo ser a sério, de nos transformamos mesmo numa banda.

Andreas Kisser (Sepultura, De La Tierra): Quando entrei para a banda, em 1987, se ouvires o Bestial Devastation (1985), o Morbid Visions e o Schizophrenia, eles são completamente diferentes. Eu levei muita influência do heavy metal tradicional, aquela coisa de querer fazer solos, de fazer umas partes um pouco mais trabalhadas, a guitarra limpa.

A banda em 1989 na época do lançamento do álbum. Foto: Divulgação.

Paulo Junior (Sepultura): Acho que era a coisa que queríamos fazer desde moleques. E o Schizophrenia foi um disco importante, não é? Foi a parte que o Andreas entrou na banda, foi mais um auto-conhecimento. E, apesar de não termos tido muitas hipóteses de tocar ao vivo, acho que projectou e inspirou o trabalho para o Beneath the Remains. E depois (com o Beneath) assinámos um contrato, tivemos um produtor com experiência maior para ajudar na parte de produção, timbre e finalização das composições. Portanto, a coisa ficou mais séria, na verdade. Cada disco tem a sua importância, é um degrau que foi subido na carreira da banda.

Andreas Kisser: Foi aí que começámos realmente a aprender uns com os outros. Porque eu era mais do heavy metal e comecei a aprender mais sobre o hardcore, sobre o punk, sobre o death metal, aquela coisa mais crua. A forma como eles faziam música era uma coisa muito peculiar, muito única. Por isso, aprendi muito com eles e eles aprenderam muito comigo.

Gravação no Nas Nuvens

Max Cavalera: Foi um disco gravado de noite no Nas Nuvens, que acho que era o melhor estúdio do Brasil, um dos mais famosos - tantos discos bons foram lá feitos, Titãs, Legião, Paralamas. E só podíamos gravar à noite, porque estava uma banda de pop a gravar de dia. Então, as nossas sessões eram da meia-noite às sete da manhã. E eu nunca tinha feito um disco assim, nocturno. Acho que há uma cena meio louca nessa gravação nocturna e que acabou por sair no disco (risos). O disco acabou até por ficar mais raivoso por causa disso, é um disco estranho, um disco mesmo nocturno.

Paulo Junior: Foi o horário que conseguimos, porque o Nas Nuvens era um dos principais estúdios do Brasil na época. Foi o estúdio que o Scott Burns escolheu pelas exigências do equipamento e tal. E esse horário que fazíamos era entre as horas laborais das gravações do Nas Nuvens. Portanto, financeiramente falando, também era o mais plausível na época. Foi toda uma combinação de valores. Tanto que depois, com o sucesso do Beneath, conseguimos ir para o estúdio com o Scott Burns para fazer uma coisa com mais tempo, mais produzida, que acabou por ser o Arise.

Iggor Cavalera (Cavalera Conspiracy, Mixhell, Petbrick, ex-Sepultura): O Nas Nuvens era o estúdio do Liminha, dos Mutantes. Foi aquela coisa, já estávamos num estúdio bem mais legal do que aquele em que gravávamos antes, que era um estúdio onde os tipos gravavam sertanejo e queriam distorcer tudo – e ficava uma merda, porque eles queriam organizar as coisas.

Andreas Kisser: E a gente escolheu também o Nas Nuvens porque a gente amava, eu pelo menos amo até hoje, o Cabeça Dinossauro (1986), do Titãs, produzido pelo Liminha, gravado lá. Então esse disco realmente...Ah, onde foi gravado? Foi lá? Então é lá é que a gente tem que ir.

A escolha de Scott Burns

Andreas Kisser: Outra possibilidade de produção foi o Jeff Waters, guitarrista dos Annihilator, que também é produtor. Quase fechámos com ele na época, ficou entre os dois. Mas, o Scott era o que mais queríamos, por causa dos estúdios Morrisound, dos Death, toda aquela cena da Flórida, que sempre influenciou muito os Sepultura – os Morbid Angel e tudo o mais.

Iggor Cavalera: De repente podia ter sido do caralho fazer com ele (Jeff Waters). Mas, a nossa cabeça na época disse: “Não, mano, vamos fazer com o Scott Burns porque ele faz as bandas mais fodas”. E que também era o caminho mais rápido, vamos dizer assim, porque não queríamos arriscar. Até porque, até então, ainda estávamos num grupo meio de risco da editora. Tipo, eles ainda não acreditavam a 100 por cento em nós. Ainda estavam naquela: “Vai lá fazer o disco com os miúdos e vê no que é que dá”. Depois do Beneath the Remains é que eles conseguiram ver e dizer: “Puta que pariu, não, não, realmente os tipos sabem o que estão a fazer, vamos trazê-los para cá para fazer o Arise”.

Sobre trabalhar com Scott Burns

Andreas Kisser: O Scott Burns veio para o Brasil e tivemos uma química absurda, imediata. Ele chegou aqui de chinelos, ganhou logo o apelido de “Tião”, era algo como “este cara é mais brasileiro do que nós”.

Iggor Cavalera: O Scott Burns trouxe um boombox, que era para irmos ouvindo as cassetes que gravávamos no estúdio. E, no segundo dia, roubaram-lhe o aparelho do quarto dele no hotel.

Andreas Kisser: Ah, e ele trouxe um cabeçote da Mesa Boogie, que era a grande arma que tínhamos. Porque aqui no Brasil não existia isso. Ele também trouxe as fitas, que era uma coisa que custava muito dinheiro.

A polémica com a capa

Andreas Kisser: A capa não era para ter sido aquela, apesar de, agora, eu amar a capa. Acostumámo-nos, obviamente. E fomos obrigados a escolher a capa entre outros desenhos que o Michael Wheelan tinha enviado. Porque a primeira capa que realmente tínhamos escolhido para ser o Beneath the Remains é a capa que acabou por ir para o Cause of Death (1990), dos Obituary.

Iggor Cavalera: A bronca foi por causa dos tipos (da gravadora) terem decidido por eles inverter as coisas. Mas, arte por arte, hoje gosto mais do Beneath the Remains do que a que seria originalmente, que era o Cause of Death, dos Obituary. Porque, acho que até a coisa de ela ser um pouco mais estranha, aquela cena da caveira estar um pouco fora do centro e ficar um monte de espaço preto, hoje acho isso muito mais legal do que aquela coisa que toda a gente fazia igual, tudo centralizado. Mas, a bronca mesmo não foi do desenho em si, mas mais deles simplesmente dizerem: “Ah não, nós demos essa aos outros”. E, querendo ou não, o meu irmão é que descobriu o Michael Wheelan, num livro num shopping e fez a Roadrunner ir atrás dele. Portanto, por esse lado foi meio foda. Mas, em termos do desenho em si, acho os dois legais pra caralho.

A capa do álbum "Cause of Death", dos Obituary.

Andreas: Com o Arise, acho que conseguimos fazer realmente o disco que queríamos, com o livreto, com as fotos que quisemos, com as letras. A capa foi exclusiva para nós, o Michael Wheelan fez uma capa. E conquistámos tudo isso através do Beneath the Remains.

O videoclip de “Inner Self”

Andreas Kisser: E houve também o primeiro clip, da “Inner Self”. E isso foi muito interessante, porque a editora ficou surpreendida com a reação que o Beneath the Remains teve – o disco vendeu pra caralho muito rápido. Já estávamos no Brasil e de emergência eles disseram: “Ah, a precisamos de um videoclip”. E nós: “Ah, caralho, que foda, do caralho. Mas, como é que vamos fazer isso? (risos)”. Então falámos aqui com uns amigos e fizemos o clip. E se vires o clip da “Inner Self”, ele não tem nada a ver com nada, mas tem tudo a ver com tudo. Porque, estávamos a mostrar o Brasil, a mostrar São Paulo, a atravessar a Avenida Paulista, a mostrar o pessoal do skate que andava connosco, a jogar futebol, que era algo que curtíamos. E um concerto que fizemos no Projeto SP, um puta concerto, praticamente o concerto de lançamento do Beneath the Remains aqui no Brasil, que foi um dos maiores que fizemos na nossa história até àquele momento.

Gastão Moreira (Kazagastão, ex-MTV): Vi o vídeo numa feira que a MTV fez um mês antes de entrar no ar e fiquei arrepiado. Tecnicamente o clip é tosco, mas é um registo muito importante de uns Sepultura que se iriam tornar gigantes pouco tempo depois. O vídeo tornou “Inner Self” um clássico e foi tocado à exaustão no meu querido Fúria Metal, tornando o metal brasileiro motivo de orgulho nacional.

Primeira digressão internacional com os Sodom na Europa e recepção fora do país

Andreas Kisser: Foi maravilhoso, né mano? Estávamos realmente preparados, ensaíavamos todos os dias. Chegávamos lá para tocar e destruíamos. Estávamos muito com sangue nos olhos. Fomos sem equipa, usámos os roadies dos Sodom.

Paulo Junior: Foi super legal. Era o sonho de qualquer moleque que tocava heavy metal naquela época ter a possibilidade de sair para fazer uma digressão. Além de ter esse lado de estarmos super felizes e super curiosos, tivemos também a preocupação de ter uma... Nós fizemos uma sequência de actuações muito grande. Portanto, não sabíamos realmente como seria, como aconteceria. E acabou por ser muito mais proveitoso do que imaginávamos. Fazeres uma sequência de concertos, ajuda-te bastante. Portanto, esse foi um desafio que agarrámos de letra. E acabámos realmente por ver que era algo que beneficiava o artista, no contexto geral da coisa. Tinhas que estar na estrada, independentemente do que fizesses. Se és músico, tens que estar a mostrar o teu trabalho ao vivo, que é a parte melhor e mais interessante.

Andreas Kisser: Na altura, eles (Sodom) realmente estavam num momento especial da carreira e nós entrámos meio que como novatos. Na Alemanha eles eram muito grandes – na Alemanha, na Áustria, os países de língua alemã. Mas, fora da Alemanha engolimos os tipos, principalmente no Marquee, em Londres, e em França, no Gibus. Nós tocávamos e, sem exagero, 80 por cento do público ia-se embora e eles tocavam para 20 por cento.

Foto: Divulgação.

Iggor Cavalera: Havia uma excitação (dentro da banda), mas não tínhamos ideia (da proporção que o disco teria). Havia essa excitação, que sabíamos que íamos para fora, que o disco ia ser lançado nesses lugares. Até então, só tínhamos uma versão pirata do Schizophrenia que alguém pirateou na Alemanha e nos EUA – o que foi legal por um lado, mas não era aquela coisa oficial. Portanto tínhamos, sei lá, um pouco de esperança.

Mas, depois, a partir do momento que tocámos fora, lembro-me que o primeiro concerto a abrir para os Sodom foi em Viena, tocávamos as músicas e os miúdos a passarem-se com tudo o que tocávamos. Tínhamos aquela ideia de que ninguém quer ouvir a banda de abertura, tipo vão lá só para ver o headliner, não importa o que tu toques. E foi mais ou menos ao contrário essa cena com os Sodom. Às vezes, havia muito mais gente para nos ver do que aos Sodom. A partir dali, dissemos: “Puta mano, esse disco realmente tá foda”. Mas, antes disso era muito mais uma coisa da nossa cabeça, de fantasiar com esperança, mas não tínhamos noção.

Andreas Kisser: E isso mostrou-nos que...É muito motivante veres esse apoio por parte de gente que nunca viste na vida, com t-shirts do Beneath the Remains, a cantarem a letra da “Inner Self”, vindos da Hungria, do outro lado do Muro de Berlim, porque o muro ainda não tinha caído. Estávamos ali em Setembro de 1989, acho. Inclusive tocámos em Berlim e fizemos uma foto com o muro ainda de pé. Portanto, gente da Hungria, da Polónia a ir para ver um concerto era muito legal, era muito raro. E isso causou um impacto em mim muito forte, de ver realmente que a música tem um poder absurdo de penetração, de chegara lugares que nunca imaginaste.

Primeira digressão nos Estados Unidos

Andreas Kisser: O Beneath the Remains também nos levou para os EUA. Ficámos na Europa e fomos directos para os EUA. Acho que ficamos uns quatro meses fora do Brasil na nossa primeira digressão internacional. Foram praticamente dois meses na Europa e mais dois nos EUA. Pô, os Metallica foram ver-nos, conhecemos o pessoal dos Exodus. Na Bay Area foi toda a gente, todas as bandas – Death Angel, Vio-lence, Exodus, o pessoal dos Testament, foi toda a gente. Era incrível de ver, a curiosidade que os Sepultura geravam. Porque não havia Internet, não é?

O pessoal ouvia histórias, não sabiam sequer pronunciar bem Sepultura, diziam “Sepaultura”, tipo “como é que são estes tipos?” (risos). E a foto do Beneath the Remains atrás é ainda mais obscura, porque é uma coisa escura, que nem vês quem é quem na banda. Mas, criou uma aura de misticismo que foi muito positiva para nós, as pessoas ficaram curiosas para nos ver de perto. Portanto era sensacional, poder conhecer os nossos ídolos e eles a quererem-nos conhecer. Puta mano, coisa mais linda do mundo.

Primeiro concerto no México

Iggor Cavalera: A história desse concerto acho que é uma das coisas mais passadas do mundo. Era a primeira vez a tocarmos no México, na digressão do Beneath mesmo, e a banda de abertura estourou o PA. Estávamos nos camarins, a sala esgotada, e o tipo entra e diz: “Ó, o PA foi-se”. E nós: “Puuuta, e agora?”. E ele: “Ahh, sei lá, não há como trocar, se quiserem cancelar, tudo bem”. E eu lembro-me que eu olhei para o meu irmão e disse: “Ah, vamos tentar fazer, não é?”. Lembro-me que ligámos as coisas, ligámos o micro em mais uns amplificadores e fizemos sem PA.

Portanto, além do concerto ser uma puta maluquice, não há PA, é só o som do palco com os moleques a cantar. E é aquele tipo de coisa que poderíamos ter perdido se disséssemos algo como: “Não, vamos cancelar, porque não vai ser o concerto perfeito e não sei quê...”. O que teria sido uma cagada mortal, porque foi um dos concertos mais legais. Principalmente, porque alguém filmou, porque naquela época quase ninguém filmava. Portanto, não era uma cena comum. E essa actuação foi mais ou menos isso, quase que não aconteceu.

Primeira vez que ouviu o disco

Pedro Poney (Violator, Abismo): A primeira vez que ouvi o Beneath the Remains deve ter sido ali pelo fim dos anos 1990, mais ou menos, que era uma época em que eu e os meus amigos – que viríamos a formar os Violator – estávamos a descobrir essa coisa que era o thrash metal. Naquela altura, num mundo de transição entre offline e online, as coisas ainda se perdiam na nossa cultura. E o thrash metal era uma cultura perdida naquele momento, no fim dos anos 1990. Era uma palavra esquecida até assim, o thrash. Estávamos nessa redescoberta dos primeiros discos dos Kreator. E o Beneath the Remains foi logo um dos primeiros discos que apareceram. E foi muito marcante, porque acho que nunca tinha ouvido nada tão rápido, tão violento, com uma energia tão concentrada. Nunca mais fui capaz de escutar os Sepultura da mesma forma.

Spencer Hazard (Full of Hell): Na verdade, cheguei tarde ao Beneath the Remains. Já era fã do Chaos AD e do Arise, mas nunca tinha realmente feito o meu caminho em direcção a ele até bastante depois. E agora é o meu disco favorito da banda. Adoro como é um álbum muito cru, mas ao mesmo tempo tão “cativante”. Uma mistura perfeita dos seus trabalhos anteriores e para onde eles iriam seguir com o Arise.

Impacto do disco

Gastão Moreira: O Beneath the Remains consolida uma evolução que começou com a entrada de Andreas Kisser no álbum anterior, Schizophrenia. A inocência dos primeiros discos é trocada por disciplina e profissionalismo. Confesso que não gosto muito da produção do Scott, que deixou a desejar no peso das guitarras.

Boka (Ratos de Porão): Acho que o maior impacto para mim foi quando saiu o Schizophrenia. Não dava para acreditar que era uma banda nacional. Um passo à frente em todos os sentidos. O Beneath já foi aquela confirmação de expectativa, de pensarmos e dizermos: “Essa banda é a melhor, sem sombra de duvidas”.

Músicas favoritas

Nate Newton (Converge): Costumo ouvir o disco inteiro, de fio a pavio, mas as músicas que sempre costumava colocar nas mixtapes são “Primitive Future” e “Stronger Than Hate”.

Spencer Hazard (Full of Hell): A “Stronger Than Hate” é não apenas a minha música favorita do disco, mas a minha faixa favorita dos Sepultura no geral.

Iggor Cavalera: Acho que, para mim, a “Mass Hypnosis” ainda é a melhor para tocar ao vivo. Tem um puta som, de trabalho de bateria também, acho que ficou muito boa. E voltar a estar a tocar isto foi legal pra caralho.

Legado do Beneath the Remains

Andreas Kisser: O Beneath the Remains realmente foi uma porta para o Mundo, a primeira vez que saímos do Brasil para tocar e representar os Sepultura, a nossa música, através do Beneath the Remains, que foi muito bem aceite pelo público, imediatamente. Tanto é que, depois, a Roadrunner reeditou o disco com um póster da banda, com as letras, da maneira que queríamos fazer no princípio.

Paulo Junior: Acho que o Beneath foi a abertura das portas. Porque deu-nos a possibilidade de fazer uma primeira digressão internacional, de conhecermos lugares fora do país e de nos prepararmos para os anos que se seguiriam. Acho que foi um marco na carreira internacional da banda.

Boka: Foi um divisor de águas, não é? Acho que mostrou a banda em excelente forma, mais ou menos num auge. Talvez seja o melhor disco do estilo que saiu. Qualidade impecável. Colocou o metal nacional num patamar de total relevância na época e historicamente.

Nate Newton: Acho que ainda se mantém (depois de todo este tempo). Há um lugar especial no meu coração para a produção de metal/crossover/hardcore daquela época – apesar de algumas vezes ouvir esses discos e pensar como eles soariam com o tratamento e as ferramentas que estão disponíveis hoje. Houve muito tempo para aprender como gravar esse tipo de som desde então. Quando o Beneath the Remains saiu, ainda era tudo muito novo. Acho que o Beneath marcou o início dessa progressão e deixou claro que era uma banda para prestares atenção.


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Gastão Moreira: O Beneath the Remains encontra uns Sepultura mais maduros em todos sentidos. Nesse disco abriram caminho para o som poderoso executado nos sucessores de Beneath. As composições são mais elaboradas, a voz do Max está mais consistente e o Iggor revela-se um baterista diferenciado.

Spencer Hazard: Como disse anteriormente, penso que é o melhor disco deles, mas talvez mais um favorito das pessoas no underground. Penso que deveria ser tratado com mais respeito no mainstream, juntamente com o Roots ou o Chaos.

Pedro Poney: A impressão que eu tenho é que o disco continua a ser um passo fundamental de internacionalização do metal brasileiro. Acho que, se o posso dizer hoje pela perspectiva de uma banda que tem viajado pelo Mundo, o Beneath the Remains é uma pedra fundamental na nossa construção da internacionalização do metal brasileiro. Portanto, penso que todas as bandas, desde as que estavam com eles na época até às de hoje, têm que reconhecer isso. Acho que todos nós que nos sentimos parte dessa comunidade, dessa comunidade de contracultura, temos que agradecer e reconhecer o Beneath the Remains como uma pedra fundamental no processo de colocar a nossa cultura cada vez mais próxima do Mundo. E é assim que funciona, o heavy metal tem que ser uma cena sem fronteiras.

*As declarações de Max Cavalera contidas aqui foram publicadas originalmente em Novembro de 2018 noutra reportagem da VICE Brasil, também feita por este que vos escreve, quando o músico estava no país para uma digressão focada no Beneath the Remains e no Arise, que inclusive acaba de ganhar novas datas para Junho – vê o cartaz abaixo.


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