Cultura

A nova exposição de arte de Harmony Korine é uma ode ao VHS

"BLOCKBUSTER" é uma mostra inspirada no clube de vídeo situado perto do Taco Bell favorito do cineasta.

Por Arnolt Smead
10 Outubro 2018, 10:00am

Imagens cortesia Galeria Gagosian.

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma i-D.

É uma noite nublada de Setembro em Nova Iorque, EUA, e há uma fila a formar-se à frente da galeria Gagosian, no Upper East Side. Socialites e estudantes de cinema estão em busca de um momento, uma foto ou um autógrafo de Harmony Korine, que chegou atrasado para a inauguração da sua mais recente exposição, BLOCKBUSTER. Este grupo de fãs é revelador; o guionista e realizador de clássicos de culto, como Gummo e Trash Humpers está agora num outro patamar de fama.

Pode ser por causa do seu gangbang de cultura pop de 2012, Spring Breakers. Actualmente está a experimentar a comédia, com The Beach Bum, que conta com Matthew McConaughey no papel de Moondog, um poeta da Flórida com um forte apetite por erva e zero sentido de estilo. O quião quase poderia ser uma página do diário de Korine, que actualmente divide o seu tempo entre a família em Nashville e a vida à la Hemingway moderno em Miami.


Vê: "'A Lenda de Cambo', um documentário de Harmony Korine"


Desde que estabeleceu o seu nome nos anos 90 com o guião para Kids, de Larry Clark, Korine vem vindo a aprimorar a sua arte como contador de histórias, construindo uma estética e um universo muito próprios. Os seus filmes levam o público em viagens surreais pelas entranhas da vida norte-americana. Sonha com personagens indeléveis, todos com um certo fascínio por acidentes de carro, sobrecarregados pelo destino e más decisões, mas ainda assim determinados a continuar.

Esses retratos mais perturbadores da cultura jovem, reflectem a luta pessoal de Korine com a depressão e o abuso de drogas. Mas, mesmo que o bad boy do cinema norte-americano tenha crescido – ou pelo menos virado a página –, os seus filmes, pinturas e realidade continuam conectados. Derivam da mesma mente louca, que actualmente parece imersa na leveza do ser.

BLOCKBUSTER também habita esse espaço. A exposição é uma série de pinturas coloridas com cassetes VHS e uma quebra clara das abstracções de sons e alucinações que o artista costumava fazer. Os fantasmas do seu passado ainda pairam por aqui, mas estão contidos em caixas. Ele transformou a sujidade e o desamparo em algo significativo. E ainda há ambição por detrás de tudo o que faz: encontrar beleza na realidade, por mais cruel e irreverente que seja.

A i-D encontrou-se com Korine para falar sobre a arte a imitar a vida, alcançar o nirvana e a sua paixão pelo Taco Bell.

i-D: Tens sido muito produtivo como artista nos últimos anos. Porque é que te focaste na arte e não no cinema?
Harmony Korine: Gosto mais de fazer arte hoje em dia. Também gosto de pescar. Em Key Largo comprei um barco com uma máquina electrónica de póquer. Coloco um cavalete perto da máquina e, geralmente, passo o dia a fazer uma coisa ou outra. Levo uma caixa de Mountain Dew e fico a navegar. É uma rotina muito fixe.

BLOCKBUSTER parece mais directo que os teus trabalhos anteriores. Foi uma escolha consciente?
Não. Geralmente como apenas Taco Bell ao pequeno-almoço e almoço e o Taco Bell que frequento fica ao lado de um clube de vídeo. Ia ver a montra deles todos os dias. Adorava ver as caixas de VHS todas juntas, como uma instalação gigante. Nunca estava ninguém na loja e a poeira cobria as caixas como uma névoa branca bonita. Isso fez-me querer pintar por cima delas. Gosto da ideia do que há dentro da caixa e como posso transformar a narrativa.

É assim que também trabalhas como realizador, não? Deixando o visual comandar a narrativa, trocando guiões e fazendo os actores improvisarem?
Sim. Também bebo água mexicana.

Porque é que demoraste tanto tempo a lançar outro filme?
Sou lento. Aproveito a vida. Fazer filmes é uma chatice. Moro na Flórida. Tento fazer algo novo todos os dias, mas também admiro pessoas que não têm ambição. É um acto de desafio não ter ambição. E também é um bom estilo de vida. Conheço um gajo que só bebe cerveja e conduz o seu barco o dia inteiro. Ele costuma "apagar" bastante, mas quando está acordado é feliz.

Foi esse tipo que inspirou Moondog? Como é que pensaste em The Beach Bum?
Principalmente a andar por Key West e a observar as pessoas de lá.

Muitas vezes, os teus filmes deixam as pessoas desconfortáveis. É isso que queres com esta nova longa-metragem?
Não, espero que as pessoas se sintam bem depois de verem o filme.

Tens sempre os dedos no pulso do zeitgeist. Como é que te manténs actualizado com o que está a acontecer?
Só me empolgo com as coisas que a garotada faz. Presto-lhes sempre atenção.

No que mais estás a trabalhar neste momento?
Principalmente a pintar. Também ando a comer muito Fruity Pebbles. Faz-me sentir bem. Todos os dias vou ao Taco Bell e peço a mesma coisa, Cheesy Gordita Crunch. Aos fins-de-semana, para variar, peço o Triple Double Crunch Wrap. Ouço City Morgue e Vybz Kartel enquanto como. Depois disso posso escrever um poema e viajar. Esse é o futuro.

Como artista multidisciplinar, há alguma coisa que ainda gostarias de experimentar?
Acho que já fiz de tudo. Eu diria ópera, mas não gosto de ópera.

Sentes-te nostálgico em relação ao passado?
Não, não ligo minimamente a isso. Gosto do futuro. No futuro posso comer Cocoa Puffs e fumar umas o dia inteiro. Posso andar de jet ski com um ladrão de diamantes. O tempo é arbitrário agora. A Internet nivelou o tempo. Por isso, caminho em direcção à luz.

"BLOCKBUSTER" fica em exposição na galeria Gagosian, em Nova Iorque, até 20 de Outubro de 2018. The "Beach Bum" chega aos cinemas dos Estados Unidos a 22 de Março de 2019, não havendo ainda data de estreia prevista para Portugal.


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